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— Não calunie, Sr. Câmara, não calunie! Quem está de fora, fala bem... Creia que não há vida pior... Eu que o diga, que ainda hoje lhe sofro as consequências. — E curvava hipocritamente o cachaço e baixava as pálpebras, como para conter alguma lágrima de mártir, retardatária.
— Tenha paciência, meu caro, eu acho bem. — Inácio Miguéis aprumou-se e cravou no interlocutor uma olhada fula. O Câmara prosseguiu: — Pois não é assim?... Estamos a vestir caríssimo.
— Se carregarem nos direitos, mais caro havemos de vestir.
— Nada, não pode ser!
— Não pode ser?... Homessa! — insistiu com firmeza Inácio. — Encarece o que vier de fora, que há de ser menos, e encarecem os artigos nacionais, que hão de ter mais procura.

Xavier da Câmara conheceu que estava a pique de sustentar uma tolice, e então salvou-se explanando, num atabalhoamento palavroso de ignorante que se defende:

— É que os senhores negociantes, com o pretexto dos direitos, estão aí a impingir-nos fazendas nacionais como estrangeiras, por um dinheirão!... Mas isto acaba!... Desde que aumente na pauta a taxa da importação dos artigos de vestuário, por forma que venha a tornar-se insignificante a entrada deles nos nossos mercados, já a gente depois sabe que se há de vestir com panos da Covilhã e da Arrentela, e o comércio há de fornecê-los baratos e contentar-se com um lucro razoável, quer queira, quer não.
— E confirmou com ares de quem bebia do fino, sem se desconcertar: — O pensamento do Governo