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obscura dos humildes, no esquecimento inefável de alguma casita modesta, perdida na solidão... E aqui os olhos do clamoroso vate iam cair suplicantes, num amortecimento langoroso, sobre os olhos da D. Julita, que se torcia na cadeira, desesperada.

Desgrenhadamente lúgubre o final. Não esquecera o «mistério, o palor funéreo, o cemitério» e bastas rimas no género, que imprimiam àquela arenga arrepiante um ar plangente e fantástico de elegia.

A poesia, portanto, filiava-se por essência na pieguice então em voga do «teu amor e uma cabana». Mas era mais do que isso. Estilava um ceticismo torturado e lírico. Tinha de Melibeu e de Musset. Mesmo na primeira parte havia toda uma revolução de originalidades bravas, já «deboche» aparecia a rimar com «Rigolboche»; falava-se em Falstaff, em Luculo, em Moloch, em Sganarello; o sol era comparado a um «dobrão» e a lua a um «requeijão»; diziase muito acertadamente que o mundo agonizava entre o «bordel» e o «quartel»; gemiam-se trenos sobre o «calvário» do «proletário»; o céu era interpelado muito a sério sobre se o «ente imenso e necessário», que em nós habita, não passa de uma simples «argamassa de potassa e de calcário...» Para mais, tudo em alexandrinos!

Grande ovação no final. — Linda! linda! — conclamaram todas as damas, menos D. Júlia.

— Que final! Que elevação! Que sentimento! — sublinhava, de olhos em alvo, D. Aurélia.
— Quem é o autor? — perguntou a dona da casa. E, fitando muito o Mendonça, numa inquirição inteligente: —Aposto que adivinho...

Ao que o estudante respondeu, modesto, baixando a inspirada cara: