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muitos anos, gesticulava e mexia com os lábios, monologando sem pronunciar as palavras. Parecia indiferente a tudo, a tudo que a cercava.

Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com Botelho, as lágrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ela teve de abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam fazer nada.

Botelho havia dito ao vendeiro:

— Faça o pedido! É ocasião.

— Hein?

— Pode pedir a mão da pequena. Está tudo pronto!

— O Barão dá-ma?

— Dá.

— Tem certeza disso?

— Ora! se não tivesse não lho diria deste modo!

— Ele prometeu?

— Falei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorizado por você. Fiz mal?

— Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!

— Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe falar, compreende?

— Ou escrever.

— Também!

— E a menina?

— Respondo por ela. Você não tem continuado a receber as flores?

— Tenho.

— Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando também