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REDONDILHAS.


De confusões e d'espanto
Como hei de cantar o canto,
Que só se deve ao Senhor?

Tanto póde o beneficio
Da graça que dá saude,
Que ordena que a vida mude:
E o qu'eu tomei por vício,
Me faz grao para a virtude;
E faz qu'este natural
Amor, que tanto se préza,
Suba da sombra ao real,
Da particular belleza
Para a belleza geral.

Fique logo pendurada
A frauta com que tangi,
Ó Hierusalem sagrada,
E tome a lyra dourada
Para só cantar de ti;
Não captivo e ferrolhado
Na Babylonia infernal,
Mas dos vicios desatado,
E cá desta a ti levado,
Patria minha natural.

E s'eu mais der a cerviz
A mundanos accidentes,
Duros, tyrannos e urgentes,
Risque-se quanto ja fiz
Do grão livro dos viventes.
E, tomando ja na mão
A lyra santa e capaz
D'outra mais alta invenção,