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SONETOS.


LIV.

Quando vejo que meu destino ordena
Que, por me exprimentar, de vós me aparte,
Deixando de meu bem tão grande parte,
Que a mesma culpa fica grave pena;

O duro desfavor, que me condena,
Quando por a memoria se reparte,
Endurece os sentidos de tal arte
Que a dor da ausencia fica mais pequena.

Mas como póde ser que na mudança
D'aquillo que mais quero, estê tão fóra
De me não apartar tambem da vida?

Eu refrearei tão aspera esquivança:
Porque mais sentirei partir, Senhora,
Sem sentir muito a pena da partida.



LV.

Despois de tantos dias mal gastados,
Despois de tantas noites mal dormidas,
Despois de tantas lagrimas vertidas,
Tantos suspiros vãos vãamente dados,

Como não sois vós ja desenganados,
Desejos, que de cousas esquecidas
Quereis remediar mortaes feridas.
Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados?

Se não tivereis ja longa exp'riencia
Das semrazões de Amor a quem servistes,
Fraqueza fôra em vós a resistencia.

Mas pois por vosso mal seus males vistes,
Que o tempo não curou, nem larga ausencia,
Qual bem delle esperais, desejos tristes?