Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/231


157}
Humas, regando as humidas arêas,
De flores tẽe o tumulo adornado;
Outras, queimando lagrimas Sabêas,
Enchem o ar de cheiro sublimado;
Outras em ricos pannos, mais avante,
Envolvem brandamente hum novo infante.
  Huma, que d'entre as outras se apartou,
Com gritos, que a montanha entristecêrão,
Diz, que despois que a morte a flor cortou
Que as estrellas somente merecêrão,
Este penhor charissimo ficou
Daquelle, a cujo imperio obedecêrão
Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
Até o remoto mar da Taprobana.
  Diz mais, que se encontrar este menino
A noite intempestiva, amanhecendo,
O Tejo, agora claro e crystallino,
Tornará a fera Alecto em vulto horrendo.
Mas que, a ser conservado do Destino,
As benignas estrellas promettendo
Lh'estão o largo pasto de Ampelusa,
Co'o monte que em mao ponto vio Medusa.
  Este prodigio grande Nympha bella
Com abundantes lagrimas recita.
Porém, qual a eclipsada clara estrella,
Qu'entre as outras o ceo primeiro habita:
Tal coberta de negro vejo aquella,
A quem só n'alma toca a grã desdita.
Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver
Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer.{158}
            FRONDELIO.