Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/236



Fé de meus males dando,
Para que minhas mágoas
Sejão castigo igual de meu desejo:
Que, pois em mim não vejo
Remedio, nem o espero;
E a morte se despreza
De me matar, deixando-me á crueza
Daquella por quem meu tormento quero;
Saiba o mundo meu dano,
Porque se desengane em meu engano.
  Ja que minha ventura,
Ou a causa qu'a ordena,
Quer qu'em pago da dor tome o soffrella;
Será mais certa cura
Para tamanha pena
Desesperar d'haver ja cura nella.
Porque se minha estrella
Causou tal esquivança,
Consinta meu cuidado
Que me farte de ser desesperado,
Para desenganar minha esperança:
Pois somente nasci
Para viver na morte, e ella em mi.
  Não cesse meu tormento
De fazer seu officio,
Pois aqui tẽe hum'alma ao jugo atada:
Nem falte o soffrimento,
Porque parece vício
Para tão doce mal faltar-me nada.
Oh Nympha delicada,
Honra da natureza!{