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  O gado, que apascento,
São n'alma os meus cuidados;
As flores, que no campo sempre vejo,
São no meu pensamento
Teus olhos debuxados,
Com qu'estou enganando o meu desejo.
Do frio e doce Tejo
As águas se tornárão
Ardentes e salgadas,
Despois que minhas lagrimas cansadas
Com seu puro licor se misturárão;
Como quando mistura
Hyppanis co'o Exampêo sua água pura.
  Se ahi no mundo houvesse
Ouvires-me algum'hora,
Assentados na praia deste rio;
E d'arte te dissesse
O mal que passo agora,
Que pudesse mover-te o peito frio!..
Oh quanto desvario,
Qu'estou imaginando!
Ja agora meu tormento
Não póde pedir mais ao pensamento,
Qu'este phantasiar, donde penando
A vida me reserva.
Querer mais de meu mal será soberba.
  Ja a esmaltada Aurora
Descobre o negro manto
Da sombra, que as montanhas encobria.
Descansa, frauta, agora,
Pois meu escuro canto{