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D'atras nuvens vestido, horrido e feio,
Ennegrecendo á vista o ceo superno,
Quando os troncos arranca o rio cheio;
Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno,
Que ao mundo mostra hum pallido receio:
Tal o amor he cioso, a quem suspeita
Que outrem de seus trabalhos se aproveita.
            ALICUTO.
  Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
Furor lançando flammas e bramidos,
Quando as pasmosas serras traz diante,
Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos:
A braços derribando o ja nutante
Mundo, co'os elementos destruidos:
Assi me representa a phantasia
A desesperação de ver hum dia.
            AGRARIO.
  Minha alva Dinamene, a primavera,
Que os deleitosos campos pinta e veste,
E rindo-se huma côr aos olhos gera,
Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste;
As aves, as boninas, a verde hera,
E toda a formosura amena agreste
Não he para os meus olhos tão formosa,
Como a tua, que abate o lirio e rosa.
            ALICUTO.
  As conchinhas da praia, que presentão
A côr das nuvens, quando nasce o dia;
O canto das Sirenas, que adormentão;
A tinta, que no Murice se cria;
O navegar por ondas, que se assentão{221}