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De teu pae saberás se minto, ou não.
  Por filho me criou: a flor da idade
Gastei em o servir por teu respeito:
Ólha o que te merece esta vontade.
  Se com ser isto assi tenho êrro feito
Em grangear-te; que a ti só desejo;
Eis este ferro aqui, eis este peito.
  Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo,
Pondo os olhos no chão, formosa e branda;
E cuido qu'inda assi nos meus a vejo.
  Disse-me: Em que revoltas o amor anda!
No bem, como no mal, tambem me enleia:
Inda agora o senti, ja reina e manda.
  Como queres, Anzino, qu'eu te creia
Cousa que nem sonhada foi tégora?
Não sabes de quem ama, o que receia?
  Fallarei com meu pae: fica-t'embora:
No desengano seu teu bem consiste;
Da palavra que dei não estou fóra.
  Com isto me deixou alegre e triste.
O comêço ja ouviste de meu dano,
Amigo Limiano: o fim amargo,
Em que não serei largo, escuita agora.
Fulgencia, outra pastora, que vizinha
Era d'amada minha e grande amiga,
(Não sei como isto diga que não moura)
Pastora branca e loura, que na serra
Era a segunda guerra dos pastores,
Por mal dos meus amores me quiz bem.
Fundava-se porém em casamento;
E deste fundamento lhe nascia,{262}