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  Fortuna, a mi cruel, sempre benina
Em tudo seja áquella, que em ti mora,
Indaqu'em outros braços se reclina.
  Fica-te aqui, minha alma, fica embora,
Que, pois assi o quiz fado inimigo,
Jamais te não verei dia nem hora.
  Dalli nos ricos campos dei comigo,
Que das ágoas do Tejo são regados;
Onde te vi mais ledo, como digo.
  Por ver se posso agora a meus cuidados
Achar algum repouso, algum socêgo,
Atravessando vou montes e prados.
  Passei as claras ágoas do Mondego,
Das Lusitanas Musas charo ninho;
As do Douro despois em turvo pégo.
  Daqui continuando meu caminho,
Espero ver a casa aos ceos acceita,
Na terra que da nossa aparta o Minho.
  Onde vou visitar na urna estreita
Os santos ossos do Varão divino,
Que pretendeo do Mestre o mão direita.
  Assi, d'hum lugar n'outro de contino,
O bem que ja cantei, chorando venho;
Tornei-me de vaqueiro, peregrino:
  Tal hábito me vês, tal vida tenho.
            LIMIANO.
  Anzino, he breve o dia
Para poder contar
O que sinto de tua desventura.
E sei bem qu'erraria,
Se quizesse louvar{266}