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CANÇÃO II.
A instabilidade da fortuna,
Os enganos suaves d'Amor cego,
(Suaves se durárão longamente)
Direi, por dar á vida algum socêgo;
Que pois a grave pena m'importuna,
Importune meu canto a toda gente.
E se o passado bem co'o mal presente
M'endurecer a voz no peito frio;
O grande desvario
Dara de minha pena sinal certo;
Que hum êrro em tantos erros he concêrto.
E pois nesta verdade me confio,
(Se verdade se achar no mal que digo)
Saiba o mundo d'Amor o desengano,
Que ja com a razão se fez amigo,
Só por não deixar culpa sem castigo.
  Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma;
Ja se tornou de cego razoado,
Só por usar comigo semrazões.
E se em alguma cousa o tenho errado,
Com siso grande dor não vi nenhuma:
Nem elle deo sem erros affeições.
Mas, por usar de suas isenções,
Buscou fingidas causas de matar-me:
Que para derribar-me
A este abysmo infernal de meu tormento,
Nunca soberbo foi meu pensamento,{304}