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Tantas vezes m'esteve a vida chara.
Agora exprimentando a furia rara
De Marte, que nos olhos quiz que logo
Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.
E neste escudo meu
A pintura verão do infesto fogo.
Agora peregrino, vago, errante,
Vendo nações, linguagens e costumes,
Ceos varios, qualidades differentes,
Só por seguir com passos diligentes
A ti, Fortuna injusta, que consumes
As idades, levando-lhes diante
Huma esperança em vista de diamante:
Mas quando das mãos cahe se conhece
Que he fragil vidro aquillo que apparece.
  A piedade humana me faltava,
A gente amiga ja contrária via,
No perigo primeiro; e no segundo,
Terra em que pôr os pés me fallecia,
Ar para respirar se me negava,
E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tão arduo e tão profundo,
Nascer para viver e para a vida,
Faltar-me quanto o mundo tẽe para ella!
E não poder perdella,
Estando tantas vezes ja perdida!
Emfim, não houve trance de fortuna,
Nem perigos, nem casos duvidosos,
Injustiças daquelles que o confuso
Regimento do mundo, antigo abuso,
Faz sôbre os outros homens poderosos,{