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Lucia Maria Bastos Pereira das Neves Os esquecidos no processo da Independência: uma história a se fazer

Almanack, Guarulhos, n. 25, ef00220, 2020

http://doi.org/10.1590/2236-463325ef0022

direitos civis. Em 1823, diante do clima de antagonismo entre portugueses e brasileiros, encontra-se uma representação escrita por mulheres dirigida ao imperador Pedro I. Essas mulheres - brasileiras - pediam por seus maridos portugueses, ameaçados de expulsão das terras brasileiras. Estavam sobressaltadas “ao ouvir dizer” que “alguns malvados e ambiciosos” queriam reduzi-las “a um estado novo na história humana: isto é, sermos casadas sem esposo, viúvas com marido, termos filhos sem pais, órfãos com eles”. O argumento utilizado era direto: se as mulheres europeias casadas com brasileiros não eram perseguidas, por que motivo os europeus casados com senhoras brasileiras, que tivessem jurado a Independência, deviam perder a pátria? E indagavam de José Bonifácio de Andrada e Silva, casado com uma europeia, se aquilo era justo. Afinal, “que privilégio devem ter os homens neste caso?” Lamentavam ainda não possuírem “certos foros civis”, o que era “uma moda universal” e, provavelmente, “uma tirania do sexo masculino”, demonstrando nas entrelinhas a injustiça social que se praticava. Ainda que afirmassem que seguiam “as lições da antiga moral universal”, não sendo filósofas, mas possuindo “alma, Religião e coração”, reivindicavam serem reconhecidas, no fundo, como cidadãs efetivas, capazes de também passarem pelo sangue aos maridos a nova nacionalidade. Bem verdade, não solicitavam o reconhecimento de direitos políticos, mas na argumentação ficava clara a possibilidade de adquirirem direitos civis a fim de garantir a integridade de seus maridos. Como em quase todas as petições e requerimentos redigidos no Império do Brasil, porém, terminavam com a clássica abreviatura “E. R. M.”, ou seja, “E receberá mercê”[1]. Assinavam uma terça parte das senhoras brasileiras. Uma representação anônima, pois os nomes das senhoras não vinham à tona, mas que demonstrava o sentimento das mulheres de elite daquela época[2].

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Forum

  1. NEVES, Guilherme Pereira. E receberá mercê: a Mesa da Consciência e Ordens e o clero secular no Brasil, 1808-1828. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.
  2. REQUERIMENTO, rasão e justiça: representação dirigida a D. Pedro I de mulheres no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1823, f. 1.