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6 : OS VILHANCICOS :

Quero referir-me aos Vilhancicos, breves composições destinadas a serem cantadas em solenidades religiosas, particularmente nas matinas do Natal e dos Reis e ainda nas festas de Nossa Senhora ou nas dos Santos a que a devoção popular prestava culto mais intenso e carinhoso — S. Vicente, por exemplo, o padroeiro de Lisboa, Santa Cecília, a advogada dos músicos,([1]) S. Gonçalo, o bom casamenteiro, etc.

Poetas mais ou menos favorecidos — em regra, menos, — das esquivas Musas inspiradoras, compunham em vários metros e complicadas estanças os trechos rebuscados, que algumas vezes êles próprios vestiam de sua música apropriada e que outras, e era o caso mais freqüente, passavam ao compositor, que ali deixaram o registo do seu saber e da sua mestria — fazendo-os cantar quer sòmente a vozes quer com acompanhamento de instru-

  1. Santa Cecília teve Irmandade erecta em Lisboa atribuïndo-se a sua fundação ao célebre Pedro Talesio, primeiro Mestre de Capela na Catedral de Granada e Professor de música na Universidade de Coimbra. Cfr. Sr. Joaquim de Vasconcelos, Músicos Portugueses, II, 192-194, onde escreve que existia uma Colecção completa dos Vilhancicos cantados em honra de Santa Cecília, sendo os primeiros de 1702 indo até 1722, sem interrupção. No mesmo logar transcreve uma pequena amostra dum Vilhancico para dar ao leitor «conhecimento da forma poética dêste género de composição sacra, já que infelizmente não podemos acompanhar o verso com a música correspondente».