Poesias (Bernardo Guimarães, 1865)/Cantos da solidão/Advertência desta segunda edição

Cantos da solidão por Bernardo Guimarães
Prefácio da 2ª edição de Cantos da Solidão
Texto publicado em Poesias (1865).

ADVERTENCIA

DA SEGUNDA EDIÇÃO

Grande numero das poesias que agora offereço ao publico já forão publicadas em S. Paulo em 1852 sob o titulo de Cantos da Solidão: essa edição porém, além de muito escassa quanto ao numero de exemplares, foi por demais incorrecta; e como o publico parece-me ter dado algum apreço a essas producções de minha primeira mocidade, isso me anima a dar-lhe esta segunda edição muito mais correcta, e seguida de grande numero de poesias diversas.

Cumpre-me aqui dizer algumas palavras a respeito de algumas alterações e addições que fiz nos Cantos da Solidão.

Quando, ao terminar meus estudos academicos, me dispunha a retirar-me de S. Paulo, grande numero de amigos e collegas mostrárão desejos de possuir impressas aquellas poesias; existião elas pela maior parte em seu primeiro esboço, taes quaes me tinhão sahido da penna no primeiro jacto, e os manuscriptos se achavão em deploravel desordem; o tempo de que dispunha era muito limitado para eu poder colligi-las, e limal-as convenientemente; com a tal ou qual ordem e correcção que a pressa me permittio dar-lhes, deixei-as em S. Paulo em poder d’aqueles amigos, a fim de dal-as ao prélo; deixei-as mais como um fraco penhor de amizade e gratidão, como um écho de meu coração, que eu queria deixar resoando entre aquelles bons amigos, de muitos dos quaes eu me ia separar talvez para sempre, do que como um titulo com que me apresentasse ao publico para conquistar o glorioso nome de poeta.

A’ vista d’isso deve-se relevar o muito que ha de desleixo e e incorrecção n’essas composições; desleixo e incorrecção que procurei eliminar o mais que me foi possivel na presente edição; muitas alterações e addições fiz em algumas poesias; e mesmo uma ou outra refundi completamente; outras porém ficárão assim mesmo mal acabadas, com o pensamento incompleto, a phrase mal polida, porque não foi mais possivel evocar de novo inspirações ha tanto tempo adormecidas. Alterei tambem um tanto a ordem em que vinhão na primeira edição, a fim de engrupar debaixo do titulo de — Inspirações da Tarde — certo numero de poesias em que o quadro n’ellas debuxado se emmoldura nos encantadores relevos d’essa hora de remanso que serve de transição da luz e bulicio do dia para o silencio e trévas da noite.

Vão portanto estes versos n’esta segunda edição correctos de muitos descuidos de metrificação e de estilo, e limpos de innumeros e graves erros typographicos que desfiguravão a primeira.

Quanto ao valor litterario que por ventura possão ter estes versos, o publico e a critica o decidiráõ; lembrem-se sómente aquelles que lançarem os olhos sobre estas paginas, que são ellas producto de uma musa que tem constantemente soffrido o embate de todo o genero de contrariedades, e que conhece por experiencia quanto é verdeiro o que diz Châteaubriand: — C’est un sophisme digne de la dureté de notre siècle, d’avoir avancé que les bons ouvrages se font dans le malheur: il n’est pas vrai qu’on puisse bien écrire quand on souffre. Les hommes qui se consacrent au culte des muses se laissent plus vite submerger à la douleur que les esprits vulgaires.

Rio de Janeiro, 14 de abril de 1858.
O Autor.