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Qual cratera lançando lava ardente

A um vate enciclopédico
por Luís da Gama
Quis um jovem marchar, só por mania,

Das letras pela senda trabalhosa;
Diz-se Vate, mas prenda tão famosa
Ninguém nos versos seus a descobria.

Começa a dar patada, e tão bravia,
Que logo (alçando a voz imperiosa)
Lhe brada a Natureza: Chega à prosa!
E o maldito a encostar-se à poesia!

Faustino Xavier de Novais — Soneto


Qual cratera lançando lava ardente,
De Pompéia tragando a pobre gente,
Novo Aníbal os mares agitando,
Arbustos e penedos derrubando,
Argentino Quixote se apresenta
Com bulha que as cabeças atormenta!
É Doutor em ciências sociais,
Conhece toda casta de animais;
Em direito, suplanta o Savigny,
Mormente quando toma a — Parati;
E nos fastos da grã filosofia
Diz tais coisas que as carnes arrepia!

Da Medicina o novo Chernoviz,
Faz xaropes, do ferro tira giz!
E, invadindo as baias do Parnaso
O lugar conquistou do tal Pégaso!
A sabença nos cascos se lhe aninha,
É por todos chamado o — Dom Fuinha;
E da torva montanha da cachola,
Pende a velha e cediça c’raminhola!

Um taful que encarou o tal portento
Afirma que o coitado era jumento;
E querendo provar o que dizia,
Mostrava uma castrada poesia:
D’asneiras enxurrada furibunda,
Onde o erro falaz superabunda:
Era prosa cediça, mui safada,
Asneira sobre asneira amontoada!
E no fim da maçante frioleira
A firma do grã vate — baboseira.

Correu, em peso, a sábia Academia,
Para ver o planeta que luzia;
Também veio a Polícia, a Medicina,
Discutir tanta asneira em sabatina!
Miraram de alto a baixo o sacripante
E vendo que o maroto era pedante,
Na barca de Caronte o encaixaram,
P’ra casa dos orates o mandaram.

Lá se foi o talento desmedido,
Todo o povo deixando espavorido,
Habitar os salões d’um hospital
Onde cura terá para o seu mal.