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Soneto (Ouvi senhora...)
por Augusto dos Anjos


Ouvi, senhora, o cântico sentido

Do coração que geme e s'estertora

N'ânsia letal que mata e que o devora

E que tornou-o assim, triste e descrido.


Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,

As minhas crenças que alentei outrora

Rolam dispersas, pálidas agora,

Desfeitas todas num guaiar dorido.


E como a luz do sol vai-se apagando!

E eu triste, triste pela vida afora,

Eterno pegureiro caminhando,


Revolvo as cinzas de passadas eras,

Sombrio e mudo e glacial, senhora,

Como um coveiro a sepultar quimeras!