A morte de Marcelo Gama, que todos nós contristou, foi evidentemente um fato denunciador da nossa falta de cultura, de adiantamento intelectual.

Marcelo Gama, cuja inteligência, cujo saber e amor ao trabalho eram por demais conhecidos, nunca pôde viver de sua atividade literária, nunca pôde tirar de sua pena o pão nosso de cada dia.

Casado e pai de filhos, como todos nós desejamos ser, teve sempre que viver em outra ocupação, que não aquela de seu gosto e do seu amor.

Longe de mim estar a desejar que os homens de letras façam a fortuna dos judeus agiotas, que se disfarçam em cristãos.

O que todos nós desejamos, o que todos nós queremos, é tirar da nossa vocação aquilo com que viver. Seria contradição nossa pedir a fortuna, a riqueza, a abundância dos Carnegies, dos Rockefellers, ou mesmo, do senhor Afrânio Peixoto.

Todo o nosso desejo é viver de acordo com a nossa cons­ciência, com as nossas inclinações; e, quando se sonha desde menino semelhante ideal, tudo quanto o não sirva, nos constrange, nos aborrece, nos mata e aniquila.

Marcelo foi assim, e sofreu, e sofreu, apesar de ter ao seu lado uma companheira bondosa, piedosa, amante - coisa que não é dado a toda gente.

O dique oposto aos seus desejos, ao seu sonho, à sua vontade de viver concorde com o seu temperamento, levou-o à desgraça do Engenho Novo.

No Brasil, quem é, de fato, escritor, literato, ama às letras pelas letras, há de sofrer impiedosamente e subir o seu Calvário de glória e de amor. Pobre Marcelo!

Correio da Noite, Rio, 9-3-1915.