Abrir menu principal
Um raio de luar
por Castro Alves
Poema publicado em A Cachoeira de Paulo Afonso


Alta noite ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...

Que fundo olhar!

Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,

No largo mar.

Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,

Tenra a dormir.

Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...

Mas a sorrir.

Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe

O ressonar.

E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio

A titilar.

Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente

— Riso fatal.

Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite

Hirta, glacial!

Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro

Mais s'inclinou...

Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança

À flux boiou!

Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras

Morde o escarcéu;

Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio

Ia no céu!

DESPERTAR PARA MORRER

— "Acorda!"

— "Quem me chama?"

— "Escuta!"

— "Escuto..."

— "Nada ouviste?"

— "Inda não..."

— "É porque o vento

Escasseou."

— "Ouço agora... da noite na calada
Uma voz que ressona cava e funda...

E após cansou!"

— "Sabes que voz é esta?"

— "Não! Semelha

Do agonizante o derradeiro engasgo,

Rouco estertor..."

E calados ficaram, mudos, quedos,
Mãos contraídas, bocas sem alento...

Hora de horror!...