Uma Lágrima de Mulher/I/III

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo III


Ia adiantada a noite.

A serenidade aparente da casinha branca contrastava com a agitação interior. Extraordinário deveria ser o fato que tinha, tão desacostumadamente, despertos até tarde os seus pacíficos moradores. Entanto, o bulício crescia lá dentro; iam e vinham de um para outro lado, procurando, influenciados pelo silêncio, que a noite só por si impõe, abafar o som dos passos e das vozes, como se tivessem vizinhos ou pudessem incomodar alguém.

Em tudo, respirava uma impaciência surda; as andorinhas, pouco habituadas com o rumor, espreitavam curiosas e assustadas por entre as ripas com as suas cabecinhas pretas.

Apesar de velha e magra, Ângela era forte e sadia; atarefada emalava ferramentas e movia fardos com facilidade; Rosalina por outro lado, dobrava e empacotava roupas e afivelava malas prontas.

Tratava-se sem dúvida de alguma viagem.

Maffei era o único que não parecia preocupado com o que se passava; de natural sombrio e reservado não se mostrava inquieto; imóvel, numa cadeira de pau, como dedo grosseiro entre os dentes, dividia e somava mentalmente umas parcelas imaginárias.

Saíam-lhe inarticulados da boca sons aproveitáveis só para ele; ao resolver qualquer questão, deixava cair sobre a mesa de nogueira o punho serrado, e com o ruído as duas mulheres voltavam rapidamente a cabeça; a imobilidade do pescador tranqüilizava-as, e ele continuava entregue inteiramente ao seu cogitar.

Efetivamente, preparava-se uma viagem.

Maffei partia no dia seguinte para Nápoles, empregado numa companhia, que se propunha continuar em Rezina à exploração das famosa ruínas de Herculano.

Decorria então 1838, e nessa época as ambições voltavam-se abertamente para Rezina, onde centenas de operários e trabalhadores, lutando dia e noite, ou eram vítimas de sua cobiça ou triunfavam ricos e vitoriosos da luta desigual, travada por eles, com as lavas, que vomitara um dia o Vesúvio e setecentos anos petrificavam.

Seduzido pela fortuna, ia o pescador deixar a filha; o gênio aventureiro e especulador não lhe permitia avaliar o alcance da empresa. Bem conheciam as boas mulheres o caráter de Maffei, e por isso mesmo não arriscavam uma única palavra para o dissuadir.

Para ele, nunca as coisas estavam bem no pé em que se achavam. Era sempre preciso melhorar. Tinha a impaciência do mar e a firmeza do ferro; quando qualquer idéia se apoderava dele, era como a ferrugem, que avultava, domina, até corromper de todo.