Uma Lágrima de Mulher/I/VII

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo VII


Chegara finalmente o verão com o seu cortejo de luz e de alegria; agosto surgira enfeitado e casquilho como um novo campesino a cobrir de beijos e mimos a formosa ilha, sua noiva. Vinha alegre.

O céu, todo iriado, refletia no mar os seus mais belos cambiantes; as árvores, então, bem cobertas e reverdecidas, derramavam no chão uma alfombra azulada, cheia de languidez e perfumes que encantavam; a brisa sussurrava morna e maliciosa em segredo de namorados; golpeadas de luz quente, as rochas erguiam-se do mar como belos monstros, enfeitados de diamantes.

Quanta atividade na terra!

Quanta doçura no céu!

O canto saía espontâneo das gargantas e os sorrisos dos lábios, e de tal sorte se casavam no ar, que o canto parecia riso e o riso parecia canto! A luz enorme do sol caía filtrada dentro do coração, para aí abrir uma aurora da mocidade e saúde; a bondade vinha à superfície da terra; propagava-se como um som a alegria, e a gargalhada detonava com o eco desse som.

Pousavam nos colmos os passarinhos ou embalavam-se chilreando nas hastes flexíveis das videiras. Como uma boa notícia, as andorinhas cortavam a ilha em todos os sentidos, inquietas como a fortuna, ligeiras como a curiosidade, ora roçavam a terra para lhe dizer um segredo, ora molhavam na baía a pontinha negra da asa os se desvaneciam no azul ilimitado do espaço.

No mar o quadro correspondia em movimento e beleza de colorido ao da terra.

O oceano vestira uma domingueira camisa de rendas espumosas.

Por todos e de todos os lados, singravam listras multicores dos barcos pintados de novo; a espicha vergava com a vela reverberante e cheia. Os pescadores, satisfeitos com a pesca da noite, cantavam anunciando o peixe; outros, já desembarcados na praia, estendiam as redes ao sol, arrastavam o barco, e punham-se depois a subir as granitosas ladeiras, suando, vergados sob o peso do resultado abundante de suas pescarias. O filhinho, mesmo pequeno, já ajudava o pai; metia-se-lhe de pernas arregaçadas no mar, para colher o cabo do bote e as redes; não o amedrontava a imponência do leão marinho. Nas cabanas, as velhas concertavam o peixe e punham a mesa.

Era para ver o riso, o apetite, a felicidade enfim!

De repente, divisou-se ao longe um barco estranho.

Diferente e maior que os mais, tinha um sombriamente soberbo, que contrastava com a alegre singeleza dos outros.

Vinha como uma bala à queima-roupa!

Dir-se-ia um insulto alcatroado. A vela opada, amarelenta e inchada como o saco de couro de uma gaita de foles, lembrava ao mesmo tempo o ventre enorme de um cadáver que vai apodrecer.

Os pescadores olhavam-no ofendidos como para um intruso; indignavam-se com o vento e com o mar porque tanto o favoreciam. Tinham ciúmes, os bons pescadores, das suas águas e dos sopros das suas brisas.

Todavia, o barco não diminuía de carreira. Chegou rápido ao porto, desceu a vela e atracou.

Um homem robusto e carrancudo, seguido de mainheiros e homens acarretados de malas, apareceu na praia e subiu com pé firme à cidade.

Os camponeses e pescadores olhavam-no com aterrada desconfiança; entre eles alguns davam mostras de conhecê-lo, chegando até a falar-lhe. A tudo respondia secamente o recém-chegado.

Fez impressão nas rodas.

Instantâneo e curioso silêncio apoderava-se dos que o viam; não o largavam de vista; o sujeito era observado com respeito e reserva.

Os pescadores arriscavam com cuidado palavra a respeito dele, murmuravam medrosos, mesmo quando já não podiam ser ouvidos pelo - mau homem - e em segredo diziam: era um jettatura, que os livrasse Madona do mau olhado.

No entanto o mau olhado seguia indiferente o caminho da casinha branca e daí a meia hora Rosalina abraçava o pai.

Maffei tinha chegado.

Foi um alvoroço em casa. Ângela soltou uma exclamação religiosa e levantou os braços para o céu.

É sempre enternecedora a volta de um pai ao seio da família.

Seja ele uma fera, nessa ocasião há de ser pai.

As palavras começadas, que não se acabam; o pranto, que assistem como um amigo da família; o cão, que fareja alvoroçado; tudo! Tudo é enternecedor e santo!

Só Maffei não chorou nessa ocasião.

Acariciava, beijando a filha, porém sempre áspero e inalterável.

Disse depois que estava cansado e que lhe dessem uma cama.

Enquanto dormia o aventureiro, Ângela agradecia a Deus o seu regresso feliz.

Rosalina, com os olhos ainda úmidos, remexia e examinava os objetos que lhe trouxera o pai.