Uma Lágrima de Mulher/I/XVI

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo XVI


O pescador foi ao interior da casa e pouco depois voltou.

Com a presença do velho, Miguel ergueu-se de um pulo - era outra vez um homem.

Num dos ângulos sombrios de um quarto, Ângela, ao clarão minguado da luz de azeite orava, à Madona; a claridade mortiça do nicho escorria até a varanda e batia em cheio na palidez nublada do rosto de Rosalina. Estava sinistramente encantadora.

Maffei aproximou-se dela, arrastou-a até o leito e voltou.

Um gemido da desfalecida atraiu para si ao mesmo instante Ângela; para os corações extremosos, um gemido é sempre um apelo urgentíssimo.

Voltava o velho com as mãos vazias e o olhar tranqüilamente feroz; Miguel não era covarde, esperou-o sereno, de braços cruzados.

— Precisamos nos entender, disse Maffei com aspereza. Venha! E tomou o lado dos abrolhos, à esquerda da casa.

Miguel seguiu-o silenciosamente.

Entranharam-se na picada e desapareceram.

O caminho não era freqüentado, com o que se tornava mais difícil e em parte quase intransitável.

Miguel apenas o conhecia; o velho, porém, apesar dos obstáculos e do negrume da noite, que se tornara sombria, caminhava desembaraçadamente e até com pressa; o outro seguia-o, perdendo-o às vezes de vista, cortando com dificuldade a vegetação enfezada, que lhe obstava a passagem; os galhos chicoteavam-lhe as pernas e o rosto; diversas partes do corpo sangravam com os espinhos, duas gotas de sangue, que lhe corriam pela face, lembravam duas lágrimas vermelhas.

Depois de vencerem duzentos dificultosos passos, deram subitamente com a rocha; achavam-se defronte do mar.

As lufadas fortes do vento anunciavam próxima tempestade.

O tempo parecia colérico e os dois homens calmos e sombrios.

O velho sentou-se tranqüilamente na única pedra solta que havia e com um gesto convidou o companheiro a fazer o mesmo.

Miguel aceitou o convite e ficaram juntos.

A pedra era pequena, o que os obrigava a ficarem encostados, unidos, sós, como dois bons amigos de infância.

Depois de algum silêncio, Maffei abriu a falar, porém era como se o fizesse por mera formalidade; falava como se estivesse lendo, era como se proferisse as frases convencionais de um juramento perante um tribunal. Aquelas palavras metódicas e sem expressão verdadeira lembravam a missa. O velho falava como um padre.

— Teodoro Rizio, principiou ele, viveu para vergonha sua e da família. Era devasso e encontrado constantemente bêbado pelos alpendres; foi acusado de assassino e morreu preso numa prisão de Leorne. Sua desgraçada mulher não o sobreviveu por muito tempo, morrendo pouco depois, de tísica, dizem uns, de miséria, dizem outros; de vergonha, digo eu.

— De desgosto... emendou Miguel, deveras chocado com as palavras grosseiras do pescador, que lhe caíam na cabeça, pesadas e inteiriças, como paralelepípedos de pedra.

— Não é isso verdade?... perguntou Maffei

— Ë, fez secamente o moço.

O velho continuou sacudindo os ombros, cada vez mais automaticamente.

— Ficou desses desgraçados um filho; não sei se herdou do pai todos os vícios, porém é certo ter herdado toda a miséria, que o fez peregrinar pelas ruas de Roma, sem pão, sem lar, sem família. É isto ou não verdade?

— Meu pai, disse humildemente o filho de Teodoro, não me deixou miserável, deu-me uma rabeca e ensinou-me a tirar dela o pão para a boca.

— Mas foste um vagabundo!

— Fui.

— Bem, continuou o velho. Eu também fui pobre, eu também tenho família, no entanto nunca fui um desgraçado!

— Porque foi sempre feliz, disse indiferente o moço.

— Mas sou muito ambicioso! muito! Entendes?! Disse o velho arregalando os olhos e batendo convulsivamente na perna de Miguel.

— Já o sabia, respondeu este com calma.

O velho continuou como se falasse para si:

— Fui pobre, é verdade, mas trabalhei e trabalhei muito e por muito tempo, para juntar alguma coisa; poupei, especulei e consegui entesourar ainda mais! Hoje sou rico! Bastante rico! Entendes? Porém, mais do que nunca ambicioso. Preciso de minha filha para subir, talvez venha a ser nobre, e não para dar-ta a ti ou a outro qualquer boêmio.

O moço resmungou alguns sons ininteligíveis.

— Bem sei, prosseguiu mais brando o velho, de tudo quanto se tem passado; Rosalina sofrerá, por isso que te ama, mas espero que em breve esteja tudo acabado. Tu ficas aqui e nós partimos. Por ora aceita isso para te arranjares.

E assim dizendo procurou manter na mão de Miguel uma bolsa com dinheiro, que tirara da algibeira.

— Guarde-o! disse este com altivez. Não preciso de esmolas!

— Não queres então aceitar? insistiu Maffei.

— Não! disse resolutamente Miguel, levantando-se.

— Contudo, creio que não nos aparecerás em Nápoles...

— É impossível!...

— Impossível?!... perguntou Maffei, cuja cólera principiava a transpirar. E que vai lá fazer? Sim! que vais buscar?!...

— Ver Rosalina... disse naturalmente Miguel, procurá-la, dizer que a amo e amarei sempre!

— É essa a tua resolução?

— Até a morte.

A resoluta calma do artista incendiou o ânimo do velho, e, transformando-o rápido como um raio, assistiu-lhe sangrenta a raiva por todos os poros, como se dentro lhe rebentasse uma aneurisma de cólera.

Rangiam-lhe os queixais, roncava-lhe a respiração, partiam-lhe chispas diabólicas dos olhos; as unhas, de tão cerradas, sangravam-lhe as palmas. E, medonho e insolentemente nervoso, levantou-se cambaleando.

Cravou por algum tempo no moço o olhar esfogueado e com uma voz, que seria a do tigre se o tigre falasse, bradou:

— Preferes antes morrer! desgraçado! a deixar de vê-la? Não é isso?! fala!

O velho roncava estas palavras na posição da fera que arma o pulo. Firmando nas plantas, com as mãos abertas como duas garras, encarava feroz Miguel, como suspenso à espera da resposta suprema.

O amante de Rosalina, depois de leve perturbação, meneou a cabeça afirmativamente.

Este gesto foi o grito de guerra!

Um bramido selvagem ecoou nas cavernas do peito do velho! E a pantera arremeteu-se contra a vítima!