Uma Lágrima de Mulher/III/VIII

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo VIII


Miguel precipitou-se na alcova e caiu soluçando aos pés de Rosalina; comoção amarga e deliciosa o dominava, como nos bosques a tempestade domina a corça.

Ele gozava e sofria amargamente. Rosalina ali estava, ao alcance dos seus lábios e de suas mãos, mas era Rosalina transformada; da primeira não existia mais que a formosura. E tanto assim, que aquela cena, em demasiado sentimental e trágica, começou a incomodá-la. Ela sentia-se interiormente arrependida de ter consentido nessa entrevista; contudo era inevitável; conhecia bastante o caráter do seu companheiro de infância, para, com razão, temer qualquer conseqüência má de uma recusa. De sorte que o melhor caminho a tomar era o da dissimulação e do dolo; não lhe faltariam certamente, para tal empresa, indústria e armas, que pois contava com a sua maleabilidade de florete e com a sua destreza de cobra. Quando não era possível empregar a força, socorria-se às lágrimas e triunfava sempre.

Rosalina, apercebida com tais munições, pôs-se em guarda contra o terrível inimigo, que tinha diante de si. Bem sabia quanto são perigosos e formidáveis a inexperiência e a virtude quando amam.

A verdadeira paixão é selvagem, grosseira e egoísta, porque a delicadeza, a civilidade e a sociabilidade são obras do homem ou meras convicções sociais, e a paixão é um monstro antidiluviano, criado pela natureza. O amor saiu diretamente da boca de Deus para o coração do homem; é esse o nosso único ponto de contato com o incriado.

Esse verbo eterno não conhece leis, nem pátria, nem senhor, como não conhece subdivisão nem variedade, é um, único e eterno: É o verbo ser da natureza.

Deus criou-o para o mundo e não para o homem; este como a fera, o réptil como o passarinho, amam da mesma forma.

Foi pensando deste feitio que Rosalina cobriu de carícias a vítima que tinha aos pés, e fê-lo sentar-se prosaica e comodamente, numa magnífica cadeira de damasco. E, depois de haverem pingado um por um os segundos do estilo, abriu a falar, protetora e carinhosamente, do seguinte modo:

— Oh! como sou feliz e desgraçada por te tornar a ver, meu Miguel, porém se me encanta a tua presença, a situação que dela resulta me aniquila. Amo-te muito, mas é preciso seres prudente e teres, disse ela, sorrindo com intenção, muito juizinho... Eu já não contava contigo e tinha razões para isso, vi uma vez o precipício donde caíste, e tão terminante se me afigurou dele uma queda, que nunca mais me animei a visitá-lo. Porém tinha saudades tuas, acredita, disse ela suspirando, sinto-me loucamente satisfeita por te ter novamente a meu lado. Se soubesses o que fiz para ter notícias tuas! Mas enfim sou feliz, agora se...

— Porém, é que... interrompeu Miguel, disseram-me que tu te ias casar com um fidalgo...

— É verdade, disse novamente suspirando Rosalina; e não há outro remédio, se não nos conformamos com essa sorte escura.

Miguel fez um gesto de impaciência e reprimiu o que ia dizer.

— Mas que pensas? continuou Rosalina, mudando de tom e afetando um transporte; supões, porventura, que me fugiram repentinamente da memória os nossos juramentos e a nossa fortuna? crês que me parece ser riqueza o melhor os bens? julgas que não se pode converter em luto o que foi nossa esperança? tens que sou muito feliz? ingrato!... Oh! não. Miguel! Sofri amargamente e mais sofro agora. Quanta vez não amaldiçoei tudo que me cercava! quanta vez não trocaria por um daqueles pacíficos e religiosos serões de Lipari, todos os faustos, todos os esplendores destas festas, que me acabrunham e me matam?! Entanto, tinha-te por morto, nossa choupana foi incendiada e minhas amigas de infância, sobre indiferentes, prevenidas contra mim! É preciso esquecer-me de tudo!...

Miguel escutava imóvel e pensativo.

Rosalina continuou, abaixando a voz:

— Meu pai está cada vez mais severo e mais ganancioso; agora toda a sua ambição é possuir um título qualquer de nobreza antiga, cuja realização só de mim confia; desde que um fidalgo arruinado, o visconde de Cenis, com a mira no dote, me pediu em casamento...

— E tu consentes?! perguntou arquejante Miguel, e tu vais ligar-te a esse infame especulador, mesmo sabendo que eu existo e só por teu amor o faço?!...

— Mas que me queres, meu amigo? Não o desejo eu, ordena-mo meu pai! Nisto deves, antes de amaldiçoar o meu procedimento, pesar bem o sacrifício que vou fazer! Sabes certamente que não é a ambição e a vaidade que me conduzem, sabes o quanto te amo e o quanto me comprazeria viver contigo e só para ti; mas em semelhantes circunstâncias, nada fazer é fazer tudo. A minha recusa, sobre ser a desonra certa, seria talvez a morte de meu pai!... Quanto a mim... a não me poder ligar contigo, ninguém mais prefiro, tanto me dá de casar com o visconde como com outro qualquer. O que de tudo isto se concluí é que eu sou a mais desgraçada das mulheres; amo, sou amada; chegam-me os bens par viver e no entanto faltam-me amor e existência. Tu, meu pobre Miguel, sem o saber, vieste dar-me um golpe terrível e me foi difícil habituar à idéia de tua morte, ser-me-ia impossível suportar a tua ausência! Todavia, estou resignada; uma gota de mais ou de menos no vaso de minhas amarguras não prejudica, porque o líquido de há muito transbordou. Sejamos verdadeiramente corajosos, meu amigo, e saibamos ser dignos um do outro pelo sacrifício, soframos juntos... Se soubesses a noite que passei!... quando ouvi aqui no jardim a mesma música, que embalou os meus primeiros sonhos de mulher e os meus últimos devaneios de criança... aquelas notas eram como o poema da nossa mocidade e nosso amor. Como éramos então felizes e esperançosos!... Muito chorei, meu amigo quando me abriste esse livro apagado de recordações e saudades, chorei como não imaginas, e só se me afigurava que aqueles sons errantes eram o teu espírito, baixado do céu para me amaldiçoar. Foi uma noite de pesadelos para mim!... não dormi... faltava-me o ar... e tinha medo de abrir a janela... E debruçando-se sobre Miguel exclama: Como sou desgraçada!...

— Peço-te, continuou ela, depois de algum silêncio, com a voz ainda tremula do choro, que partas; e, se não me podes remediar o mal, que não o agraves... Parte, meu amigo, o evita tornares-me a ver. Para salvar meu pai é preciso sermos mutuamente rigorosos. Sê de todo nobre e generoso; salva a quem te quis perder! perdoa do alto do teu coração a esse pobre velho, que não tem culpa de ter ambicioso e mau. Ele é o culpado de tudo; é verdade, mas também a ele devo a minha existência e todos os cuidados que tenho recebido; devemos-lhe a felicidade que já gozamos, é justo que suportemos agora o sacrifício que ele nos impõe... Perdoa! Sim? perdoa, Miguel!...

E Rosalina, meiga, encarava com chorosa ternura o olhar sombrio de Miguel.

O moço ergueu-se com impetuosa feição. Metamorfose assustadora operou-se-lhe na fisionomia: os olhos fechavam-se lentamente e lentamente se abriam; um sorriso de amargurada desconfiança encrespava-lhe os lábios. Debruçou-se brandamente sobre Rosalina e, recolhendo-lhe as mãos frias, disse-lhe com delicadeza:

— É então teu pai o único obstáculo de nossa felicidade?

— É, disse ela.

— Então, adeus! E beijou-lhe a fronte.

— Que vai fazer?

— Obedecer-te.

— Como?

— Partindo.

— Para onde?

— Não sei.

— Quando?

— Já.

E Miguel saiu tão rápido como houvera entrado.

Rosalina levantou-se, foi até a janela e percebeu ainda o vulto do artista desaparecer por entre a rede de galhos e folhas sombreadas pela noite; encostou-se no balcão de mármore, olhou para o tempo e disse, fechando a janela e abrindo preguiçosamente a boca:

— Até que enfim!

Depois entrou para a sua alcova, correu o cortinado, mirou-se num espelhinho de mão, desprendeu os cabelos e tocou a campainha, chamando a criada para a despir.

Daí a meia hora, Rosalina, mais encantadora que nunca, adormecia sorrindo para o imenso cristal de Veneza, que com arte refletia o seu corpo esculturalmente formoso, atufando-se nas amplas e alvíssimas cambraias do leito, semelhante a Vênus transformando-se das espumas do oceano.