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Uma dificuldade
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Roja-se ao esterquilínio, assim que amarga, o pomo;
Corta-se ao galho em flor a rosa desmaiada;
Mas ao amor, que acabou, ao amor já morto, como
Se há de tirar à entranha, e arremessá-lo ao nada?

Do grão de areia a todo espaço azul, que domo
A um gesto meu, bastava, a tinha encadeada:
Por testemunho disto, alma que foste amada,
A ti, ao próprio céu, e aos sóis, e aos deuses tomo.

A ti mesma de mim é bem fácil pôr fora;
Mas do teu corpo o gosto, o saibo delicioso
Dos beijos teus de dia, e desde a noite à aurora,

Que me cobriu de um velho e áureo musgo de gozo,
Vício e luz do meu sangue enfim, como hei de agora
Arrancá-lo, sem ir o coração? — Não ouso.