Velho apedidos e velhos anúncios

Velho apedidos e velhos anúncios
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


É sempre de interesse achar-se, por este ou aquele modo, um velho Jornal do Comércio,mesmo um retalho velho dele. Imagino como o Félix Pacheco, que lhe está escrevendo a história, há de ter tido, com a sua paciência, a sua sagacidade e a sua penetração de artista e historiador, deliciosos momentos ao encontrar tal ou qual artigo, notícias ou mesmo um simples anúncio! Espero bem viver até 1921, para ler a história do velho órgão que o seu atual diretor está escre­vendo. Pelo que mostrou o ano passado, pelo que disse das origens do quase centenário quotidiano, nós podemos calcular que coisa interessante não vai ser a vida passada do Jornal narrada por Félix Pacheco.

Acudiu-me isso, porque, há meses, um bom velho da minha vizinhança, apaixonado pela leitura de jornais, deu-me uma porção de retalhos de vários jornais e de épocas diversas. Entre eles, havia muitos folhetins do Jornal que conta­vam quarenta anos e mais.

Esse bom velho, "Seu" Chiquinho, como era conhecido familiarmente, parece que me deu tais relíquias em testamento, pois veio a morrer pouco depois, no Hospital da Ordem Terceira, isolado dos seus, no meio de enfermeiras indiferen­tes e, sem, ao menos, ter a presença dos seus queridos fo­lhetins e retalhos de jornais que ele colecionava a mais de quarenta anos

Não pude descobrir quem eram os autores dos folhetins que ele me ofertou, pois estavam todos assinados com pseudônimos. Naquele tempo, conforme sei, bem ou mal, pela tradição pouco autorizada, os homens mais da moda nesse ne­gócio de folhetins eram: Augusto de Castro, Zaluar, César Muzzio e, creio, o próprio velho Luís de Castro.

Tentei ler os que recebi, mas não pude. Não há nada que envelheça tão depressa como o que chamamos ainda nos jornais - humorismo, leveza, graça, etc. Todos os retalhos que recebi deviam ter no seu tempo essas pretensões e como tal serem estimados, mas eu os achei soporíferos. Não sei o que tem o tal gênero folhetim de tão estritamente atual, do momento, do minuto em que é escrito que, passado esse fugace instante, rançam logo e perdem todo o sabor. Considerem que eu já fiz, faço e farei folhetins... Mas...

É gênero que procura sempre o fato ou o acontecimento mais em voga, aquele que mais interessa a futilidade de todos e deve ser cheio de alusões às pessoas e coisas efêmeras, para que o sucesso o bafeje. Não podem os rodapés prescin­dir do vulgar dia a dia, não se podem alçar para mais adiante, nem para mais atrás. É ali! É o elefante do Franck Brown ou a chegada da missão do reino de Sião.

Quem, daqui a trinta anos, se lembrará do tal elefante do grande Hu- Hep-Tu, embaixador de um reino da Indochina? Ninguém terá mais interesse por tais curiosidades e muito menos pelas reflexões que eles procuram neste ou naquele.

Ainda quando os seus autores vivem, nós insensivelmente ligamos os folhetins a eles e podemos lê-los; mas, mortos como estavam os autores daqueles que me deram, e quase esquecidos, os rodapés de há quarenta anos não tinham mais nenhuma sedução e eram impenetráveis.

Entretanto, a dádiva do velho "Seu" Chiquinho não deixou de dar-me prazer. E sabem onde o fui encontrar? Nos apedidos e anúncios que havia nas costas dos humorados, dos velhos e famosos jornalistas daqueles anos.

Sempre gostei dos apedidos. Dizem ser coisa peculiar ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro. Seja usança boa ou má, o certo é que é coisa original, por isso gosto deles.

Desejei muito encontrar nos retalhos de que venho tratando, algum do famoso "Mal das Vinhas" ou do não menos famoso Príncipe Ubá II, d'África.

Quisera muito ver um deste último, porquanto, segundo me contaram, não se pode imaginar coisa mais sem sentido e estapafúrdia. O seu processo de publicá-los é digno de lembrança e registro. Ele, o Príncipe Ubá, escrevia tiras sobre tiras e, depois, colocava-as uma em seguida à outra. Fazia uma espécie de bobina e levava o rolo ao balcão do Jornal. "Quanto é?" perguntava. O empregado calculava e respondia, suponhamos: "Quarenta mil réis". O príncipe que não tinha esse dinheiro nas algibeiras, tratava de diminuir a "extensão" do artigo. Pedia uma tesoura, cortava uma boa parte, assi­nava de novo e de novo perguntava: "Quando é?" "Vinte e cinco mil-réis", respondiam. Não possuindo o fidalgo africano semelhante quantia, amputava a "tripa" mais outra vez, uma outra terceira, até o preço do "a pedido" chegar aos quatro ou cinco mil-réis que tinha nos bolsos. Apunha a assinatura, sem se incomodar com o sentido, com a conclusão a que queria chegar com o seu escrito, e lá se ia para o Largo da Sé contar prosas às pretas minas que o respeitavam e veneravam, sempre de bengala e chapéu-de-chuva e solenemente coberto com a sua cartola cor de cinza.

Não encontrei nenhum fragmento desses dois afamados colaboradores da original seção do Jornal; mas deparei - alguma coisa interessante.

Na edição de 11 de julho de 1879, há um apedido que tem esse sugestivo título: "Uma excelentíssima touca". Na gíria do tempo, "touca" era bebedeira. Começava assim:

"Sábado, à noite, já por tarde, entrou pela confeitaria de a Rua Gonçalves Dias, alguém que possui a ‘rara virtude' de andar abrigado nestes tempos de inverno."

Dizia mais adiante, referindo-se a esse alguém: "... o caixeiro esquivou-se a servir o ‘potentado'. Levando-o à porta, que logo cuidadosamente fechou sobre os excelentíssimos calcanhares do ‘alegre' vulto da situação."

Terminando pedia o imperador carregasse mais o seu luto e assinava: "A nação envergonhada".

Quem seria o da "touca"? Em todo o caso pode-se dizer que, se de todo os costumes não mudaram, hoje não haveria quem se lembrasse dos apedidos, para tratar de semelhante coisa. Ainda bem...

Há um outro apedido que tem por título - "Um camas". E de 12 de outubro do mesmo ano que o antecedente.

O início é este:

"Só anda cícero e miserável que pela segunda vez vem com o seu debique", etc., etc.

Este é do gênero feroz e acaba com o seguinte desafio bem "guaiamu": "Eu estou defronte de Santa Efigênia, já vistes, caveira."

Bem juntinho a esse apedido, "nagoa" ou "santa-rita", desse "solicitador" capoeira, há este outro cheio de delicadeza e blandícia. Ironia da paginação... Vejam só:

"As experiências com o curare. - Acreditando na imparcialidade do Senhor doutor Nuno de Andrade, julgo que a melhor e mais proveitosa maneira de discutir é com os fatos em presença; por isso convido Sua Senhoria para vir ao museu verificá-los e discuti-los, certo de que achará o mais cordial acolhimento da minha parte e do doutor Jobert. Doutor Lacerda Filho."

Abre isto, disse eu cá com os meus botões; este doutor Nuno de Andrade tem tido muitos "avatares"! Sabia-o financeiro, economista; em 1878, ele se dava a discussões toxico­lógicas ou coisas semelhante; quem sabe se ele não é mesmo médico?

Procurei Os Fastos do Museu Nacional,do doutor J. B. de Lacerda, para ver se me punha ao par da questão; mas nada encontrei; a não ser que o doutor Jobert era um boê­mio. Isto diz tanta coisa que...

Contudo, neles, vem narrada uma anedota muito curiosa que, apesar de nada ter com o caso, não me escuso ao prazer de repeti-la aqui. Agassiz, em 1864, com a presença do imperador, fez uma conferência, tendo tido uma assistência imensa e até de damas de sociedade que, naquele tempo, se in­teressavam pela glaciação, pelos blocos erráticos e as moraines alpinas. Terminada a conferência, o grande naturalista pediu aos circunstantes que indicassem as suas dúvidas, pois ele as explanaria.

Nisto levanta-se um doutor Carvalho, professor de terapêutica da Faculdade de Medicina, e, desabridamente, começa a dizer que aquilo tudo eram velharias; ele sabia todas aque­las coisas, etc., etc.

O imperador retira-se e é seguido pelos outros convidados. Carvalho, porém, continua a esbravejar.

Diz o senhor doutor Lacerda que o terapeuta Carvalho pregava do alto de sua cátedra que o Pão de Açúcar tinha um sistema nervoso ganglionário, também impressões e senti­mentos que ele não podia externar; e outras coisas mais curiosas.

Ao que parece, este doutor Carvalho nunca empregou nos outros a terapêutica que ele ensinava. É bem de crer que, em um ano se o fizesse, ele teria despovoado o Rio de Ja­neiro...

E se são assim cômicos e sugestivos os apedidos que encontrei nos retalhos do Jornal que me foram dados, não são muito menos os anúncios que neles achei.

Guardei os que tratavam de escravos. Vejamos. Secundino da Cunha, um leiloeiro do tempo, devidamente autori­zado, em 20 de janeiro de 1868, anunciava vender, além de móveis, piano, jóias e trem de cozinha, quinze escravos "de ambos os sexos, todos boas peças".

Chamava especialmente "a atenção para os escravos, por ser esta uma ocasião que raras vezes aparece, e mesmo sendo reconhecida a probidade de todos os escravos do Senhor Freitas, é a razão por que são recomendados, em todos eles tem mucamas prendadas, cozinheiras, oficiais de oficio e ganha­dores".

O grifo é meu; mas tudo, inclusive a redação, é do anúncio. Não parece que isto se passou há dois mil anos? Pois não foi. Uma tal licitação se efetuou, em 29 de 1aneiro de 1868, há cinquenta anos e meses, na cidade do Rio de Ja­neiro, quarta-feira, na residência do senhor Tomás Francisco de Freitas, à Rua dos Andradas 48, sobrado. O senhor Freitas ia para a Europa tratar de sua saúde. Deus o tenha em sua santa paz!

Há outro semelhante, mas o leiloeiro é um senhor A. F. Casais. No mesmo mês e ano, porém, a 21, ao correr do martelo, "venderia diversos escravos, com ofícios e prendas", etc., etc.

Meses antes, em 10 de novembro do ano anterior, na Rua da Alfândega nº 100, sobrado, alguém comprava escra­vos, de dezoito a trinta e seis anos, para serem libertos e assentar praça. Estávamos em plena guerra do Paraguai; e os patriotas que não queriam ir lá morrer, davam substitutos que iam combater o Lopez, por eles.

O substituto era sempre encontrado em um escravo, liberto provisoriamente, o homem do anúncio fazia um estoque deles, como se faz hoje com o açúcar, o arroz, etc., e espe­rava a alta de preço... Era um peculiar profit de guerre daquela época. Cada uma tem o seu...

Enfim, a nossa guerra ainda libertou; mas, os americanos que declararam guerra ao México, em 1837, arrebataram-lhe o Texas, e, nele, restabeleceram a escravatura que já havia sido abolida, não será muito pior? Não espero resposta.

Volto para os meus papéis velhos... Até já.

Brás Cubas, Rio, 22-8-1918.