Vida de Antônio Rodrigues Ferreira/VII

Vida de Antônio Rodrigues Ferreira por Paulino Nogueira
Seção VII


Outra ordem de serviços, que não os meramente políticos, concorreo talvez ainda mais para fazel-o um benemerito.

Refiro-me aos que prestou como vereador e presidente da Camara Municipal da Capital no período não interrompido de 18 annos [1].

Entrou para a Camara, como vimos, em fins de Março de 1842, e já a 3 de Março do anno seguinte os amigos, reconhecendo sua superior aptidão, cederam-lhe a presidencia honra de que nunca mais foi preterido até a morte.

Neste posto seo maior empenho consistio sempre em beneficiar por todos os modos o municipio, maxime a capital, cujo aformoseamento, pode-de dizer sem medo de errar, é quasi todo obra sua.

Tambem só elle, com o grande prestigio e força de vontade de que dispunha, podia vencer todas as difficuldades que se lhe antepunham, consistentes a de ordinario no proprio interesse contrariado dos amigos.

Facillimo a um chefe político é armar á popularidade, preterindo o bem publico pelo privado; difficilimo, porem, fazer justiça contra os affectos do coração, e não levantar rebeldia nen1 clamores!

Donde lhe vinha esse segredo?

E’ porque naturezas ha, diz José de Alencar, que tem a força de imprimirem o seo cunho n’aquelles que as cercam; outras se apoderam da indole alheia insinuando-se nella pelo affecto, impregnando-se de sua essencia[2].

Mas não tardemos em rememorar esses serviços.

Na sessão de 25 de Abril Ferreira já pedia ao Presidente da Província que mandasse ao Architecto levantar nova planta da cidade, tendo em vista a existente, mas com augmento de ruas e modificações de outras, afim de serem convertidas em praças, que não tinhamos ou tinhamos defeituosissimas.

De posse dessa nova planta, deo começo com energia e dedicação inexcediveis á obra bemdita e reparadora da execução.

Na sessão de 19 de Junho já levava ao conhecimento d’assembléa provincial a noticia da demolição quasi total da rua do Cotovelo[3], encravada na antiga Praça Municipal, hoje do Ferreira, paralella ao lado do nascente.

Era tambem proposito seo, de que só desistio para evitar enormes despezas e prejuisos, demolir igualmente o antigo edificio da Cadêa do Crime, quando esta em 1855 passou para a Cadêa Nova, de modo que a praça se estendesse até o actual sobrado do Coronel José Albano[4].

Não tendo podido realisar esse intento, pretendia levantar no lado fronteiro ao sobrado do Coronel Machado um outro torreão, igual ao do lado da actual Bibliotheca Publica, para nelle funccionar a assembléa provincial[5].

Mas, não chegando a acordo com o Presidente Pires da Motta limitou-se a dar ao predio camarario a conveniente transformação que ainda conserva, e comprou de intelligencia com o mesmo Presidente, por conta dos cofres da Camara, os chamados Quartos d’Agostinha, sitos na actual praça Jose de Alencar, demolio-os, e sobre elles foi então levantado o elegante edificio d’assembléa provincial por conta da Província[6].

Na praça do Garrote, hoje dos Voluntarios da Patria, fez demolir uma casa que estava fora do alinhamento, obstruindo a passagem franca e a vista para o actual boulevard do Visconde do Rio Branco[7]. Mais ainda teve elle de fazer, demolindo toda casaria existente entre os edificios do Thezouro Provincial e o d’Assembléa Provincial, hoje propriedade da Casa Ingleza[8], fazendo a nova praça da Sé.

Demolio igualmente algumas casas de palha entre a Sé e o palacete do Dr. José Sombra, uma dellas proxima do Palacio Episcopal, com um pequeno pomar.

Desobstruidas, alinhadas e aformoseadas assim as praças, deo começo ao plantio de arvores pelas do Ferreira e José de Alencar, no centro das quaes mandou abrir dous cacimbões de pedra, com grande utilidade publica ainda hoje, dos quaes pretendia fazer chafarizes[9].

E tudo isto e outros muitos melhoramentos sabidos e que omittimos por desnecessario, realisou com maxima economia; porque no ajuste do preço a moeda mais corrente era o seu prestigio e popularidade.

Resolvida a demolição de um predio qualquer, ou o proprietario convinha no preço arbitrado, ou ficava privado de fazer mais reparos externos de qualidade alguma no dito predio.

Nessa luta vencia sempre a Camara; isto é, o bem publico.


  1. O leitor vae ver que o major João Brigido não foi justo nem exacto quando disse na sua "Chronica, A Fortaleza em 1810, Pag. 29":

    « O serviço, por tanto, que se tem attribuido a Antonio Rodrigues Ferreira, de ter alinhado a cidade fica redusido ao facto de ter contribuido poderosamente, em epochas posteriores, para. a observação d’aquelle plano. A outro boticario caberia a gloria pela execução do traçado de Paulet, sendo preciso restituir-lhe o que lhe tiraram, para illustrar o nome d’aquelle.

    Ferreira chegou ao Ceará em 1825, quando já existiam muitas ruas da nova planta. Entrou para a Camara, na qualidade de vice-presidente, na eleição, que se fez no governo de Fausto A. de Aguiar (1848) e servio de presidente no quatriennio seguinte, fallecendo em 1856 ».

  2. O Til., Vol. 1º, Pag 77.
  3. Essa rua, que formava uma especie de cotovello, donde lhe veio o nome, era formada de casas do Coronel Machado, negociante Martinho Borges, D. Anna Senhorinha e Antonio Lopes Benevides. Vide Actas das Sessões de 24 de Abril, 2 e 19 de Junho e 11 de Julho de 1843.
  4. Vide Actas das sessões de 3 e 17 de Agosto de 1854.
  5. Vide Acta citada da sessão de 3 de Agosto de 1854.
  6. Esses Quartos foram comprados por 2:400$000, que foram logo pagos pela Camara. Vide Acta supra.
  7. Vide a Acta da Sessão de 19 de Abril de 1848. Essa casa era de Antonio Simões Ferreira Faria.
  8. Havião nesse espaço as seguintes casas: 2 e umas frentes de 5 portas de Francisco Xavier Nogueira, 1 de Manoel de Pontes Franco, l de D. Francisca Mendes, 4 de Bernardo José de Mello, 1 de D. Maria dos Santos, l de Antonio Raposo, e 1 sobradinho com duas casas de D. Joanna, viuva de Luiz Carlos.
  9. Acta cit. da sessão de 3 de Agosto de 1854.