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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XXV

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como el-rey mandou fazer o castello da cidade de Sam Jorge na Mina


Em vida d' el-rey Dom Afonso sendo ainda el-rey principe, tinha ja a governança dos lugares dalem em Africa, e assi as rendas e tratos da Mina e todo Guinee que entam rendiam pouco; e os trazia a esse tempo arrendados Fernam Gomez da Mina cidadão de Lixboa que nelles ganhou muito dinheiro. E tanto que el-rey reynou como muito prudente e muy astucioso, cuidando muytas vezes o grande proveito que a elle e a seus reinos e naturaes recrecia se naquella parte da Mina podesse fazer e ter hũa fortaleza onde assentasse trato com muitas e boas mercadarias pera com ellas se aver muito ouro como tinha por verdadeira enformaçam que ali se vinha resgatar, e que assentando-se o trato e vindo a estes reinos ouro seria muito serviço e acrecentamento de sua honrra e estado, e principalmente por ha fee de Nosso Senhor Jesu Christo ser naquellas partes sabida como foy, determinou com hos do seu conselho de fazer como fez aa cidade de Sam Jorge na Mina de que tanto proveito a estes reinos recreceo. E avendo muitos que o torvavão por o averem por cousa impossivel pollas grandes doenças da terra, e a longura do caminho, e incerteza, e pouca verdade, e confiança dos negros, e outros muytos inconvenientes que pera ysso lhe lembravam, todavia determinou de o fazer. E o primeiro homem que pera yr lá se ofereceo, foy Fernam Lourenço seu escrivam da Fazenda, que despois foy feytor das Casas da India e da Mina homem muy honrrado a quem o el-rey muito agradeceo e lhe fez sempre muita honrra e muitas merces. Escolheo pera ysso Diogo d' Azambuja cavaleiro de sua casa, que depois foy do conselho, e tomou a cidade de Çafim aos mouros e foy della capitão, homem de muyto bom saber e esforçado coraçam, de confiança, e bondade, e outras boas calidades; e com todalas cousas necessarias em muyto grande abastança, o mandou com seyscentos homens a fazer a dita fortaleza, os cento delles pedreiros e carpinteiros, e os quinhentos homens d' armas, em que entravam muitas pessoas honrradas criados d' el-rey, levando logo de cá toda ha pedraria e madeira lavrada. E porque em todo o Mar Ouceano nam há navios latinos senam as caravelas de Portugal e do Algarve, el-rey por ninguem ousar d' ir aaquellas partes, fez crer a todos que da Mina nam podiam tornar navios redondos por caso das correntes. E pera isso toda a pedra, cal, telha, madeira, pregadura, ferramentas e mantimentos, mandou tudo em hurcas velhas pera lá se desfazerem, e dizerem que por caso das grandes correntes nam poderam tornar, e assi se fez com muito segredo e grandes juramentos, e o ouveram todos por tam certo, que em vida d' el-rey sempre pareceo que navios redondos nam podiam vir de lá; e com ysto teve sempre a Mina muy guardada. E com estas hurcas que diante foram e com muitas e muy boas caravelas partio Diogo d' Azambuja com sua armada da cidade de Lixboa bespora de Sancta Luzia doze dias do mes de Dezembro do dito ãno de mil e quatrocentos e oytenta e hum. E aos dezanove dias de Janeiro do anno de mill e quatrocentos e oitenta e dous, foy ho primeiro dia em que sayo em terra; e dahi a dous dias começou a fortaleza no lugar onde ora estaa, com muito saber e resguardo, e muitas dadivas aos da terra, tudo como homem prudente e muito bom cavaleiro. E depois de tudo feito como cumpria tomou a gente necessaria pera a guarda da fortaleza e pera o trato, e a outra mandou logo pera ho reino com recado do que ficava feito, de que el-rey recebeo muito contentamento; e elle ficou lá por capitam onde esteve dous annos e sete meses donde veo rico e muy honrrado; e sem o ele requerer, el-rey lhe fez em chegando muyta merce e acrecentamento e tanta honrra, quanto por tam bom serviço lhe merecia.