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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XXXIX

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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Do que depoys desta fala e reposta se passou


E sobre esta tam boa e leal tenção do duque com que pareceo que então se despedio d' el-rey, se afirmou que logo em se recolhendo a sua pousada mostrou grande contentamento do que com el-rey passara, atrebuindo suas palavras tão reaes, verdadeiras, e esforçadas a medo e pouco esforço. E logo ho duque de Viseu e o duque de Bragança e seus yrmãos, depoys de partidos d' Almeirim, se ajuntaram no Vimieiro onde todos teveram pratica sobre ysso, louvando muito os modos que tinham pois el-rey delles presumia que pera seu favor e ajuda quando lhes comprisse tinham os reys de Castella, pollo qual el-rey os estimaria e trataria como elles mereciam. E segundo ditos dalguns que a ysto foram presentes, alli tomaram todos por concrusam e determinaçam de nam consentirem a entrada dos corregedores em suas terras e que com todo o risco lhe resestissem. E sobre isto ho marquês de Montemor, o conde de Farão, e o senhor Dom Alvoro se viram e ajuntarão algũas vezes no Moesteiro de Santa Maria do Espinheyro em Evora. Em que com temor do odio d' el-rey que contra si maginavam consultavam a maneira que teveram pera contra elle se valerem. Em que claramente se soube que o voto e tençam do marquês cada vez era mais aceso com desamor e deslealdade contra el-rey, e que per todalas maneiras precurava desobediencia e rompimento. A que o conde de Faram e o senhor Dom Alvoro com palavras de fee e muyta lealdade a el-rey sempre o contrariaram dizendo-lhe, que quando pera desobediencia ouvesse a rezam que nam avia, entregassem a el-rey todo o que delle tevessem, e se desnaturassem delle e de seus reynos como ja outros fizeram e que entam o desservissem. Porque desta maneyra nam cayriam no caso em que sem ysso fariam que nam era pera crer; e porém que a decraraçam sua com el-rey lhe parecia boa e necessaria, mas o modo e com que palavras se faria ficasse somente a juyzo e desposiçam do senhor Dom Alvoro, e que em outra maneira nam consenteriam nem se faria. E de tudo o que passavam avisavam logo o duque de Bragança que estava em Vila Viçosa.

El-rey como soube destas vistas e ajuntamentos lembrando-se da maneira em que tinha o principe seu filho, que nam consentia semelhantes cousas determinou como prudente, com brandura, dissimulaçam e siso apagar sua furia e encendimento. E pera isso deixou de mandar hos corregedores a suas terras (o que com pallavras doces e com respeitos do que a elles por sua honrra e contentamento se devia, ho noteficou logo ao senhor Dom Alvoro) que com mostrança de muito prazer e alegria por ver fora a principal causa de seu escandallo ho fez logo saber a todos. E por el-rey acrecentar mays nesta temperança, satisfez ho marquês e ho conde de Faram a suas vontades, em certos requerimentos que jaa de dias com elle traziam, o que deu entam causa a se esfriarem de seu aceso preposito e cessarem de seus negocios e recados.

E neste tempo veo ao duque de Bragança hum messageyro da raynha de Castella que se chamava Tristam de Villa Real homem aceyto a ella. E segundo testemunho dos que o viram, elle secretamente e de noyte tratava e negoceava com ho duque, depoys de dar boas noites sem ser visto dalgũa pessoa, salvo de Jerônimo Fernandez meirinho do duque que encubertamente em sua casa ho gasalhava; e de Villa Viçosa ho duque se passou aa Vidigueira e com ele encuberto o mesmo Tristam de Villa Real.

E sobre ha concordia e assento que tomaram fezeram hũa capitolaçam, que foy mostrado ao marquês que pola ver veo alli de noite das Alcaçovas onde entam estava, e com elle Afonso Vaz seu secretario, que disse a dita capitolaçam ser em desserviço d' el-rey sobre duas cousas: ha primeira acordaram que os reys de Castella requeressem a el-rey, que por quanto a Excelente Senhora em nome, trajos, e serviço nam cumpria em sua religião ho que por bem do capitollado e seu habito era obriguada, que hos reis apertassem muito que se entregasse em poder do duque ou de cada hum de seus yrmãos, pera lhe fazerem cumprir o que fosse honesto e rezam poys que eram seus vassalos e aviam d' estar em seus reinos; e ha segunda que por quanto na capitolaçam das pazes fora defeso que os castelhanos sob graves penas nam fossem tratar aas partes de Guinee ho que hos reys de Castella nam podiam fazer por ser contra ho bem comum de seus reynos, nos quaes nam era negado seus tratos e proveytos aos portugueses pagando seus dereitos ordenados, antes com ysso hiam e vinham e tratavam livremente; que assi com imposiçam dalgum justo dereyto e tributo, dessem lugar aos seus naturaes que ho trato de Guinee lhe nam fosse defeso por el-rey. E o desleal fundamento disto era que com quanto estas cousas pareciam justas e honestas e que era rezam se fazerem, que polla calidade dellas el-rey as nam avia de conceder nem outorgar em nenhũa maneira, e que entam os reis de Castella terião com ysso rezam de romper com elle guerra, e que o duque e seus yrmãos com esta causa parecer justa se escusariam d' el-rey a o nam servirem, nem sosterem guerra pois nam queria seguir rezam, e aos reis de Castella serviriam e dariam entrada a suas gentes por suas terras. A qual capitolaçam foy metida em cera e dada ao dito Geronimo Fernandez que com ella na mão encima de hum muyto bom cavallo partio de noyte com o dito Tristam de Vila Real, sendo avisado pollo duque que se algũa gente o salteasse fizese todo o possivel por esconder e salvar a dita estruçam, e como chegase em salvo a Castella a entregasse como entregou ao dito Tristam de Villa Real.