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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XXXV

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De outra embaixada que entam el-rey mandou a Castella


E assi neste ãno enviou el-rey de Montemor por embaixador a el-rey e raynha de Castella, Dom Joam da Silveira baram d' Alvito, homem muy prudente e de muito bom conselho, autoridade, e confiança, e com elle por secretario Ruy de Pina; e hia requerer algũas restituyções que pelos reys se aviam de fazer, e assi perdões que aviam de dar a alguns cavaleiros castelhanos que no tempo das guerras serviram el-rei Dom Afonso como em seu favor no trato das pazes fora capitulado, o que a muitos delles se nam compria, com achaques e cautellas que punham e outros entendimentos que aos capitolos davam desviados pera os nam comprirem. E ha principal causa a que ho embaixador foy, era sobre a mudança das terçarias de Moura pera a corte ou outra parte do reyno em lugar saadio, forte, e seguro onde tudo se comprisse, ou se desfizessem as ditas terçarias pello perigo em que o principe e a infanta Dona Isabel estavam pola vila de Moura ser muito doentia nos verãos.

Chegou o baram a Medina del Campo onde el-rey e a raynha estavam na Coresma. E nam foy alli acabado d' ouvir porque estando pera o despacharem, veo a el-rey recado como a villa d' Alfama no reyno de Granada era tomada pollo marquez de Cadiz que lhe mandou pedir socorro com muyto grande pressa e muita necessidade. E el-rey tanto que lhe a nova deram partio aforrado a grande pressa a lhe fazer hir o socorro que pedia. E tanto que a dita villa foy socorrida e provida como cumpria, el-rey se veo a Cordova e ahi esperou polia raynha, que andando prenhe se foy de Medina a Toledo e ahi pario a infanta Dona Maria no ãno de mil e quatrocentos e oitenta e dous acerca da Pascoa da Ressurreiçam; e de Toledo se foy a raynha a Cordova onde a infanta foy bautizada na Ygreja Mayor pello bispo da cidade com grandes cerimonias. E esta infanta Dona Maria foy depoys raynha de Portugal casada com el-rey Dom Manoel, e mãy d' el-rey Dom João o terceiro nosso senhor, e o baram foy padrinho da dita infanta, e ahi acabou de dar sua embaixada, e começou de requerer despacho das cousas ao que hia.

E porque os reys de Castella tinham d' el-rey muitas sospeitas como nam deviam, e por isso cuidavam que o fundamento de seus requerimentos era cauteloso e com respeito de novidades e nam pera bom fim como o embaixador lhe dezia, em quantas cousas requereo nam tomou concrusam algũa que fosse pera aceitar. E por que nam parecesse mal os reis nam consentirem en cousas tam honestas e a ambas as partes tam proveytosas, pera as averem por boas cometiam a el-rey por condições, cousas tam feas e desonestas, que pareciam mais escusas que desejo de concordia; e as mais eram sobre a Excelente Senhora estar fora do poder d' el-rey e de toda sua ordenança e lhe dar vida muy apertada. Pollas quaes cousas o baram descontente dos despachos se despedio dos reys, e deles nam quis tomar grandes merces que lhe mandavam oferecer, e se veo a estes reinos dar de tudo conta a el-rey. Que cuidando quam proveytosa, honesta, e justificada sua embaixada era, e na sem razam dos despachos dela, teve muita sospeita que procederia de conselhos e avisos do duque de Bragança, a que do desfazimento das terçarias muito pesava, crendo que o penhor delas o segurava dalguns receos que tinha ou mostrava ter d' el-rey, porque com ellas por respeyto do principe seu filho estava atado, confiando que em quanto durassem sempre o sosteria em sua honrra a infanta Dona Breatiz sua sogra, que parecia ter-lhe amor como era razam e dar muito credito a seu conselho. E nam foy sem causa tomar el-rey do duque esta sospeyta, porque vistas as repostas que o baram trouxe de Castella, com os avisos que nas estruções do duque que el-rey tinha em segredo hiam pera os reis de Castella, achava-se claro sairem hũas cousas das outras, e tambem porque ante do baram partir destes reynos, ja el-rey e a raynha de Castella sabiam todas as cousas a que elle hia, o que tudo el-rey calou e dessimulou grandemente sem pessoa viva lho entender.

E no Setembro deste ãno tornou el-rey a mandar o dito Ruy de Pina aos reis de Castella que estavam no Moesteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, com repostas e repricas da embaixada a que o barão fora, apertando com rezões muy evidentes, e com fundamento de mais amizades e amor antre elles, e que as terçarias todavia se mudassem ou desfizessem; e tambem que acerca da Excelente Senhora nam requeressem mais novidades nem estreytezas das que acerca della eram jaa concruydas, assi por nam parecer que as pazes e cousas passadas antre elles nam foram feytas com aquella firmeza que deviam. E tambem porque da maneyra em que ellas estavam seria bem e sossego e assi seguro da hũa parte e da outra. E se no casamento do principe com a ifanta Dona Isabel pola deferença das ydades tomassem muyto contentamento se fazer com a ifanta Dona Joana sua filha que na ydade tinha mais conformidade com elle, que por verem quanto estimava sua liança e amizade elle seria disso contente, com apontamento que se neste casamento quisessem antes entender, no dote se apontasse e requeressem as Ilhas das Canareas, que el-rey sempre desejou para mayor segurança de Guinee.

E os reys responderam logo a Ruy de Pina, que bem criam que tal principe como era el-rey seu primo nam diria nem afirmaria taes cousas se nam fossem verdadeiras e muito de sua vontade; porém que elles tinham comprendida hũa cousa em que el-rey de seu coraçam e desejo lhe daria muy craro testemunho, dizendo-lhe logo com palavras e mostranças de muy grande sentimento, que no Moesteiro de Nossa Senhora de Guadalupe tinham preso hum Pedro Montesinho castelhano com cartas e estruções de Dom Fernam Gonçalvez de Miranda bispo de Lamego, prior de Sam Marcos que fora de Castela, e Alonso de Ferrara castelhano, e d' Alvaro Lopez secretario d' el-rey, sobre casamento d' el-rey Febos de Navarra com a senhora Dona Joana. E por ser caso que tanto tocava a sua paz e amizade, que no castigo que a estes desse pois eram seus vassalos e andavam em sua corte se veria bem sua verdadeira vontade; e que pera ysso antes que tomassem concrusam nas cousas que requeria era necessayro que elle Ruy de Pina tornasse a el-rey com esta duvida; e que segundo a obra que na execuçam della fezesse, assi entenderiam depoys nas cousas de seus requerimentos. E pera prova disto mostraram a Ruy de Pina has ditas cartas e estruções que o dito Pero Montesinho confessou e decrarou logo per tormento que lhe foy dado sobre ysso.

E por o perigo deste negocio que hos reys de Castella aviam por certo nam se tratar sem consentimento d' el-rey, e pollas deferenças que sabiam aver jaa em Portugal antre elle e ho duque de Bragança e seus yrmãos, desejavam muyto ver a infanta Dona Isabel sua filha fora das terçarias, porque lhe queriam muito grande bem e a estimavam muyto, e em tempos de mudanças e em reyno estranho vindo has cousas a se danarem como parecia que podia ser, estava em muito risco sua vida e liberdade. E doutra parte receavam abrir mão da paz, que era o principe e a infanta em terçarias, temendo-se que el-rey polas enformações que tinham se tevesse o filho livre, poderia vir com algũas cousas de que antre elles se podessem seguir odios e guerras que como prudentes principes desejavam escusar.

Com ho qual recado Ruy de Pina tornou a el-rey, e logo sobre este negocio de Pero Montesinho teve conselhos. E porque aos que nisso tratavam e andavam em sua corte nam deu castigo algum, se o faziam contra seu consentimento e vontade, nam se achavam neste caso desculpas por el-rey que satisfizessem aos reys de Castella.

E porque el-rey no desejo de ver ho principe fora de terçaria era com elles conforme, que em estremo desejavam ver ha infanta sua filha fora dellas, depois de tudo muito bem visto e cuidado, logo no Janeyro seguinte de mil e quatrocentos e oitenta e tres, tornou a mandar aos ditos reys frey Antonio seu confessor frade observante da ordem de Sam Francisco homem de grande credito e autoridade e o dito Ruy de Pina, os quaes foram aos ditos reys que estavam em Madrid; aos quaes o dito frey Antonio disse em reposta das cousas passadas em nome d' el-rey taes cousas e deu taes desculpas, com que lhe aprouve consentir no desfazimento das terçarias; porque toda a desculpa d' el-rey pera se ellas desfazerem como tanto desejavam lhe parecia boa e de receber. E concertou-se tambem o casamento do principe, que com a infanta Dona Isabel ficava desatado, de se fazer com ha infanta Dona Joana e que se lhe daria mayor dote por hum grao, que mais era alongada na soceçam de Castella que a infanta Dona Isabel. E destas cousas fizeram hos reys hum escripto que frey Antonio e Ruy de Pina secretamente trouxeram a el-rey, com certidam que passada a Pascoa, hos reys lhe mandariam seus embaixadores pera concruyrem ho dito casamento, e assi pera levarem ha infanta Dona Isabel das terçarias. E com este recado vieram a el-rey que estava em Almeirim, com ho qual foy muito alegre e contente, porque nelle teve esperança de ver cedo seu filho em seu poder, a que muyto contrariavam as cousas que no reyno lhe eram reveladas e jaa contra si sentia.