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Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
O Séquito


Lá vem... lá vem.., lá vem o esquife nauseabundo!...
Que silêncio, meu Deus, que silêncio profundo!
Uma legião de moscas tristes, silenciosas,
A três metros do chão abre as asas chorosas,
E vespas e morcegos, mochos e corujas
Voltejam sobre o ar meditativamente.
Anuns e bacuraus vão de casacas sujas
E como que sofrendo horrível dor de dente.
A dor transluz pungente assim como um punhal
No séquito disforme, eclético, infernal.
Nem um sinal se vê do ritual católico.
Tudo é tétrico, horrendo, frio, diabólico.
O firmamento é preto como as coisas pretas.
O mar escuridão. As nuvens grandes tetas
D'onde se escorre um sangue impuro, sifilítico.
O arvoredo é imóvel qual monte granítico.
E os rios vão correndo como uns cães mofinos.
A atmosfera tem uns cheiros fedentinos...
Lá vem.., lá vem.., lá vem o esquife pestilento!

E fui desanimando e fui perdendo o alento...
Senti um rude aperto. Era o espírito de Judas,
Que entrou a me explicar aquelas cenas mudas:
"Desperta, ó bom rapaz, sacode-te, olha cá.
O defunto é daqui, é do teu Ceará.
Aquele grupo nobre, de homens bem formados,
São negreiros do sul, comigo condenados.
Ouve. Começa agora um canto mavioso
De vozes guturais e de acento untuoso.
É terno canto-chão. São padres, são beatas,
Que foram virtuosos sendo escravocratas.
Não vês aquela fila que segue na frente
Levando, como cruz e lampiões sagrados,
Azorragues, chicotes, tronco e ferro ardente?
Pois são homens de Lei dos bons tempos passados.
Tu não verás assim enterro mais comprido!
Virgens, crianças, tropas, frades e cabido.
Qualquer classe acharás naquele funeral.
Lá vejo reis de Angola e reis de Portugal.
Não te horrorizes pois, rapaz, deste adjunto.
Há milhões e milhões de amigos do defunto.
Ele depois de andar mais de três séculos vivo
E sempre amado e sempre heroicamente forte,
Encontrou, afinal esse povo lascivo,
Esses cearenses brutos, sem cálculos, sem sorte.
Atravessou combates e traições e perigos.
Foi morto finalmente. Eis porque os amigos
Fazemos este enterro. E que ato mais sincero
Que a alma de Dionisio ir enterrar Nero?"

Passava então por nós o séquito hediondo.
Judas subiu a um tronco e um rouquenho estrondo
Saiu daquela boca escancarada e feia.
Senti-me vacilar e caí sobre a areia.
Começou a zunir a imensidão de moscas.
Tudo aplaudia as frases, infernais e toscas.
Ouvi o assobiar dos pássaros noturnos;
A reza dos besouros, tristes e soturnos;
Chocalhar as ossadas dos monstros humanos
Cruéis como um algoz, ladrões como ciganos.

Correu no espaço um cheiro imundo, deletério.
E vi como no ar um monstro cemitério.
Faltou-me então o solo e senti-me no espaço,
Caí como um caju maduro de três dias,
Como que arrebentando o meio do espinhaço.
E vi que foram sonho aquelas agonias.
Mas inda me zunia, ao meu ouvido humano,
A voz do orador, do Judas carcamano:
"Chorai, chorai, senhor! Chorai, chorai, senhora!
Morreu o Escravagismo, o enterro faz-se agora!"
E acordado ouvi a esplêndida alvorada
Em honra a Fortaleza, a pátria libertada.

Mas agora me lembro: do sonho terrível
Me ficou na lembrança um carro disponível,
Um carro sem ninguém, mas nobre, envolto em crepe,
Rico, tal noutro tempo um barco de Dieppe.
Judas me disse então: "Ajoelha-te, animal,
Pois não estás vendo ali o carro imperial?"