40 anos no interior do Brasil/Nossos Espanhóis

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Nossos Espanhóis


Na construção da estrada de ferro de Serrinha à Restinga Seca,[1] empregamos principalmente italianos e poloneses, além de um pequeno grupo de portugueses e espanhóis. O trabalho era feito em empreitadas, contratando o mesmo grupo somente por alguns quilômetros de cada vez, pois nós tínhamos tido experiências ruins com grandes empresas.

Eu era mestre de obras do terceiro trecho e enquanto durasse o trabalho moraria na casa abandonada de um fazendeiro. Era baixinha, feita de barro e em vez de janelas possuía apenas uns buracos; os pequenos quartos não tinham nem piso, nem forro. As camas (havia armações de cama de verdade) eram excelentes. Eram armações de madeira bruta, forradas com tiras cruzadas e trançadas de couro cru. Estas tiras são retiradas úmidas e então secam esticadas de modo que adquiriam uma ótima elasticidade. Uma camada de palha e uma esteira por cima e estava pronta a melhor cama!

Era domingo e eu me entreguei aos meus raros prazeres, me esticar na minha “cama luxuosa” depois do almoço e fumar um cigarro. Em dias de trabalho, a jornada não nos permitia tal desperdício de tempo; pois se estava quase ininterruptamente na sela ou na prancheta. Então pude ouvir palmas diante da porta. Mas não me importei; porque meu camerada deveria estar ali e ir ver. No entanto parecia que ele não estava no seu posto. Pois outra vez alguém bateu palmas e chamou: “Ó dono da casa!” Então eu mesmo levantei e fui abrir a porta.

Diante de mim estavam parados quatro espanhóis, com a barba feita e limpos. Em volta do corpo eles usavam uma faixa de lã colorida, de dois metros de comprimento, que ao mesmo tempo servia de cinto e para guardar o cigarro e a faca. Usavam a camisa aberta, de forma que dava pra ver o peito cabeludo. Não tinham grande estatura, mas eram bem proporcionados; jovens de vinte a vinte e cinco anos.

Bon dia!”

Bon dia! Não querem entrar?”.

Hesitantes aceitaram o convite, mas não sentaram, mesmo assim convidei-os novamente. Em vez disso um deles com uma bela cabeleira crespa avançou um passo e disse, como porta-voz do grupo: “Senhor, nós temos um assunto muito delicado e pedimos que Vossa Excelência nos ouça pacientemente”.

Como eu conhecia o complicado jeito dessas pessoas, então lhe assegurei que seus assuntos eram do meu completo interesse e, assim, ele começou:

“Como o senhor sabe, nós cinco assumimos o grande trecho do quilômetro 23, mas como a Companhia não permitiu que nós cinco figurássemos como capatazes, então elegemos o mais velho do nosso grupo, o Evarista, como chefe. E ele, como tal, tem que receber todo o dinheiro para o pagamento dos salários. Mas, como nós descobrimos que ele não pagará a nossa parte, e ainda quer fugir com o dinheiro; infelizmente precisaremos esfaqueá-lo antes. Nós só gostaríamos de pedir ao senhor para dar um jeito de recebermos nosso dinheiro imediatamente, para não termos longos transtornos com a polícia. O senhor não precisa repetir o que nós lhe dissemos agora em total confiança; pois pode acreditar que despacharemos o patife, o Evarista, tão bem que não poderão recair suspeitas sobre nós”.

Eu acordei completamente com essa amigável confissão e assegurei a ele que honraria extraordinariamente sua confiança, mas talvez houvesse ainda outros meios de receber o dinheiro suado, sem que precisassem sujar suas mãos com sangue. Por exemplo, eu poderia explicar as circunstâncias por escrito ao engenheiro-chefe e pedir-lhe para permitir que a soma exata do pagamento total dos componentes do grupo seja igualmente repartida evitando o Evarista como distribuidor.

Então ele disse: “No que diz respeito ao Evarista, nós faremos um bom trabalho quando dermos cabo dele; mas o senhor tem razão com a sua proposta para arranjar as coisas. Quando poderemos buscar nossa resposta?”.

“Acho que em uns oito dias”.

Muchas gracias, senhor!” Cumprimentaram e foram embora.

Que bela confusão! A tranquilidade e o realismo com que esse pessoal trata de um assunto tão sério e inquietante é de se indignar; mas a ingenuamente grande confiança que eles depositaram em mim foi quase enternecedora e consoladora. Portanto eu me sentei por um momento e fiz um relatório ao meu chefe sobre o estranho ocorrido. Já no dia seguinte mandei a carta através de um mensageiro a cavalo para Lapa.

Durante três dias esperei em vão por uma resposta. Só no quarto dia chegou o seguinte telegrama: “Não trate de assuntos que não lhe dizem respeito! Deixe os rapazes se estreparem”.

Eu estava num belo dilema por causa da minha sabedoria! Recolhi informações sobre esse Seu Evarista. De fato, tudo que descobri sobre ele era muito desfavorável, tanto que o receio dos seus companheiros pareceu bastante legítimo. O perigoso homem estaria com aproximadamente 45 anos e com sua aparência que inspirava pouca confiança servia de um excelente modelo para ser o chefe de uma quadrilha. Ele era alto, usava uma barba negra e tinha uma grande cicatriz que ia do nariz até a ponta do queixo; uma marca preta do tamanho de um ovo de pomba enfeitava o outro lado do rosto, e quando o perguntavam sobre a origem desse ponto escuro, dizia impassível, que tinha sido por causa de um tiro que havia sido dado de muito perto; mas o atirador esqueceu de carregar a arma. “Mas ele se arrependeu”, costumava acrescentar rindo. Também estivera na estrada de ferro da Argentina e já trouxera de lá uma reputação ruim.

O telegrama me causou grande preocupação e na noite seguinte não dormi tão despreocupado como antes. Nos meus sonhos confusos, estava batendo constantemente no estranho Evarista. Na manhã seguinte, quando montei minha mula, levei minhas dúvidas e pensamentos na sela. Como poderia evitar o assassinato e ainda proporcionar aos espanhóis os seus direitos? Não se mostrava nenhuma saída. Por ter ainda alguns dias de prazo contei com a sorte e pensei: Com o tempo tudo se ajeita.

Mas, desta vez, a semana passou extremamente rápida, e no fim eu ainda não sabia o que fazer. Os espanhóis voltaram pontualmente no domingo. Cumprimentei-os amigavelmente e expliquei que o meu chefe infelizmente não queria saber nada a respeito da proposta feita, e que por isso eu não tinha mais soluções do que há oito dias. Contudo eles ouviram a notícia perfeitamente tranquilos; sem esperar mais explicações pegaram seus chapéus e quiseram ir embora. Porém eu os detive, pois nesse momento crítico me ocorreu, de fato, uma solução.

“Ouça, pessoal!” Disse-lhes. “Apesar disso encontrei uma saída. O pagamento é realizado no barracão no Rio dos Mortes. Avisarei o dia e a hora. Fiquem à espreita na mata próxima. Quando o pagamento for efetuado, aproximem-se sorrateiramente, sem serem notados, entrem na casa e cerquem-na! Imediatamente após o pagamento chamarei Evarista ao quarto ao lado e lá ele terá que pagá-los na minha presença”.

Por um momento reinou um profundo silêncio, mas então rompeu um tagarelar em espanhol, que pareceu com poderosa cachoeira e o qual eu não consegui mais acompanhar. Depois de, aparentemente, os quatro estarem de acordo, outra vez avançou o mesmo rapaz de cabelos crespos que há oito dias tinha sido o porta-voz do grupo, e fez para mim um longo discurso do qual eu, no entanto, não entendi muito. Mas pude deduzir da conversa, que minha proposta tinha sido aceita. Mas só pensavam que seu plano fosse mais simples. Agradeceram de maneira exaltada, como é o costume, e despediram-se novamente.

Então, no dia do pagamento, eu estava um pouco tenso. Avisei o pessoal a tempo e cavalguei corajosamente para a casa determinada, a qual ficava completamente isolada, nas proximidades do Rio dos Mortes, que atravessava com suas águas negras um rochedo de arenito. Como eu cavalgava, sem saber de nada, através da mata e ao mesmo tempo estava pensando no que iria acontecer depois, de repente minha mula deu um salto para o lado tão forte que quase me derrubou da sela. É que ela se assustou com uma cabeça que aparecia nos arbustos e amigavelmente sorrindo, sussurrou: “Bon dia, Senhor Roberto! Já estamos aqui!”.

“Isso é bom”, disse baixinho, “só não assuste minha mula!” Então fui até a casa, apeei, amarrei o animal e entrei.

Quase todos os capatazes já estavam no lugar e o perigoso Evarista me cumprimentou. Pouco depois, quando o tesoureiro e o seu ajudante chegaram, começaram imediatamente as negociações de pagamento. No entanto avisei secretamente ao tesoureiro que ele deveria tratar com Evarista por último. Ele concordou, por mais que tenha estranhado. Depois de receberem o soldo, cada capataz imediatamente montou em seu cavalo e se foi, o que era muito bom considerando o que se sucederia. A coisa não foi tão ruim quanto eu tinha previsto.

Quando Evarista recebeu o dinheiro, pedi-lhe para ir ao quarto ao lado, pois ainda gostaria de explicar-lhe algumas coisas.

“Por que não aqui?” Disse, surpreso.

“Não, meu amigo, lá!”.

Ele pode reconhecer bem pelo tom da minha resposta que alguma coisa estava prestes a acontecer. Pois seu corpo se contraiu como um raio e seus olhos procuravam por todas as aberturas. Eu parei diante da porta e enfiei lentamente minha mão no bolso do casaco, onde estava meu revólver. Quando ele percebeu isso, andou depressa para a janela que estava somente a uns dois metros dele. Então, nesse momento, surgiu a cabeça de um dos espanhóis na janela e ressoou dentro um amigável “bon dia, Senhor Evarista”. Atônito e completamente perplexo caminhou novamente para o meu lado, ao abrir a porta apareceu um segundo de seus companheiros. Os olhos do Evarista adquiriram um brilho como os de um gato que é perseguido por cães. Ele pode compreender que tinha perdido o jogo. Por isso se espreguiçou com um ar de grandeza e então foi de boa vontade para o quarto onde os outros dois o receberam com uma irônica gentileza. Finalmente ajustaram as contas, cada um recebeu a parte que lhe cabia e todos ficaram satisfeitos. Mas eu recebi um olhar de Evarista que seria mortal, se olhares pudessem matar.

Os quatro espanhóis se acabaram em agradecimentos, até que finalmente me desvencilhei deles. E com a consciência de ter impedido um crime e cuidado para que a justiça tenha sido feita, cavalguei tranquilamente para casa.

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A construção da Linha Sul da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande chega a Limeira. Abril de 1910.
Fonte: Associação Brasileira de Preservação Ferroviária - Núcleo Paraná. Autor desconhecido.
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August Suiter. Ponte sobre o Rio Verde. Negativo em vidro cristal, 13 x18cm, s/d.
Linha Sol da Estrada de Perto São Paulo - Rio Grande (EFSPRG).
Acervo: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, Florianópolis/SC[2]

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  1. Ramal da Estrada de Ferro São Paulo — Rio Grande (EFSPRG). (NdH)
  2. Agradecemos ao historiador Luiz Carlos da Silva pela presente imagem, coletada em sua pesquisa de pós-doutoramento. (NdH)