40 anos no interior do Brasil/Os botocudos

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Os botocudos


Os colonos de Santa Catarina, um dos estados do sul do Brasil, costumavam diferenciar os autóctones (índios) em apenas mansos e bravos. Os mansos — aos quais pertenciam os Coreados [1] e os guaranis, entre outros — eram seres pequenos, sujos, preguiçosos e traiçoeiros, que esparsamente povoavam a serra do interior do sul do Brasil e dos quais muito pouco se falava ou se ouvia; o que era bem distinto dos bravos bugres da tribo dos Botocudos. Havia destes talvez alguns milhares pela região serrana entre os estados de Santa Catarina e Paraná, alguns estimavam apenas algumas centenas. Mas falavam e contavam mais histórias destes poucos do que de seus muitos milhares de irmãos tribais. Os Coreados que vi eram tão pequenos, que bem raro alcançariam a altura mínima para o exército alemão, enquanto entre os Botocudos havia homens de 1,90m de altura e 60 cm de largura de costas.

Os Botocudos derivaram seu nome do botoque, um pequeno pedaço de madeira, com formato de T onde repousa um pedaço transversal na boca, enquanto o pedaço maior sobressai trespassado pelo lábio inferior e serve para imitar os vários sons de animais em diferentes conformações. Enquanto os Coreados estavam completamente degenerados pelo contato com a cultura, os Botocudos permaneciam tão selvagens quanto a onça-pintada em sua floresta, apesar das esporádicas tentativas de civilização do governo. Não deverá estar muito longe o momento em que o último Botocudo se deitará na terra fresca, pois já que eles só vivem de caça e pesca e são privados cada vez mais de suas terras, eles se extinguirão aos poucos. Culturalmente, os Botocudos estão em um nível muito baixo, mas como caçadores são inigualáveis. Ele segue um rastro tão seguro quanto um cão de caça, vê como um falcão, fareja a fumaça de um charuto a centenas de metros, monta armadilhas com muita habilidade, armando armadilhas de lobo para apanhar animais e pessoas.

Essas armadilhas de lobo, chamadas forjas, ele faz hoje para talvez utilizar daqui a um ano, quando for perseguido; ele trabalha, por assim dizer, com previsão. Usualmente, cava uma grande cova de 1,5m de diâmetro por 3m de profundidade, que pode ser aprofundada, e assim que o corpo cai, morre espetado nas estacas endurecidas pelo fogo, as quais apontam do fundo para cima da cova. Essa cova principal encontra-se no meio do caminho, enquanto em ambos os lados há pequenas covas com as já descritas pontiagudas estacas em formato de tabuleiro de xadrez. Uma cobertura de taquaras é colocada sobre os buracos, folhas são espalhadas e cada pista é disfarçada. A natureza faz o restante, ao espalhar folhas secas no decorrer de semanas e meses, de modo que não se suspeita mais do perigo à espreita.

Se os Botocudos saqueassem os colonos e se sentissem perseguidos, iam com predileção por esses caminhos meio esburacados sobre as forjas, pelos quais avançavam com tanta maestria, que o perseguidor não suspeitava de nada. Mas se o homem à frente do perseguidor caísse na cova principal, então ele gritava involuntariamente, de modo que os sucessores, que sempre precisavam marchar um atrás do outro, se assustavam e pulavam para o lado, para caírem em outra cova. Logo, os buracos eram feitos com extrema astúcia e testemunhavam um cálculo muito preciso e uma inacreditável ardilosidade.

No ano de 1887, fui fazer uma grande medição de terras distante de todos os locais habitados por humanos. Dentre meus funcionários, encontravam-se filhos de diversos colonos alemães. Naturalmente, não havia serviços regulares de correio, e apenas recebíamos notícias do resto do mundo quando um mensageiro era enviado por algum motivo ou quando mantimentos eram enviados de longe por animais de carga. Dessa forma, o filho de um colono recebeu uma carta e, muito ansioso, correu até a barraca para abri-la. Dali a pouco percebemos um terrível grito, como um uivo selvagem, como se viesse de um animal selvagem nas proximidades, de modo que todos escutaram assustados. Visto o som parecia vir da barraca, mandei um homem até lá e deixei que espiasse o que ocorria. Mas este voltou imediatamente branco de pavor e pediu que eu fosse rápido ver com meus próprios olhos o que havia acontecido.

O espetáculo que presenciei era sinistro. Franz estava deitado sobre o chão, o rosto virado para o solo e as mãos tensamente agarradas ao chão, onde ele gemia como um gato selvagem, em seguida gritou de modo selvagem: “Todos estão mortos, todos estão mortos!”. Ajudamos o infeliz a se levantar tão bem como podíamos, mas ele só foi capaz de esclarecer o motivo de seu lamento horas depois: os Botocudos atacaram a colônia de seu pai, assassinaram seu pai, sua mãe e seus quatro irmãos, mataram o gado e roubaram ou destruíram os poucos bens que não valiam a pena carregar.

Já que nosso trabalho urgia, não pude me demorar com o pobre rapaz, então deixei seu melhor amigo com ele, o qual à noite me contou sobre Franz e seu destino. Este ficou se lamentando e se queixando durante horas, até que de repente ficou muito calmo e não deu mais nenhuma resposta, totalmente ensimesmado. Então, também fui até ele e o encontrei em um estado totalmente letárgico, no qual ele não participou e parecia estar ausente de espírito. Na manhã seguinte, ele veio até mim e me pediu seu pagamento, visto que precisaria ir embora para cumprir um dever. Em resposta a minha pergunta sobre o que ele pretendia fazer, primeiro encontrei apenas um olhar estranhamente rígido e pasmo de seus olhos; mas então veio de seus lábios uma confissão, como que extorquida de uma força sinistra, que ele daqui em diante precisaria vingar os mortos. Isso soou tão natural e evidente, que não achei nada de estranho nisso. Mas receava que o jovem rapaz pudesse com isso cometer uma imprudência, que a primeira calamidade fosse seguida de uma outra, e o questionei sobre como ele pensava em realizar seu plano. Sua resposta foi do mesmo modo surpreendente e tranquilizante para mim; ele queria se juntar imediatamente aos “bugreiros” (caçadores de bugres) e junto a eles realizar a vingança. Com isso, seus olhos se iluminaram com algo estranhamente demoníaco, que eu até então não tinha observado no jovem bondoso e sereno e me subjugou de tal maneira, que não arrisquei mais nenhuma objeção e o deixei seguir seu caminho.

Os citados caçadores de bugres foram criados nessas regiões fronteiriças da civilização para casos de necessidade. Em geral, eram brasileiros que também já tinham sofrido um ataque surpresa dos bugres. Eles eram caçadores que conheciam a fundo todos os mistérios e pavores da selva e por fim isto se tornou um esporte para os caçadores de gente. Eles eram de uma crueldade e desumanidade que não ficava atrás dos pobres índios. É verdade que o governo condenava essas caçadas indignas aos seres humanos, mas como ele mesmo não era capaz manter os selvagens sob controle, se contentava apenas em fazer protestos por escrito.

Três meses se passaram sem que tivéssemos notícias de Franz. Então, um dia ele apareceu e pediu um emprego, o que lhe foi concedido imediatamente de volta. Mas como se transformou esse homem! Ele estava dez anos mais velho; estava esquelético, dava a impressão de ser uma múmia viva; seu corpo era cheio de cortes e pústulas e seu olhar antes tão ingênuo se tornou inconstante. Ele não falava com quase ninguém, fazia sua obrigação conscienciosamente e respondia a cada pergunta de forma rude e mal-humorada, assim que tive a impressão de que ele mesmo não estava satisfeito com sua vingança. Mas não dirigi a ele nenhuma pergunta, na pressuposição de que seria mais inteligente deixar em paz alguém com estado de espírito tão perturbado e que o desabafo de sua alma aconteceria à medida que ele se restabelecesse.

E a última hipótese se concretizou mais rápido do que eu pensava. Visto que Franz era um dos mais hábeis desbravadores de floresta e possuía um sentido de orientação fortemente desenvolvido, tratei de levá-lo comigo na maioria das vezes em que precisava sondar o terreno. Durante uma dessas incursões um aguaceiro nos surpreendeu e visto que estes, de acordo com a experiência, não duram tanto tempo, caminhamos procurando por abrigo sob um penhasco inclinado. Foi então que ele começou a falar de si mesmo sem motivo algum. O acontecimento natural teria dado o impulso externo para esse desabafo. Ele explicou que teria a irresistível necessidade de finalmente desabafar, ainda mais sabendo que no meu caso não era curiosidade, mas sim compaixão. E então ele começou:

“Quando naquela altura fugi de vocês, eu estava como em um sonho confuso. Eu quase não tinha consciência do que fazia. Primeiramente fui até minha casa. Porém, a casa paterna não estava mais lá, apenas restos carbonizados e frios deixaram rastros de onde se encontrava. Os vizinhos, que moravam a alguns quilômetros, vieram me consolar ao saber da noticia de minha chegada. Contudo, eu não estava inteiramente acessível a consolo e apenas me informei quando e como aconteceu o horror e o que havia sido feito até então para perseguir os autores de tanta crueldade. Era muito mais do que eu havia esperado. Eles se abalaram em perseguição instantaneamente, no entanto com poucas armas e com uma equipe de apenas cinco homens. Eles seguiram um dia inteiro os rastros, que eram propositalmente claros. Na segunda manhã, o homem que caminhava à frente caiu em uma forja principal; mas isso decorreu sem grande prejuízo; pois na queda ele agarrou um galho, de modo que o peso da queda foi atenuado e ele não se espetou na lança, apenas se feriu nas costas. Enquanto seus companheiros teciam uma corda de taquaras e com isso o trouxeram para cima, eles foram atingidos por flechas de bugres escondidos e um homem recebeu uma flechada no braço. É verdade que os atacados responderam com alguns tiros de espingarda nos arbustos, mas retornaram depois de tirar o companheiro da cova. Durante horas foram perseguidos pelos bugres, cujos risos selvagens irônicos e gritos provocantes de “bugres”!” urgiam em seus ouvidos até meio-dia. Somente na manhã seguinte chegaram em casa e se apressaram em enviar um mensageiro aos caçadores de bugres, para pedir ajuda a eles.

Levou dois dias até que estes fossem reunidos; pois moravam longe uns dos outros. Nesse ínterim, todas as precauções necessárias foram tomadas para realizar a perseguição. Cada um precisava levar consigo os mantimentos necessários, visto que não se caçar pela selva; pois os bugres seriam avisados pelos tiros; também não era permitido acender fogo. Quando finalmente no terceiro dia os bugreiros vieram, nós partimos imediatamente. A marcha nos conduziu inicialmente àquela funesta cilada, que foi cuidadosamente evitada. Então chegamos a um terreno cada vez mais montanhoso; o caminho nos levou para cima através da mata fechada na direção das nascentes do rio Itajaí. Embora chovesse, isso não deteve os bugreiros, que seguiam o rastro; as condições do caminho eram tais que por vezes precisávamos rastejar para passar pela mata fechada. Já havíamos marchado cinco dias e ainda não havíamos avistado os bugres. No sexto dia chegamos a um ponto mais alto da floresta; daqui um dos bugreiros avistou à noite, sobre uma montanha situada em frente, a luz fraca de um fogo. Finalmente um sinal! Minha respiração se acelerou, meu pulso disparou! Partimos ainda na mesma noite, pois cada minuto perdido poderia ser perigoso para nós, visto que estávamos enfraquecidos de fome, devido à comida fria e insuficiente. Uma chuva fina tornou a marcha através do brejo e da mata pela noite ainda mais desagradável; além disso, não podíamos usar nossas capas como proteção contra a umidade, pois precisávamos derrotá-los com nossa artilharia precária, e a pólvora deveria permanecer seca e utilizável.

Grande parte do restante da noite ficamos deitados sobre o chão úmido e esperamos até a alvorada. Finalmente veio a hora tão esperada, e eutremia na espera da iminente retaliação. Lenta e cuidadosamente, rastejamos pelo cume da montanha acima, onde já podíamos perceber o contorno do rancho dos bugres coberto por taquaras. Lá... lá... um sinal... um único grito pungente... ah, a justiça veio... os demônios da vingança estão a solta... agora a coisa é olho por olho... derrubamos a entrada do rancho. Na minha frente saltaram dois bugreiros no local escuro. Eu vejo como um corpo gigantesco se levanta em um canto, se curva para uma longa flecha e no momento seguinte atira contra nós. Então quase que ao mesmo tempo, o bugreiro a quem a flecha foi dirigida se ajoelhou de modo que a arma caiu no chão. Mas ele já estava com sua espingarda pronta para atirar, dispara o tiro e o gigante recebe à queima roupa toda a carga destruídora do chumbo no peito nu! Ele caiu sobre a terra retumbando como uma rês abatida.

Havia ainda dois homens no rancho, mas como o grande morreu e eles viam o número superior dos agressores, apanharam rapidamente um feixe de flechas, se jogaram como um raio no chão e escorregaram dali como serpentes; também os outros fugiram depressa para fora sob a parede de taquaras do rancho.

Mas o que se sucedeu então foi terrível, de modo que eu não gostaria nem um pouco de descrever para o senhor. Os bugreiros pularam como loucos em volta e procuraram por outros inimigos. Mas apenas respondiam a eles o grito de pavor de mulheres e crianças. Estas se atiraram ganindo no canto do rancho, de modo que seus corpos escuros formaram uma pilha confusa e se empurravam desesperados e buscando salvação. E então os bugreiros penetraram apressadamente com seus longos facões nessa massa de corpos agitados. Era terrível de ver. “Mas são apenas mulheres e crianças!” gritei e clamei em seus ouvidos. “São animais, são animais, mata, mata” recebia como resposta. Eu finalmente pulei no meio com a espingarda para colocar um fim no avanço absurdo; então uma coronhada me derrubou. Quando voltei a mim, estava sozinho entre os mortos e os moribundos. Meus companheiros estavam um pouco desapontados, pois não haviam encontrado alimentos aqui; havia apenas um porongo de abelhas meleiras silvestres, que com muita avidez fora tomado, mas causou uma tal disenteria em todos, que nós padecemos durante todo o caminho de volta para casa.

Dos colonos, nenhum de nós participou daquele assassinato bárbaro de mulheres e crianças. Silenciosos com sentimentos singulares, partimos para casa. Não seria conveniente se demorar muito pelo rancho; pois era provável que quase todos os homens estivessem em uma caçada, da qual poderiam retornar a qualquer momento. Como perseguidos pelas Fúrias, rastejamos através da mata espessa, durante cinco dias inteiros. O medo dos perseguidores vingativos nos impulsionava para a frente. Quase que durante o todo percurso estávamos sem alimento! Dilacerados por espinhos e atormentados pelo medo, mal cobertos por farrapos, finalmente chegamos em casa doentes e quase mortos de sede e de fome.

Pobres criaturas! Sim, eles roubaram meu pai, minha mãe e meus irmãos; mas apesar disso eu não posso esquecer a pilha estremecida de indefesos, na qual os bugreiros investiram bestializados. Eu não tive mais pensamentos de vingança; apenas compaixão, uma imensa compaixão me tortura!”

Franz calou-se esgotado. A chuva havia acalmado nesse meio tempo, e sem palavras e abalados saímos do resguardo do rochedo e voltamos para casa.

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  1. O autor aqui se refere aos índios Coroados, denominação que muitas vezes abrange a etnia Kaingang, (NdH)