A Condessa Vésper/II

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo II: O médico misterioso


Gabriel, sem dar pelo amigo, que o seguia à distância, atravessou o jardim e ganhou a chácara. Tinham-lhe falado no pavilhão ao fundo... do lado do mar...

— É ali!... balbuciou ele, cheio de febre. Deve ser aquele chalézinho sonolento, que se esconde na folhagem...

E dirigiu-se para lá.

Das janelas do pavilhão derramava-se no mar uma doce claridade, cor de pérola, que se embebia no silêncio da noite como um plácido suspiro de absoluto repouso.

Gabriel comprimiu o peito com as mãos. Sentia por dentro o ciúme comer-lhe o coração a dentadas.

Ah! como poderia o mísero suportar a idéia de que Ambrosina naquele instante desfalecesse de amor nos braços de outro homem? Como poderia admitir que aqueles lábios, que só com uma única palavra lhe enlearam toda a existência, dissessem a outro o mesmo "Amo-te", que a ele encheu o coração de esperanças, transformadas agora em negras fezes?... E que aqueles olhos, e que aquele colo, e que toda aquela divina carne, desmaiassem e palpitassem na síncope do primeiro enlace dos sentidos, sem ser nos braços dele?. .. dele, que tanto a reclamava no ardor do seu desejo apaixonado!

— Ambrosina! minha formosa Ambrosina!... balbuciava o infeliz, a fitar a dúbia claridade das janelas do pavilhão; como te deixaste fascinar por outro... como pudeste, infiel e querida companheira de meus sonhos, crer, houvesse neste mundo alguém, a não ser eu, capaz de merecer-te e capaz de amar-te como deves ser amada? Louca! tu me perdeste para a tua felicidade, e de mim próprio me privaste! Repousa no teu engano, embriaga-te de traição, bebe, indiferente e feliz, as curtas horas sobejadas do amor, porque amanhã o teu despertar há de ser amargo e pressago! Hei de com o meu sangue enodar-te as núpcias! hei de com o meu cadáver tolher-te a estrada! O morto, que ao alvorecer terás sob as tuas janelas, há de quebrar-te na mentirosa boca o sorriso que trouxeres para a luz do dia! há de gelar-te no peito a doce recordação da tua primeira noite de mulher, e há de acompanhar-te pela vida como a própria sombra da perfídia que habita tua alma!

E, ao terminar estas palavras, já Gabriel se havia arrastado até à flórida porta do pavilhão cor-de-rosa, e aí arrancando do punhal, pousou sobre estes os olhos com profunda e magoada expressão de ternura.

Depois de contemplar por longo tempo a primorosa arma, enquanto dos olhos lhe corriam as derradeiras lágrimas, levou-a piedosamente aos lábios, murmurando de joelho, como se orasse a mais íntima das preces:

— Em ti, leal companheiro dos meus antepassados, beijo o sangue generoso de minha mãe, que a mim te transmitiu, sem contigo me transmitir o seu valor. E ela que me envie, lá da sua etérea morada, perdão para esta minha morte tão mesquinha, tão covarde e tão indigna da sua raça!

Mas, antes de alçar a arma, um forte rugido de fera, um rouco surdo e cavernoso, que parecia sair dos aposentos dos noivos, empolgou-lhe a atenção.

Prestou ouvidos. Um novo ronco sucedeu ao primeiro.

Dir-se-ia um tigre a roncar amordaçado.

E pouco depois os rugidos começaram a repetir-se quase sem intermitência. — Socorro! gritou daquele mesmo ponto uma voz de mulher.

Gabriel não esperou por mais para meter ombros à frágil porta do pavilhão, arrombando-a com estrondo e precipitando-se lá para dentro como um raio.

— Socorro! Socorro!

Atravessou de carreira um corredor, ao fundo do qual havia uma cancela com vidros de cor, iluminados; despedaçou um dos vidros, e enfiou a cabeça pelo esvazamento aberto. Era aí o quarto dos noivos. Gabriel sentiu ouriçar-lhe o cabelo à vista da terrível cena que se patenteava a seus olhos.

O noivo de Ambrosina estava em posse de um ataque de loucura furiosa.

Leonardo, assim se chamava ele, já desde antes do banquete nupcial havia sentido um princípio de vertigem e um estranho sobressalto de nervos, que lhe alteravam a respiração e lhe punham o sangue desassossegado.

Não ligou a isso grande importância, tratando, porém, ao sair da mesa, de apressar o momento feliz de fugir com a desposada, para a grata independência do ninho que os esperava.

Mas, nem aí conseguiu tranqüilizar-se; continuava sobressaltado, quase ofegante. E, mal havia trocado com a esposa as primeiras e ainda formais expressões da íntima ternura, um novo e mais forte rebate dos nervos lhe agitou todos os membros a um só tempo, como por efeito de uma formidável descarga elétrica.

Leonardo estremeceu da cabeça aos pés, contraindo os lábios, abrolhando os olhos e rilhando os dentes. E começou a tartamudear inarticulados sons e a extorcer-se no luxuoso divã em que havia resvalado.

Ambrosina, já recolhida ao leito, afogada de finos lençóis até à garganta, acompanhava-lhe os menores gestos, tiritando de susto e pronta a pedir socorro.

O infeliz ergueu-se por fim, e pôs-se a andar ao comprido da alcova, muito alvoroçado, sem largar de fazer com a boca e com os olhos contorsões epilépticas. E, ao passar defronte do vasto espelho de uma linda psichê de moldura dourada, encarou-se, soltou um tremendo berro e despedaçou a lâmina de cristal com um murro.

A noiva, de um salto da cama, procurou fugir da alcova, clamando socorro. Ele, porém, a apanhou nos braços, antes que ela conseguisse abrir a porta.

Ambrosina, retorcendo o corpo com uma agilidade de serpe, logrou, aos gritos, escapar-lhe das mãos; mas Leonardo cortou-lhe a saída, rojando-se diante da porta, na destra posição de um tigre que arma o pulo sobre a presa. Faiscavam-lhe os olhos, espumava-lhe a boca e fungavam-lhe as ventas, como de faminta fera fariscando sangue. A punhada no espelho cortara-lhe o pulso, e dos golpes todo ele se tingia de rubras manchas.

Ambrosina estonteada de pavor e já sem voz para gritar, corria, seminua, de um canto a outro da atravancada câmara, ora a esconder-se no cortinado do leito, ora a agachar-se por detrás dos mimosos biombos de seda e dos elegantes moveizinhos de laca japonesa.

Ele afinal, grunindo, pinchou-se sobre ela, e apresou-lhe com os dentes a sutil camisa de claras rendas e laços cor-de-rosa. A bela rapariga soltou um grito mais forte, e caiu por terra sem sentidos, rachando o crânio contra as patas de bronze de um jarrão de porcelana oriental.

Leonardo apoderou-se da desgraçada com uma alegria feroz.

Foi nessa ocasião que Gabriel rompeu o vidro da porta. A fera, ao dar com ele, abandonou a presa e, entre medonhos uivos, engatinhou-se para o intruso.

Gabriel viu-a aproximar-se, e sentiu o coração saltar-lhe por dentro como outra fera também furiosa. Em um abrir e fechar de olhos, levou de arranco a ogival cancela que os separava, e achou-se em frente do louco.

Leonardo, já de pé, recuou dois saltos, e de um bote se arrojou sobre o adversário, fazendo voar-lhe do punho a arma estremecida.

Engalfinharam-se, lutando peito a peito, cara a cara, como dois demônios possessos da mesma raiva; e afinal rolaram no chão, feitos num só, numa só massa iracunda e ofegante, que rodava na estreiteza da alcova, levando de roldão o que topava, despedaçando móveis, faianças e cristais, fundidos num infernal abraço de extermínio. Gabriel sentia as garras e os dentes do louco rasgarem-lhe as carnes, mas insistia em estrangulá-lo, tentando empolgar-lhe o pescoço.

Felizmente, Gaspar, que havia apanhado no ar a situação e correra a chamar pelos de casa, invadia agora, acompanhado por outros, o revolto aposento dos noivos.

Custou-lhe obter aquela gente prostrada por dois dias de festa.

Quatro homens atiraram-se à unha a Leonardo, como a um touro: o insano, porém não largava dos dentes a espádua esquerda do rival. Então Gaspar, que acabava de abrir o seu portátil estojo de cirurgia, despejou no lenço o conteúdo de um frasquinho de prata que tirou dele, e conseguindo colar contra o nariz e a boca do furioso o pano ensopado. Leonardo acabou por fechar os olhos e deixar-se cair exânime nos braços dos que o detinham.

— Carreguem com ele para lugar seguro, disse o operador; donde não possa fugir quando voltar a si. E tratemos agora destes!

Estendeu-se a Gabriel sobre um divã, e carregou-se com Ambrosina para o seu infeliz e faustoso leito conjugal. A desditosa noiva continuava estarrecida e banhada em sangue.

Gaspar pediu pontos falsos, trapos de linho, todos os recursos desse gênero que houvesse em casa; assentou-se expeditamente ao lado da cama, arregaçando as mangas, e pôs-se a observar atentamente a ferida da enferma.

Só nessa ocasião apareceu na alcova o pai da noiva.

Fora de si e quase sem poder falar, perguntava o comendador muito aflito que estranha e grande desgraça havia sucedido à sua pobre filha; mas dando com Gaspar ao lado dela, a auscultar-lhe o colo, estacou, exclamando fulminado:

— O Médico Misterioso?!

E rugiu de cólera.

Gaspar, sem largar de mão o que fazia, olhou para ele de esguelha, e sacudiu os ombros.

— O filho do coronel Pinto Leite em minha casa?! bramiu Moscoso, cerrando os punhos. Saia daqui, senhor! saia imediatamente, ou o farei despejar lá fora pelos meus escravos!

Gaspar, ainda sem largar de mão a desfalecida, respondeu com toda a calma:

— Sim, mas deixe-me primeiro cumprir com o meu dever profissional, medicando estes dois infelizes; uma é sua filha, e outro é a quem deve ela a vida, à custa do estado em que o vê... Há depois tempo de sobra para o comendador enxotar-me de sua casa uma vez por todas...