A Condessa Vésper/XLIV

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XLIV: Viva Napoleão!


— Toda e qualquer mulher, principiou a Condessa Vésper, uma vez viciada pela ociosidade farta e pelo hábito quotidiano da satisfação de todos os seus instintos e de todos os seus caprichos, nunca jamais se poderá contentar com a banal existência de chá com torradas, que lhe ofereça um rapaz pobre e honesto, de roupa bem escovadinha, lenço cheirando a água-de-colônia, e algibeiras cheias de máximas filosóficas em prosa e verso...

E, a um gesto interlocutório do amante, disse ela entre parênteses:

— Não tens de que te espantar com esta franqueza! Que Diabo, filho! eu bem te preveni!

E prosseguiu, sem esperar pela réplica:

— Acredita numa triste cousa, meu pobre Gustavo; essa denominação que vulgarmente nos conferem de "mulheres perdidas" é muito justa e muito verdadeira, pois com efeito não há salvação possível, para a desgraçada uma vez presa na voragem da ostentação mantida pelo próprio corpo. Podemos, por alguns dias, alguns meses, alguns anos até, reprimir e disfarçar os vícios da nossa vaidade; mas, lá chega um belo momento em que, só o simples espetáculo de uma mulher que nos passe defronte dos olhos triunfante no seu phaeton tirado por animais de raça, exibindo um rico vestido à última moda, e a idéia de que com uma simples pirueta na vida a suplantaríamos imediatamente, é quanto basta às vezes para tranverser toda a nossa pseudo-regeneração e de novo atirar conosco à primitiva e sedutora lama! Não te revoltes, meu amigo! Falo-te com o coração nas mãos e segura do terreno em que piso. Para nenhum outro homem teria eu esta franqueza, porque isso me poderia acarretar gravíssimas desvantagens profissionais, mas contigo, que nada mais tens para mim do que o teu amor de poeta...

— Cínica! atalhou Gustavo.

— Oh! nada de palavrões! Não tens direito de enfadar-te, nem eu estou agora disposta a uma cena violenta.

— Pois então não me provoques com palavras que me humilham!

— Não sei por que te hás de julgar humilhado. Suporás acaso que enxergo alguma superioridade nos homens mais ricos do que tu? Se eles têm mais dinheiro, é porque o herdaram, ou roubaram, ou o ajuntaram à força de paciência e economia; isso, porém, não vale a milésima parte do teu talento e ainda menos do pobre desprezo que tens pelas vaidades burguesas e pelas ambições vulgares. Todavia, filho, o teu talento, por maior, nem todos os teus brilhantes méritos, seriam capazes só por si de dar-me a deliciosa febre, o delírio do gozo de oprimir pela inveja às mulheres honestas, os loucos transportes dos vícios ultra-humanos e sensacionais, o insubstituível prazer de vingar esta carne que se vende, a ela escravizando e com ela envenenando os que a compram e conspurcam de beijos luxuriosos!

— Oh! Se me amasses, nem uma só dessas cousas te acudiria ao pensamento, quanto mais aos lábios!

— Mas, valha-te Deus! tudo neste mundo é relativo. Se eu te não amasse, filho, não estaria tu aqui assim, ao meu lado, a pagar-me em palavras duras o direito que meigamente te confio de dispor de mim, como se foras meu dono... Creio pelo menos não haver eu recebido nenhum decreto do Imperador, mandando-me que te ature; se o faço é porque te amo, toleirão!

— Entretanto, disse ele, erguendo-se, bem diferente é o amor que me inspiraste!... Eu também vivia preso a uma outra vida, melhor que a tua; não feita de falsas e ostensivas vaidades, mas de justas e sinceras aspirações, e com a qual tive de romper por amor do teu amor... Sonhos, esperanças, ideais, tudo calquei aos pés, para às cegas seguir o destino que teus olhos avistassem! Tu não tens coragem para deixar um vestido à moda e um carro, e eu tive para abandonar o caminho que conduz a todas as considerações públicas e a todas as felicidades íntimas! Ah, não! tu não me amas, desgraçada! tu nunca a ninguém amaste!

— Como te enganas!... murmurou Ambrosina, com um suspiro profundo. Oh, se amei!

— Ah!

— Oh, se amei! Tudo o que agora sintas, e muito mais, tudo isso já passou por esta alma perdida e gasta!... Pede a Deus nunca te faça a ti sofrer o que eu sofri...

— Ah! então tu não me amas, porque já amaste demais? Não me amas porque foste já inteiramente de outro?! Oh! por piedade não me mates deste modo! por piedade não me fales em outro homem!

E Gustavo, arfando, deixou-se cair em uma cadeira, a segurar a cabeça com as duas mãos.

— Não foi um homem... segredou Ambrosina, indo afagar-lhe os cabelos. Põe à larga o coração e reprime os teus zelos... Vou confiar-te um manuscrito, que outros olhos não viram além dos meus... Se o leres, ficarás inteiramente tranqüilo... e talvez curado.

— Um manuscrito?

— Sim, querido, uma simples nota de minha pobre vida, mas pela qual poderás penetrar até ao fundo do meu coração, e de lá voltares sarado para sempre da poética ilusão de amor que te inspirei. Espera um instante.

E daí a pouco voltava ela com um pequeno livro de capa negra, que passou a Gustavo.

Este abriu o livro, e leu na primeira página:

"LAURA"

— Que significa este nome? exclamou o rapaz.

— Lê! disse Ambrosina. É quase nada... obra de alguns minutos de leitura...

Gustavo afastou o reposteiro da janela e, à luz que vinha de fora coada pelas cortinas, começou a ler o seguinte:

"Era no inverno, um céu de lama enlameava a terra. Eu vagava pelas ruas, sem destino, embriagada e foragida.

"Nesta noite havia rompido com o meu amante, o meu primeiro homem, porque a súbita loucura do outro, que tive por marido, não lhe deu tempo para me fazer mulher.

"Na questão com meu amante era deste a razão e minha toda a culpa: fora eu nessa mesma tarde surpreendida por ele a traí-lo, ao fundo da chácara, sob um caramanchão de jasmins, com um miserável que lhe parasitava a bolsa e lhe corrompia o caráter.

"Fugi de casa com medo que ai me matassem numa crise de ciúmes, e quando me achava lá fora, prestes a sucumbir ao cansaço e ao desamparo, fui socorrida por um pobre homem, generoso e rude, que carregou comigo e me recolheu ao leito virginal de sua idolatrada filha.

"Foi então que conheci Laura.

"Um sonho! Dezesseis anos, olhos negros e ardentes, boca desdenhosa e sensual, dentes irresistíveis e um adorável corpo de donzela.

"Acordei essa noite nos seus braços.

"Foi o meu único amor em toda a vida. Jamais em delírio de sentidos, paixão, esquecimento de tudo, alma e carne se fundiram numa só lava de desejo insaciável e ardente, como com as nossas sucedeu para sempre nessa noite imensa, misteriosa, revolta e sombria como um oceano maldito.

"Fugimos as duas para a Europa.

"O pai de Laura morreu de desgosto.

"E para nós outras se abriu uma estranha vida de delícias trancendentais e cruéis. Primaveramos em Nice e fomos de verão a Paris. O velho mundo, sistematicamente orgíaco, nos era indiferente e banal. Vivíamos uma para a outra.

"Laura, porém, ao declinar do estio, começou a sofrer. As violetas dos seus olhos, mais doces que as estrelas do Adriático, iam-se fanando e amortecendo; vinham-lhe às faces sinistras manchas cor-de-rosa, e, aos primeiros crepúsculos do outono, todo o seu mimoso corpo de flor impúbere caiu a definhar, pendido para a terra.

"Eu passava os dias e as noites ao lado dela, numa vigília de beijos angustiosos, em que o meu amor libava dos seus lábios murchos a derradeira essência.

"Prazer horrível! Quantas vezes não imaginei que naqueles nossos sombrios êxtases, ia beber-lhe o último alento? mas em vão tentava a morte intimidar-me, rondando-nos as carícias e disputando da minha boca a doce e cobiçada presa; mais forte do que ela, era a sangüínea onda do desejo que nos arrebatava, num só vulcão de fogo, aos páramos do supremo delírio da carne.

"Laura voltava sempre estarrecida e chorosa desses fatais arrancos dos sentidos. Eu bebia-lhe as lágrimas. "Uma noite, ergueu-se a meio na cama, e fitou-me estranhamente. Tinha os olhos em sobressalto, a boca desvairada.

"— Laura! exclamei, sacudindo-a nos meus braços.

"Ela conservou-se imóvel.

Laura! minha Laura! não me atende? é a tua Ambrosina que te fala! Ouve! escuta, meu amor, minha vida!

"E cobria-lhe o trêmulo corpo de aflitivos beijos.

"Laura, porém, continuava estática e de olhos fitos nos meus. Afinal levantou-se sobre os joelhos, volveu a cabeça vagarosamente de um para outro lado, e depois, soerguendo o seu débil braço de virgem, a apontar à toa na inspiração do delírio que a arrebatava para os meus remotos devaneios da puerícia, disse-me com a voz comovida e quase extinta:

"— Não ouves?..

"— O quê?!

"— O som longínquo dos tambores...

"— Minha Laura!

"— É Bonaparte que reúne os seus soldados para a guerra... Não vês além esfervilhar aceso o oceano de baionetas?... Olha! vão bater-se! Agitam-se por toda a parte as águias vitoriosas! multidão saúda-o grande corso! Ele agora passa em revista as tropas, montado no seu cavalo branco... Fervem gritos de entusiasmo, clarins ressoam, atroa os ares o rufo dos tambores! Oficiais, refulgentes de ouro, galopam sobre os rastros do meu Imperador. Como vai belo! Da palidez da sua fronte e da sombra de seus olhos transparecem fulgurações divinas. O seu sorriso É um clarão de glória... Ei-los que partem! Já mal se avista o fuzilar das armas e mal se ouvem trovejar os tambores. É a tempestade que se afasta para rebentar além. Rompeu o fogo! Estão em plena batalha! A pólvora os embebeda numa nuvem de fumo. Ninguém mais se entende! Chocam-se os esquadrões, retinem os ferros, ronca a metralha! Avante! Avante!

"E Laura, de pescoço estendido, a boca aberta, o olhar disparado em flecha, deixou-se cair sobre as mãos, numa atitude de esfinge, e murmurou, apenas percetivelmente:

— Viva Napoleão

"E, num estranho chorar de morta, começaram-lhe as lágrimas a escorrer dos olhos pelas faces emurchecidas, sem um soluço, nem um gemido.

"— Laura chamei, tomando-a nos meus braços.

"Ela deixou pender molemente a cabeça sobre meu ombro, estirou os membros, e um extremo suspiro lhe fugiu do peito.

"Já não vivia.

"Apoderei-me dela então, louca, sem consciência de mim (Ainda era tão formosa!) e colei meu lábios aos seus amortecidos, e enlacei-a toda fria contra o meu colo ardente, bebendo o derradeiro calor daquele idolatrado corpo já sem vida.

"E foi a última vez que amei... para sempre!"

— Vês tu? interrogou Ambrosina, entre sorrindo e triste, quando Gustavo fechou o livro; para sempre!...

Ele demorou-se um instante a contemplar, muito abstrato, a capa do manuscrito; depois, como se despertasse, o restituiu à dona, e foi buscar o chapéu e a bengala.

— Adeus... disse.

— Para onde te atiras? indagou ela.

— Não sei...

— E quando voltas?

— Nunca mais...

— Hein? Nunca mais?!

— Sim. Adeus.

Houve um silêncio, durante o qual o desgraçado em vão esperou que a amante lhe cortasse a retirada com uma carga de carícias; Ambrosina não se moveu do divã em que estava, e murmurou afinal, de olhos meio cerrados:

— Pois adeus...

Gustavo despejou-se para a rua, levando a morte no coração. Dizia-lhe no íntimo um sinistro pressentimento que desta vez não iria a caprichosa, como das outras, desencová-lo donde se escondesse ele, para o reconduzir, escoltado de beijos, ao seu delicioso presídio.

— Está tudo acabado! Tudo acabado! monologava o infeliz, atravessando a praça de D. Pedro I.

E era ela quem, de olhos secos e boca vazia, lhe fechava a porta da alcova; e era ele quem agora estalava de ansiedade por lhe cair de novo aos pés, rogando-lhe que lhe deixasse continuar a ser martirizado e aviltado!

Ah! não se pode avaliar dessas primeiras horas de abandono, sem se ter sido um dia desprezado de súbito pela mulher amada; são séculos de uma agonia constante e mortífera, que nos converte a existência na mais pesada das grilhetas, e nos reduz o coração a uma carnaça babujada e dilacerada pela matilha dos ciúmes e das saudades. Todo o nosso organismo se transforma então num laboratório de fel bilioso, onde o espírito vai buscar a tinta negra e amarga com que veste os seus gemidos e os seus lutuosos pensamentos; agre período de desfibração do nosso pobre ser, durante o qual perdemos todas as forças de resistência para as lutas da vida moral e física.

Só dois dias depois dessa inquisitorial tortura, em que de todo ele apenas se conservou inabalável o próprio mal que o devorava, foi que Gustavo descobriu por fim a verdadeira razão daquele insólito desabrimento de Ambrosina, e da proterva franqueza com que lhe patenteara as secretas podridões da sua libertinagem; é que a vil tinha já de olho, em virtual preparação, quem o devia suceder no amor ex-ofício, um guarda-marinha de dezoito anos, moreno e meigo, tímido como as primeiras violetas de junho, e lindo como o primeiro amor dos adolescentes.

Gustavo os vira juntos uma vez, por acaso, ao fundo de um camarote no Politeama, tão felizes e tão invejados, que teve de fugir dali para não cometer algum crime. Depois começou a encontrá-los por toda a parte, sempre inseparáveis e confidenciais; encontrou-os nas corridas do Jockey-Club, no jardim do hotel Dori, nos gabinetes particulares do Paris, nos bailes do Rocambole e na caixa do Alcazar.

E sua alma pôs-se mais negra e infecta do que a lama dos esgotos.

Deu então para beber, e, uma vez ébrio, ia provocar Ambrosina à casa desta, lançando-lhe da rua todos os vitupérios de que era capaz o seu desespero; mas depois, às horas mortas da noite, quando, por um fenômeno do vício, mais forte lhe roncava por dentro o desejo dela, voltava o miserável, como um cão enxotado e fiel, a uivar à porta da prostituta as angústias daquele amor que lhe punha o coração em lepra viva; e chorava, e suplicava, com humildes lágrimas de mendigo faminto, a esmola dos sobejos do outro.

Ambrosina, sem lhe esconder ao menos os risos da festa ao sangue novo com que se banqueteava a sua gulosa carne, mandava corre-lo pelos criados; e, de uma feita, às três da madrugada, o fez levar preso por um soldado de polícia.

Gustavo foi de novo posto em liberdade no dia seguinte às nove horas da noite, e ao sair da enxovia levava no coração uma idéia sinistra e decisiva.

Consultou as algibeiras. Tinha de seu apenas quatrocentos réis.

— É quanto chega! disse ele.

E caminhou resolutamente para o centro da cidade.