A Condessa Vésper/XLVI

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XLVI: Apogeu e Ocaso


D. Felipe pôs-lhe casa em Botafogo, mandou, por inspiração própria e segundo desenho seu, aparelhar o brasão de armas da Condessa Vésper — uma grande estrela de prata em campo azul-celeste, cortado em diagonal por duas ordens de lágrimas vermelhas; em cima a coroa condal, e por baixo do escudo um ramo de camélias brancas e deu-lhe lacaios de libré agaloada, tomando do brasão as duas cores carmim e prata; e deu-lhe jóias, e deu-lhe rendas tão preciosas que valiam ainda mais que as jóias, e vinhos tais, que valiam mais que as rendas.

Vésper tocara ao seu zênite, à fúlgida culminância que precede ao fatal declínio.

Pouco, muito pouco tempo durou o plenivênio de sua glória, apenas um ano, mas nesse fugaz instante gozou ela todas as delícias das voluntariedades; foi por um momento de sua vida o centro planetário, em torno do qual todos os prazeres livres e todos os vícios caros do Rio de Janeiro bailaram ébrios de gozo. Os principescos salões de sua casa converteram-se, não só no quartel general de todas as prodigalidades elegantes, de todas as gentis libertinagens de um outro sexo, mas ainda no alegre ponto de reunião de muito dignitário de gravata lavada e de homens de real merecimento libertário, artístico e científico. Nas suas esplêndidas noitadas, de ceia permanente, em que o champanha corria a jorros e a orquestra só emudecia ao clarear da aurora; em que as bancas de lansquenet, de bacará e de trente e quarente, se sucediam, deslocando centenas de contos de reis, viram-se, ao lado das vulneráveis divas de colo nu, altas patentes de mar e terra, poderosos conselheiros da Corte, velhos senadores cobertos de condecorações; formidáveis banqueiros, cujos sorrisos de lábios secos valiam ouro, capitalistas donos da Praça, e titulares que dariam para uma coleção completa, desde o bisonho comendador de grau mínimo na Maçonaria, até o rebarbativo Conde, grau 33, com chácara em arrabalde e o nome imposto pela Câmara Municipal à rua em que ele habitava.

E ela, ao lado do seu príncipe, cercada de admirações de ricos e de protegidos pobres, sentia-se plenamente feliz, gozava essa felicidade, tão ambicionada e tão rara, que só experimentam os privilegiados da fortuna, os eleitos da sorte; a felicidade de chegar ao fim proposto, de cumprir o seu destino na terra, de tocar com as mãos e com os lábios o ideal sonhado durante a vida.

Nesse ano de plenitude, Ambrosina chegou a ser uma irresistível potência, cujo valimento se estendia escandalosamente até aos degraus do Trono. Quantas vezes não foi ela, às horas escusadas do pôr do dia, visitada e adulada por estranhos de boa cotação na sociedade, que lhe iam solicitar a graça de uma recomendação para os magnatas do poder? Quantas vezes não recebeu, com frios gestos de rainha, a clandestina visita de alguma pobre senhora, que entre risonhas e envergonhadas lágrimas, lhe suplicava uma palavra de interesse pela promoção do marido ou pela nomeação do filho? Quantos casamentos de dinheiro, e quantos casamentos de amor, e quantos adultérios, e quantas reconciliações conjugais, não dependeram dela? Quantos destinos não lhe foram parar às felinas mãos, para destas receber a nova direção que lhes quisesse imprimir a soberana fantasia da loureira?

De tão senhora da fortuna, e de tão satisfeita consigo mesma, chegou Ambrosina a revelar belas alterações no temperamento e no gênio. Era difícil surpreender-lhe então um gesto de mau humor ou de má vontade; dera ao contrário para mostrar-se indulgente e branda com os inferiores, compassiva e humanitária para com os humildes e fracos, cheia de um espetaculoso interesse pelas vítimas de qualquer notável desastre. Acudiam-lhe agora, àqueles mesmos lábios a cujo sopro vidas de vinte anos se apagaram, doces sorrisos de meiga afabilidade para os pálidos necessitados, que de longe se arrastavam até à fímbria de seus vestidos em súplica de piedosos. Quem sabe lá o que não sairia ainda de semelhante demônio, se aquele plenário ano se prolongasse indeterminadamente!... Mas, um dia fatídico para ela! o seu áulico amante lhe divisou por entre os ondulantes e fartos cabelos da nuca, os primeiros fios brancos, e lhe pressentiu através dos beijos as primeiras rugas da velhice.

Dois meses depois, D. Felipe desaparecia do Rio de Janeiro, sem se despedir da sua companheira de vícios, e ainda por cima lhe alçando mão de algumas das melhores jóias que ele próprio lhe havia dado.

E a roda da fortuna começou a desandar vertiginosamente para a Condessa Vésper.

Tão lenta e folgada fora a ascensão, quão rápida e pungente era agora a descida. O atrevido fausto em que a deixara instalada o fugitivo príncipe, os dispendiosos hábitos que lhe ensinara, e o exigente meio que lhe dera, mais lhe agravavam a situação e lhe precipitavam o fatal soçobro. Pouco depois da deserção de D. Felipe, já o largo crédito que se havia aberto em torno dela, se fechava com um golpe cicatrizado.

Ambrosina, viu aflita desmoronar-se debaixo de seus pés, como por alçapões de teatro, todo o rebrilhante e cenográfico pedestal em que num momento se julgou soberana; e compreendeu, ai dela! que isso acontecia, não porque só um príncipe D. Felipe a pudesse manter naquelas alturas, mas porque a sua época passara, porque outras mulheres, mais moças e mais novas, lhe empolgavam, entre vitoriosas gargalhadas, o chocalheiro e leve cetro da libertinagem fluminense.

Vésper descambava e amortecia à luz de novas estrelas.

O próprio Alcazar, onde campeara ela no Rio de Janeiro os seus decisivos triunfos de mulher formosa e pública, caía também de moda, e só era já freqüentado por uma velhada quieta e conservadora, metodicamente pagodista. E pouco sobreviveu ele ao desmaio da sua última estréia de primeira grandeza depois de agonizar por alguns meses, repetindo velhas e estafadas canções dos seus tempos felizes, entregou a alma ao diabo, quase juntamente com o esperto Arnaud, cuja vida parecia identificada com a do endemoninhado teatrinho.

De repente, viu-se Ambrosina cercada de uma negra nuvem de meirinhos e credores de dentes refilados, que lhe fariscavam rendas e alfaias, jóias e baixelas, móveis, carros e cavalos, sem que tudo isso lhe desse não obstante para pagar em juízo a metade do que devia a executada.

Dentre os meirinhos, um, que se mostrava diretamente interessado por ela, procurou falar-lhe em particular.

Ambrosina agarrou-se a ele, como o náufrago à primeira mão que se lhe estende; mas, ao encará-lo de perto, e ao reconhecê-lo afinal, teve um instintivo retraimento de surpresa e de repugnância.