A Condessa Vésper/XVI

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XVI: A formosa Ambrosina


A filha do comendador estava mulher, e mulher bela.

Aquela criança, franzina e linfática, se transformara em uma mulher encantadora e forte.

A não ser os olhos, que foram sempre formosos, toda ela se havia metamorfoseado. O pescoço, os braços e os quadris enriqueceram-se de graciosas curvas, o cabelo fez-se volumoso, a tez pálida e fresca, os ombros um primor de estatuária, a boca um ninho de sorrisos cor-de-rosa e cor de pérola.

Toda ela respirava, porém, uma híbrida fascinação de anjo e de demônio. Os seus lindos olhos verde-escuros, tanto poderiam servir para ensinar o caminho do céu, como o caminho do inferno.

Havia alguma cousa do pecado de Eva paradisíaca na elasticidade ofídia e ondulosa do seu corpo, na mancenilha daqueles cabelos crespos, no viço provocador daqueles lábios carnudos e vermelhos.

A sua voz era como um hino de amor e de revolta, feito de ironia, de súplica, de desdém e de ternura.

Gabriel só viu e percebeu de tudo isso o lado risonho e claro, quando se achou pela primeira vez em presença de Ambrosina.

Foi em um baile, na casa de um dos seus colegas de academia, que também voltava formado de S. Paulo.

O filho de Violante dançou com a formosa moça; muito, e ele, já cativo, rudemente lhe declarou que a achava encantadora e que seria o mais feliz dos mortais, se pudesse amá-la com a esperança de ser correspondido.

Ela riu-se, e aconselhou-o a que desistisse de semelhante loucura.

Na Corte havia muita menina bonita. Gabriel, chegando naquele instante, nada ainda tinha visto; não se deixasse por conseguinte levar pelas primeiras impressões...

— São sempre as melhores... respondeu ele sorrindo.

— Qual o quê! replicou Ambrosina. O senhor arrepender-se-ia. Só eu, tenho mais de uma dúzia de amigas que, se fosse rapaz, amá-las-ia de joelhos... São lindas

— Mas lembre-se de que são mais de uma dúzia...

— Ora! se eu fosse rapaz, amava-as a todas. Não há como ser homem!... O homem pode viver como quiser, fazer o que bem entender, amar a todas as mulheres ao seu alcance; enganá-las, ridicularizá-las, e... nem por isso deixará de ser um rapaz comme il faut, desde que se vista à moda, tenha uma cara suportável, algum emprego ou algum capital, e, um bocadinho de tino... para não dizer asneiras seguidas. Ao passo que a pobre mulher coitadal se quiser amar, há de contentar-se com um indivíduo, que ela só conhecerá depois de ter ligado para sempre a seu destino ao dele; quando aliás um marido é como charuto, que só se pode saber se é bom depois de aceso. As aparências nada valem!...

— V. Exa. pinta o charuto tão ao vivo que faria acreditar que já fumou!...

— Figuradamente, como lhe acabo de falar, não, porque sou solteira, e não tenho pressa... mas se o senhor se refere à verdadeira acepção da palavra, responder-lhe-ei que sim; já fumei. Pura extravagância

— Não lhe fez mal?

— Muito! Tive vertigens, ânsias; passei mal uma noite inteira... Jurei não cair noutra!

— Ah!

— E creio justamente que com o casamento me aconteça o mesmo... Não com uma noite, mas com a vida inteira!...

— Então não tenciona casar?...

— Tenciono, pois não! Nós, as mulheres, somos muito desgraçadas a este respeito: temos às vez es horror ao casamento, mas que fazer!... Não o podemos dispensar. Oh! o senhor bem sabe que a mulher só se emancipa quando se escraviza ao marido... Desgraçadinha daquela que não tiver um guarda-costas que a represente na sociedade e que com ela partilhe um pouco dos perigos que a esperam.

— V. Exa. faz-me pasmar com a sua experiência...

— Não sei porquê! Eu não tenho mais experiência que qualquer outra senhorita nas minhas condições; apenas sou menos hipócrita, e não quero impingir minha mão ao primeiro que apareça...

— Mas, uma vez resolvida a casar, qual será o noivo que lhe convém? quais serão nele as qualidades que a poderão conquistar?

— Sei cá! mas, se tivesse rigorosamente de escolher marido, escolheria um homem que me parecesse bem vulgar.

— O que, minha senhora? V. Exa. não preza a distinção?...

— Não, decerto. A distinção será muito boa para o homem que a possua, nunca será para a mulher que com ele se case. A distinção! Mas não vê o senhor que, quanto maior for a superioridade do marido, tanto maior será também a inferioridade da mulher!... Com um homem vulgar, sucede precisamente o contrário: ela terá o primeiro lugar, e não precisará pôr-se nas pontinhas dos pés para falar com ele, o que é incômodo.

— Mas terá de abaixar-se...

— Qual! ele que trepe! é sempre o mais baixo que procura os meios de subir... Digo-lhe e repito: A ter de casar, prefiro um homem vulgar, trabalhador e honesto.

— Creio que estou no caso..

— Não sei se totalmente. Trabalhador e honesto, só mais tarde o saberemos, porque o senhor entra agora na vida; quanto ao vulgar, isto está! — a sua observação acaba de prová-lo...

— Sou tão vulgar quanto V. Exa. é severa...

— Sincera, é que deve dizer...

— Contudo, não me pareceu sincera no que disse a respeito do casamento..

— Pois não! O homem, meu caro senhor, apresenta-se-nos sempre por um prisma falso; é a capa do charuto de que há pouco lhe falei... Por fora, muito liso, muito cheiroso e com um ar magnífico. Quem dirá pelas aparências que tão sedutor charuto não é bom?... Entretanto, se o senhor o acender e insistir em fumá-lo, far-lhe-á ele uma ferida na língua. Desdobre-o! há de achar dentro, em vez de tabaco, papelão! Imagine que eu encontrasse na sociedade um homem de bom-tom, um elegante com a resposta pronta, a casaca irrepreensível e a luva fresca, e ligasse o meu destino ao dele; mas que, na ocasião íntima de desdobrar esse belo espírito lhe descobrisse o tal miolo de papelão...

— Oh!

— É justamente o que eu diria: "Oh!"

E Ambrosina comprimiu os lábios com a graça de um beijo.

— O que, todavia, não evitava, continuou ela rindo, que tivesse eu aquele trambolho amarrado à minha vida como uma grilheta de condenado. Escolhendo, ao contrário, um homem sem qualidades brilhantes, não teria eu de sofrer decepção de nenhuma espécie, e é possível até que chegasse, depois do casamento, a descobrir em meu marido algum dote, verdadeiro e sólido, para o qual a sociedade não se desse ao trabalho de reparar...

Gabriel soltou uma risada, e Ambrosina prosseguiu:

— Creio, meu caro doutor, que a sociedade é para os homens medíocres o que o palco é para as atrizes de segunda ordem — simplesmente um meio de lhes realçar as graças e emprestar encanto às que o não possuem. Toda a mulher feia, que souber preparar-se bem, será bela no palco; todo o homem vulgar, que souber repetir de orelha certos conceitos alheios e guardar silêncio quando for preciso, será nas salas um homem elegante e do bom-tom. Para aquelas, é preciso pintar os olhos, fazer um sinal na face, dar tinta aos lábios, arranjar os cabelos; para estes, é necessário um título qualquer, algum dinheiro, saber vestir-se à moda, conhecer certos prazeres, falar de óperas e cantores, mulheres e cavalos. E aí tem o senhor como se ama uma mulher bonita ou um homem de salão; ambos com os seus competentes diplomas — uma das platéias, e outro das salas. Entretanto, se o senhor desejar uma mulher verdadeiramente bonita, bonita sem artifícios, sem alvaiade, sem carmim, sem cabeleira, não a irá buscar certamente ao teatro; do mesmo modo, se o senhor quiser um homem que sirva de marido, não o deve procurar nos bailes, porque ele já não existe. Tanto aquele que trouxer para o seu lar uma étoile das rampas do teatro, como aquela que levar para casa um leão caçado ao som de valsas, sofrerá tremenda decepção.

— V. Exa. então não aceitaria para esposo um herói da moda?...

— Está claro que não. Pois eu queria lá marido para os outros?... Queria lá um marido que passasse algumas horas no lar apenas por obrigação doméstica, e viesse impressionado com a toilette da viscondessa tal, como o perfume da baronesa tal e tal, e com os amores escandalosos de todas as mulheres? Para meu marido desejaria eu um homem tão bom, que me não desse ocasião de desejar outro melhor; mas não o procuro, nem faço o menor empenho em o encontrar.

E levantando-se, observou:

— Olhe! está terminada a quadrilha e o meu par desta valsa não tarda a vir buscar-me.

— Mas V. Exa. não respondeu à minha principal pergunta...

— Se o virei a amar?... é muito natural que não.

E separaram-se.

Gabriel só falou depois com Ambrosina em casa do pai dela, na situação em que o deixamos no capítulo anterior.

Vejamos agora o que disseram os dois neste novo encontro:

— Mas, por que faz o Sr. essa cara tão esquisita, ao saber de quem sou filha?. . . perguntou a linda moça, oferecendo uma cadeira a Gabriel.

— O comendador demora-se! averiguou este, assentando-se.

— Depende de nós. Meu pai recolhe-se sempre depois do jantar e não aparece antes das nove horas da noite, a não ser que alguém o procure. Podemos estar à vontade. Nem sabem até que o senhor cá está. Conversemos sem constrangimento...

— Nesse caso, vou falar-lhe com toda a franqueza. Diga-me uma coisa: A senhora, quero dizer, V. Exa....

— Não! trate-me mesmo por Senhora.

— Obrigado. A senhora anda a par dos negócios de seu pai?...

— Valha-me Deus! eu sei cá dos negócios de meu pai! Que posso saber eu disso?.

— Não sabe então que ultimamente ele comprou as dívidas.

— As dívidas do coronel Pinto Leite? Oh! mas isso foi um escândalo; nem há no Rio quem o não saiba. Aqui em casa não se fala noutra cousa! Porém, a que propósito vem tudo isso? o que tem o senhor com esse negócio?...

— Muito mais do que se persuade: e, uma vez que o fato já anda pela imprensa, posso dizer-lhe com franqueza que sou eu a tal pessoa que pagou ao senhor seu pai as dívidas do coronel.

— O senhor?!... interrogou Ambrosina com a mais completa surpresa. E atravessou Gabriel com um olhar penetrante que nem uma sonda. "Ele!" dizia ela consigo. E procurava descobrir-lhe alguma cousa, algum indício, por onde acreditasse nos seus consideráveis bens de fortuna.

— Sim, minha senhora; não desejava entrar nestas explicações, mas...

Então, o senhor é muito rico?...

— Um pouco, disse Gabriel, abaixando os olhos. Quanto possui?...

— Diz Gaspar que uns mil contos de réis...

— Mil contos!... repetiu Ambrosina, e transformou logo a fisionomia com um sorriso, que ela não tinha até aí dispensado a Gabriel.

Este não deu por ele, e balbuciou:

— Sou rico por acaso, sem a menor glória... herdei o que possuo de minha mãe, que já por sua vez herdara de meu pai...

— Mas, nada disso explica o que há de comum entre o senhor e o coronel, e o que o levou a pagar as dívidas de um velho idiota...

— Perdão, minha senhora, tomo a liberdade de preveni-la de que em minha presença não consinto ofenderem o coronel. Ele é pai de meu padrasto; é por bem dizer, meu avô; sem contar que lhe devo mil obrigações herdadas de minha mãe. Foi o coronel quem a esta recolheu da miséria, e quem a educou...

— O senhor, por conseguinte, pagou uma dívida de gratidão?...

Não paguei coisa alguma, minha senhora; os serviços que devo ao coronel não se podem pagar, são inestimáveis...

— O Médico Misterioso é então viúvo de sua mãe...

— Sim minha senhora; e, nem só é meu padrasto, como também é o meu único amigo, o meu confidente, o meu guia, o meu mestre!

— Que entusiasmo! E ele sabe do nosso primeiro encontro?...

— Perfeitamente. Contei-lhe tudo na mesma noite, mas sem declarar que se tratava da filha do comendador Moscoso, porque ignorava semelhante circunstância...

— E o que disse ele?

— Ligou pouca importância às minhas palavras, e afiançou-me que tudo passaria dentro de uma semana.

—- E passou?

— Não. Cresceu!

— Mesmo depois de saber quem é meu pai?...

— Sim, minha senhora; mesmo depois disso...

— Entretanto não seria mau esperar até ao fim da semana...

— Para quê? para convencer-me de que sou o mais desgraçado dos homens?

— Ou a mais impaciente das crianças....

— Vê! V. Exa. zomba de mim, enquanto eu...

— Vai dizer que sofre, e é exato; mas não por minha causa, sim pelos seus vinte anos, que estão purgando o idealismo absorvido durante todo o seu período acadêmico de S. Paulo.

— Pensará então que eu...

— Não me ama?... Valha-me Deus! não disse tal! Sei, ao contrário, que o senhor me adora; me adora com fogo, com entusiasmo, com paixão, com poesia! e é justamente por isso, é porque o seu amor é forte demais, que desconfio dele. O senhor não possui em si o combustível necessário para alimentar semelhante chama durante uma existência inteira... O seu coração não é nenhuma mina inesgotável de carvão de pedra!

— Crimina-se então por amá-la demais?...

— Certamente! O homem, qualquer que ele seja só pode dar de si uma certa e determinada dose de amor; nada mais pode dar por melhor que o deseje, porque mais não tem. A grande ciência da felicidade conjugal consiste em fazer com que essa dose chegue para a vida inteira. Ora, o senhor quer dar-me toda ela de uma só vez, e eu não a quero receber por essa forma. O que não quer dizer que não aceite; aceito-o, mas em pequenas prestações. Recebendo tudo de uma vez temo fazer como os perdulários — esbanjar a fortuna e ter depois de mendigar. Para que havemos de consumir em poucos dias aquilo que nos chega para sempre?... Além de que, meu caro, o abuso traz sempre consigo a saciedade, e o tédio, o enjôo; e eu, no fim de contas...

— Aborrecia-se de mim...

— Não digo isso, mas aborrecia-me de ser amada. E esta é a pior desgraça que pode suceder a uma mulher.

— Mas então só me resta o recurso de fingir, indiferença, e amá-la em segredo, amá-la com todo o ardor da minha paixão!

— Isso ainda seria pior: além da prodigalidade, haveria o completo desperdício. Seria como se alguém para não passar por pródigo, vivesse na miséria, mas fosse às escondidas atirando fora a sua riqueza. Não! não! nesse caso seria melhor sorvê-la de um trago, e dar depois um tiro nós ouvidos.

— Por que se faz tão inocente e má?... Não vê que não pode haver termo de comparação entre o amor e o dinheiro? entre o coração e uma bolsa?... O dinheiro mede-se, conta-se, e o amor é indivisível. Como se pode conceber um registro para o coração?... O dinheiro tira-se do bolso quando se precisa e quanto se deseja; e o amor não! o amor sai por si, derrama-se, corre, como o sangue de uma ferida!

— Ora! também não se pode parar o curso do tempo, nem lhe transpor as leis, e, no entanto, há quem o esperdice, e há quem o aproveite admiravelmente...

— Não! o tempo não existe; a idéia dele é toda relativa; ao passo que o amor não tem relações, nem admite leis. É um fato real; existe! existe, que o sinto palpitar aqui dentro, não como um miserável relógio que nos mede vida gota a gota, mas louca e desnorteadamente, como neste instante! Eu te amo Ambrosina!

E Gabriel segurou-lhe as mãos com ansiedade:

— Não me repilas! exclamou; não esmague com essa indiferença e frio! Despreza-me, se quiseres, porém não me apunhales desta forma! Oh! mas por que deixaste, meu amor, que eu te tomasse as mãos? por que consentiste que eu me aproximasse tanto de ti?...

— Porque ainda não voltei a mim do seu atrevimento e da sua grosseria!

— E Ambrosina ergueu-se, indignada.

— Têm toda a razão... balbuciou Gabriel, abaixando a cabeça. Perdoa-me!

— Creio que o senhor disse que procurava por meu pai... Tenha a bondade de esperá-lo.

— Ouça-me um instante, por piedade!.

— Que deseja ainda?...

— Não diga a seu pai que estou cá. Não me sinto em estado de falar com ele.... Diga-lhe antes que vim para autorizá-lo a liquidar o negócio como entender. O que ele fizer será bem feito!

— Tenha a bondade de ver em que fica!

— Ambrosina! Não seja cruel!... dê-me uma palavra, uma só! uma esperança de ser amado! Diga o que quer que eu faça!... eu tudo cumprirei, na esperança de ser seu esposo!...

"Mil contos!" reconsiderou a filha do comendador, e sentiu um estremecimento no coração; conteve-se, porém com tal arte, que a sua fisionomia nada transpirou.

E, voltando-se para Gabriel, inquiriu com um ar firme:

— O senhor pode freqüentar esta casa?

— Posso.

— E, se encontrar oposição em seus parentes, o que fará?

— Não sei! só sei que a amo loucamente!

— Isso não é resposta — Quero saber se o senhor tem a necessária coragem para vencer todos os escrúpulos e freqüentar os bailes de meu pai.

— E ele consentirá?

— Se eu quiser, há de consentir.

— Pois estou por tudo!

— Venha então quinta-feira. Faço vinte e três anos. O convite lhe chegará às mãos...

— E fico perdoado?...

— Não sei!

— E Ambrosina afastou-se de Gabriel, mas ficou perto do reposteiro, que apenas arredou com uma das mãos.

— Ele correu até lá e estendeu-lhe os braços.

— Adeus... disse.

— Adeus, respondeu a dissimulada.

— Nem uma palavra de esperança?...

— Eu te amo, segredou ela.

E fugiu para dentro.

Gabriel quedou-se por algum tempo estático, a olhar abstratamente para o reposteiro que se fechara sobre a bela moça. Depois, rebentou-lhe no coração uma grande alegria, e ele saiu a chorar de contentamento.

— Ama-me! exclamava, desgalgando a escada. Ama-me! Como sou feliz!