A Condessa Vésper/XXIV

A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XXIV: A alma do comendador


Médico Misterioso, ao chegar defronte de casa, apeou-se da boléia, abriu a porta, chamou o criado e recomendou-lhe que recolhesse o carro à cocheira.

Eram dez horas da noite, e o tempo, até aí de urna transparência admirável, começava a fazer-se cor de chumbo.

Gabriel, atirado nas almofadas do carro, dormia profundamente. O padrasto tomou-o nos ombros, e carregou com ele para o quarto.

O rapaz não dava acordo de si. Gaspar estendeu-o na cama, e ficou algum tempo a olhá-lo, com uma expressão de profunda tristeza. Depois, sacudiu a cabeça resignadamente, e deu-lhe um beijo na fronte.

— Pobre criança!... dizia consigo o médico; para que haverias tu de encontrar, logo na entrada do caminho, aquela mulher perversa e egoísta?... Antes fosses pobre e desprotegido!... estarias trabalhando para ganhar a vida, e o suor que te corresse do rosto não seria este suor úmido e orgíaco, que agora te enregela. Antes fosses bem pobre! Compreenderias talvez a necessidade de cultivar a tua inteligência, que esperdiças, como esperdiças o teu dinheiro... Amaldiçoada fortuna, que a ambos nos desgraçou!

E Gaspar, enxugando as lágrimas, principiou a mudar a roupa do enteado, com a solicitude de uma mãe extremosa. Descalçou-o, e procurou chamar-lhe o sangue a sola dos pés; arrumou-lhe na testa um lenço borrifado com algumas gotas de amoníaco, e, depois de agasalhá-lo bem, fechou a porta do quarto, passou ao escritório e assentou-se à sua mesa de trabalho com um livro defronte de si.

Gabriel, ao abrir os olhos no dia seguinte, o primeiro pensamento que formulou foi todo para Ambrosina. Os acontecimentos da véspera apareciam-lhe agora no espírito como reminiscências de fatos revistos através das camadas nebulosas do tempo.

Muitos lhe tinham fugido inteiramente da memória, de envolta com os vapores da embriaguez; outros permaneciam no momento de acordarmos. A sinistra figura de Leonardo desenhava-se de um modo fantástico; aquele espectro hirsuto e desvairado, lançando em torno de si olhares de fera e empunhando uma faca, parecia um produto de pesadelo. E Gabriel, com a imaginação, via Ambrosina crivada de feridas, a debater-se e a pedir socorro nas garras do louco, que a arrastava pelos cabelos e começava a devorar-lhe o corpo a dentadas, como havia tentado na horrível noite do casamento.

Gabriel, sacudido por essas idéias, sentia as fontes estalarem de febre.

Mas, entre todas as duvidosas reminiscências da véspera, se destacava um fato, gravado a fogo, era a cena do caramanchão. Esse não tinha sombras esfumadas, nem contornos duvidosos; estava ali, nu e cru, em toda a brutal nitidez da realidade.

Não havia para onde fugir! Era uma afronta verdadeira e positiva, que reclamava dos brios de Gabriel decisão pronta e enérgica.

Com que tristeza, com que dor, com que sacrifício d’alma, não teve o desgraçado de chegar a esta conclusão inevitável: — Abandonar por uma vez Ambrosina?!... empurrar com o pé tudo o que ele até aí mais amara, mais loucamente estremecera! fugir daquilo que lhe enchera os sonhos de esperanças, destruir o castelo das suas ilusões, amaldiçoar o seu ídolo e calcar o próprio coração debaixo dos pés, como quem esmaga um imundo verme! Mas assim era preciso! Era inevitável! O que poderia ele esperar daquela mulher, no caso que lhe faltasse coragem para repeli-la? Não lhe teria já porventura consagrado toda a sua existência? não havia feito, por amor de semelhante ingrata, todos os sacrifícios de sentimento e de caráter, que se podem exigir de um homem? E qual fora a paga de tudo isso? — Uma vileza, uma infâmia, a mais torpe das traições — a traição do amor!

Oh! Era indispensável fugir-lhe para sempre! nunca mais a ver! nunca mais a amar!

E, com esta resolução, todo o seu ser se abalava num calafrio de morte.

Mas que diabólica fascinação exerce sobre mim aquela mulher, considerava o mísero; para que eu, mesmo no auge de meu desespero e do meu ódio, sinta por ela todo o arrebatamento do amor e toda a humilhante agonia do desejo? Que sobrenatural poder me obriga a querê-la sempre, mesmo com a consciência dolorosa da sua infâmia e com a convicção degradante da minha covardia? Inferno! Conhecer o mal, sem ânimo para fugir dele!... mas não! Custe o que custar, doa o que doer, hei de esquecê-la! hei de desprezá-la!

Mas dentro, em revolta, lhe bradava o sangue:

— Atende! atende, desgraçado! não te lembras que, para deixares por uma vez Ambrosina, terás de abdicar de todos os deslumbramentos do seu amor? Deixá-la, quer dizer nunca mais sentir o doce contacto daqueles braços esculturais; deixá-la, é perder o gosto saboroso daqueles beijos quentes e vermelhos; é nunca mais adormecer ao calor daquela divina carne e ao aroma daquele cabelo negro! Queres deixá-la, miserável? deixa-a, mas engatilha ao mesmo tempo o teu revólver, porque não resistirás ao desespero de perdê-la! E, enquanto estiveres lá debaixo da terra, no pavoroso degredo do teu aniquilamento, ela, cá fora, feliz e radiante, será cortejada por uma aluvião desenfreada de apaixonados!

Gabriel estremeceu, sacudiu a cabeça, procurando enxotar os pensamentos, como quem enxota um bando de corvos, e saltou da cama.

Defronte dele ergueu-se o padrasto.

— Então?... disse este. Estás disposto a partir?

— Quando quiseres... respondeu Gabriel, abaixando os olhos.

— Iremos pelo primeiro paquete que sair para a Europa.

E Gaspar afastou-se, para tratar da viagem.

Entretanto, na véspera desse dia, enquanto aqueles dois fugiam pela noite a toda a disparada da casa de Ambrosina, esta, depois de alguns passos pela rua de Laranjeiras, encostara-se prostrada às grades de uma chácara.

Não sentia coragem para caminhar, tal era o seu estado. Tinha a cabeça oprimida por um estranho peso que a obrigava a fechar de vez em quando os olhos. As pernas negavam-se a sustentá-la e os seus pés sangravam; todo o corpo lhe pedia repouso, mas não se animava ela a sentar-se no batente de alguma porta, receosa de ceder ao cansaço e adormecer na rua. Olhava então aflitivamente para a estrada, e a desesperança de qualquer recurso, que tirasse daquela situação, arrancava-lhe lágrimas de desespero.

Quando passava alguém, a infeliz escondia o rosto, envergonhada.

Um trabalhador, que vinha a cantalorar com uma voz grossa de vinho, abeirou-se dela e quis abordá-la.

— Olha cá! disse, limpando as barbas nas costas da mão.

— Não me toque! bradou ela.

E ferrou no homem tão decisivo olhar, que ele abaixou a cabeça, com um gesto de cão batido, e arredou-se resmungando:

— Desculpe! supunha que era uma barca...

Ambrosina rilhou os dentes, de raiva, e desatou a soluçar.

Que mal havia ela feito para sofrer tanto!... Por que a sorte, a fatalidade, ou lá o que fosse, a perseguia daquele modo?... Bem sombria devia ser a estrela que velou o berço!...

— No fim de contas, se não sou mais honesta, dizia consigo mesmo, só ao acaso devemos criminar, porque foi ele que me tirou dos braços de meu marido para me atirar aos do meu amante... E será culpa minha não poder eu amar a nenhum homem?... Acho-os ridículos a todos eles! E haverá, com efeito, cousa mais aborrecida do que ouvir protestos de amor de Gabriel, por exemplo? quem pode gostar daquilo? Um homem deve ser um homem e deve saber gozar!

E Ambrosina sonhava-se ao lado de um libertino milionário, que a embriagava com todas as transcendências da riqueza e do prazer; sentia sede das sensações fortes do jogo e das orgias monstruosas, em que há gosto de sangue no fundo das últimas taças. Queria gozos criminosos, lascívias perseguidas por lei; sentia necessidade de ruído, de desordem, de escândalo; queria que se falasse nela, que a apontassem, que os burgueses estalassem de raiva, ao vê-la passar, petulantemente linda, satânica, cruel, no seu carro puxado a quatro! Sentia vontade que a julgassem capaz de todos os crimes! E assim mesmo haveriam de ir depor a seus pés a fortuna, a honra, o talento, porque ela era bela e possuía todos os segredos do amor sensual. Os mancebos, ao abrir da puberdade, queimariam a carne em flor nas brasas do seu sangue; os homens lançariam às chamas dos seus punchs a fortuna dos filhos e as jóias da mulher; e os velhos, trêmulos e decrépitos, cheios de condecorações e flanelas, haveriam de arrastar-se até aonde ela estivesse para lhe suplicarem, por amor de Deus e em troca de tudo o que possuíssem alguns instantes de luxúria! E ela então orgulhosa e fria sob o diadema de seus vícios, escarneceria de todos eles e de todos os preceitos estabelecidos pela moral. E, enquanto as mães chorassem, os filhos se perdessem, e os homens se assassinassem na vergonha e no opróbrio, ela, mulher sem coração, a Vênus de gelo! beberia champanha e comeria morangos em calda de rum!

E por um natural fenômeno de atavismo, Ambrosina reproduzia, com as modificações correspondentes às suas circunstâncias individuais, todos os sonhos de ambição e todos os delírios de grandeza que encheram a vida inteira de seu pai.

Era o comendador Moscoso quem estava ali a sonhar, em plena mocidade, não como ambicioso caixeiro de taverna, mas como uma vaidosa rapariga de coração mal-educado.

Ela, porém foi interrompida nos seus incipientes devaneios por um fulminante berro, que lhe gelou nas veias o sangue e lhe sumiu a luz dos olhos.

Era o louco que vinha de novo ao seu encalço.

Ambrosina soltou um grito e, perdendo os sentidos, cambaleou um momento, e desabou afinal sobre a calçada.