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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XIV


O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas é um campo de areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo. Aí estão os violentos contra Deus, contra a natureza e contra a arte. Entre os primeiros está Capaneo, que desafia a Deus. Seguindo, Dante e Virgílio chegam a um regato sangüíneo. Deste e dos outros rios do Inferno Virgílio narra a origem misteriosa.

DE amor do pátrio ninho comovido,
Essas dispersas folhas reunindo,
À sarça as dei, que tinha a voz perdido.

Ao limite, dali, fomos seguindo,
Em que parte o recinto co’ terceiro,
Onde a justiça horrível stá punindo.

Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro,
Eu digo que à charneca então chegamos,
De plantas nua em seu espaço inteiro.

Da dor a selva a cerca dos seus ramos,
Como o fosso a torneia sanguinoso:
Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.

O plaino era tão árido e arenoso,
Como o que de Catão os pés outrora
Na jornada calcaram fadigoso.

Ó vingança de Deus, quem não te adora
Nos tremendos efeitos meditando,
Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!

De almas nuas eu via infindo bando,
Por modos diferentes torturadas,
Miseráveis, mesquinhas pranteando.

Jaziam sobre o dorso umas deitadas,
Outras, dobrando os membros, se assentavam,
Muitas andavam sempre aceleradas.

Maior a turba destas se mostrava,
Menor a que, prostrada no tormento.
Maior dor nos lamentos denotava.

Largas flamas com tardo movimento
Choviam do areal em todo o espaço,
Qual neve em serra, quando é mudo o vento.

Na Índia sobre o exército, já lasso,
Fogos cair viu Alexandre[1] outrora,
No chão ardendo livres de embaraço.

Que aos pés no solo os calquem sem demora
Suas falanges avisado ordena:
Matá-los um por um fácil lhes fora.

Assim baixava, para agravo à pena,
Lume eterno que à areia se prendia,
Como à isca a fagulha mais pequena.

Cada qual sem repouso se estorcia,
A um lado e a outro os braços revolvendo
A cada chama, que do ar chovia.

“Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,
Somente exceto a legião furente,
Que em Dite a entrada estava-nos tolhendo,

“Diz quem seja a grã sombra, que não sente,
Ao parecer, o incêndio, e não domado
Pela chuva, já rápido, insolente?” —

Reconhecendo o próprio condenado
Que da minha pergunta fora objeto,
“Morto sou qual fui vivo!” clama irado.

“Que Jove canse o armeiro seu dileto,
De quem tomou fremente o agudo raio
Para em mim saciar rancor abjeto;

“Que os seus cíclopes[2] sintam já desmaio
De Mongibello[3] na oficina negra,
Aos gritos — “Bom Vulcano, acode ou caio!” —

“Como fez na peleja lá de Flegra;
Que me fulmine de ódio e sanha cheio:
No gozo da vingança em vão se alegra”. —

Virgílio então, com voz, como não creio
Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,
Bradou-lhe: “Capaneu[4], pois no teu seio

“Não mitiga a soberda a própria morte,
Sofre mor pena; igual não há castigo
Ao que a raiva te inflige desta sorte!” —

Para mim se voltou; com gesto amigo
Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram
Foi um; de Deus se declarara imigo.

“Os crimes seus no inferno se agravaram;
Já disse-lhe, as blasfêmias, os furores
Digno prêmio em seu peito lhe deparam.

“Vem agora após mim; pelos fervores
Não caminhes da areia incandescente;
Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —

Fomos andando, cada qual silente,
Até onde jorrar do bosque eu via
Rubro arroio, que lembro inda tremente.

Do Bulicame[5] qual o que saía,
Das pecadoras em serviço usado:
Tal pela adusta areia este corria.

As margens e orlas são de cada lado
Feitas de pedra e assim também seu leito:
Caminho ali notei ao passo azado.

“De quanto aqui te conhecer hei feito,
Depois que atrás deixamos essa porta,
A cujo ingresso todos têm direito,

“Não se há mostrado à tua vista absorta
Maravilha que iguale a desta veia,
Em que a flama adurente fica morta”. —

O Mestre diz e assim desejo ateia
De rogar-lhe me preste esse alimento,
Que excitado, o apetite haver anseia.

“Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento —
“Destruído país, Creta afamada.
Com seu rei foi do mal o mundo isento.

“Alça-se ali montanha outrora ornada
De fontes e verdor: chama-se Ida:
Erma está, como cousa desprezada.

“Foi ao filho pra berço preferida
De Réia[6], que abafava o seu vagido
Fazer mandando grita desmedida.

“Nas entranhas do monte um velho[7] erguido
Está: voltando à Damieta as costas,
Como a espelho, olha Roma embevecido.

“De ouro faces e fronte são compostas,
De pura prata são braços e peito,
Enéias do busto as partes bem dispostas.

“De ferro estreme tudo o mais foi feito,
O pé direito exceto, que é de argila,
Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.

“Salvo do ouro, do mais sempre destila
De lágrimas por fenda crebro fio,
Que fura a gruta e rápido desfila.

“Aos negros vales vem correndo em rio,
Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,
Desce depois neste canal esguio

“Até do inferno o fundo, aonde é fonte
Do Cocito. O que o rio acaso seja
Verás: mister não é que ora te conte”. —

— “Se desde o nosso mundo ele serpeja,
Dize, ó Mestre, a razão por que a torrente
Só neste abismo lôbrego se veja”. —

“É circular este lugar horrente,
E posto haja vencido extenso trato,
Descendo tu à esquerda, inteiramente

“Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.
Não revele o teu rosto maravilha.
Novas cousas em vendo e estranho fato”. —

Ainda eu perguntei: — “Por onde trilha
O Flegetonte e o Letes? De um te calas,
E do outro a veia é dessa origem filha”. —

Tornou: — “Muito me agrada quanto falas;
Da água rubra o fervor, porém, solvera
Uma dessas questões, que me assinalas.

“Do inferno fora o Letes ver espera:
Na linfa sua as almas vão lavar-se
Depois que a penitência o perdão gera”. —

Disse depois: “É tempo de deixar-se
A selva; os passos meus sempre acompanha,
Pela margem caminho há para andar-se.

Do fogo ali se extingue toda sanha”. —

NotasEditar

  1. Alusão a uma aventura de Alexandre Magno. [N. T.]
  2. Gigantes com um só olho no meio da testa, que fabricavam armas para Júpiter. [N. T.]
  3. O vulcão Etna, na Sicília. [N. T.]
  4. Um dos sete reis que sitiaram Tebas [N. T.]
  5. Fonte de água quente perto de Roma. [N. T.]
  6. Mulher de Saturno e mãe de Júpiter. [N. T.]
  7. Símbolo da humanidade e, segundo outros, da monarquia, que, em princípio boa e reta, vai depois degenerando. [N. T.]