Abrir menu principal
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Canto XIX


No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso. Virgílio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais a tebana Manto, da qual se origina Mântua, cidade natal de Virgílio.

NOVA pena convém dizer em versos
E dar matéria ao meu vinteno canto,
Do cântico onde punem-se os perversos.

Eu era já disposto tanto, quanto
Fora preciso para ver o fundo
Da cava, que banhava amargo pranto.

De almas vi turba, pelo val rotundo,
Que taciturna vinha e lacrimosa
Ao passo usado em procissões no mundo.

Mirei mais baixo e cada desditosa
Notei que fora o mento retorcido
Do colo ao começar: cousa espantosa!

Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
Que em frente olhar estava-lhe tolhido.

Talvez por força já de par’lisia
De alguém o corpo ao todo se torcesse;
Não vi: crê-lo difícil me seria.

Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,

O parecer humano tão mudado,
Que o pranto, que dos olhos derivava
Banhava o tergo a cada condenado.

Do rochedo eu a um ângulo chorava
Com tanta dor, que o Mestre de repente
— “Insensato és também?” — me interrogava.

“Aqui piedade é morte em toda mente:
Quando Deus condenou, quem mais malvado
Do que esse, que ternura por maus sente?

“Alça a fronte, alça, atento ao condenado,
Que ante os Tebanos se abismou na terra.
Gritavam-lhe: — Como andas apressado,

“Anfiarau[1]? Como assim foges da guerra? —
Ele tombava entanto, ao val descendo,
Onde Minos os réprobos aferra.

“Pelo futuro penetrar querendo,
Tem o dorso adiante em vez do peito,
E a recuar caminha, atrás só vendo.

“Eis Tirésias[2], o que mudara o aspeito,
Femíneas formas e feições tomara,
Sendo-lhe o que era varonil desfeito.

“Ao sexo seu tornou, quando encontrara,
Inda uma vez, travadas serpes duas
E outra vez com bordão as separara.

“Volta-lhe Arons[3] ao ventre as costas nuas:
De Luni em monte, aos agros iminentes,
Onde o Carrara ergueu moradas suas,

“Teve em gruta marmórea permanente
Estância, donde contemplar podia
As estrelas, as ondas livremente.

“Essa mulher” — continuou meu Guia —
“Que o seio oculta em traça flutuante
E de velos a pele tem sombria,

“Foi Manto[4], que vagara incerta e errante
Até pousar na terra, em que hei nascido.
No que ora digo irei um pouco avante.

“Vendo o pai já da vida despedido
E a cidade de Baco em jugo triste,
O mundo largo tempo há percorrido.

“Junto ao Alpes na bela Itália existe,
Além Tirol, já perto da Alemanha,
Um lago, que chamar Benaco[5] ouviste.

“Veia de fontes mil, que a plaga banha
Entre Garda, Camônica e Apenino,
De águas conduz ao lago cópia manha.

“Ilha há no meio, em que o Pastor trentino,
E com ele os de Bréscia e de Verona,
Possuem de benzer juro divino.

“Onde é mais baixa do Benaco a zona,
A Bérgamo fazendo e a Bréscia frente,
Pesqueira, forte em bastiões, se entona.

“É dali que das águas o excedente,
Que ter em si não pode o lago, brota
Em rio e cobre os prados largamente.

“Quando prossegue, outro apelido adota,
Chama-se Míncio, perde o nome antigo:
No Pó junto a Governol, há fim sua rota.

“No verão à saúde traz perigo;
Em vasto plaino o álveo dilatando,
Forma paul, das infeções amigo.

“Manto, a virgem selvage ali passando,
Terreno viu desabitado, inculto
Naquele pantanal, que o está cercando

“Esquiva a humano trato e estranho vulto,
Fez ali de suas artes oficina
E viveu té sofrer da morte o insulto.

“Povo, ao diante, para ali se inclina,
Em torno esparso, e abrigo, o julga forte:
De águas cercado com pauis confina.

“Onde aqui o elegeu colhera a morte,
A cidade erigiram, que chamaram
Mântua, do nome seu sem tirar sorte.

“Os habitantes lá mais avultaram,
Quando ainda os ardis de Pinamonte
De Casalodis[6] a insânia não fraudaram.

“Ciente fica, pois: se de outra fonte
A pátria minha originar quiserem,
A mentira à verdade nunca afronte”. —

— “As cousas, que tuas vozes me referem,
Tão certas são” — disse eu — “que me parece
Carvão extinto o que outros me disserem.

“Mais dize, ó Mestre: acaso não merece
Dos que avançam nenhum reparo ou nota?
Na mente de o saber desejo cresce”. —

— “Aquele, a quem do mento ao dorso brota
Barba esquálida, um áugur se dizia,
Quando de homens a Grécia tal derrota

Teve, que infantes só no berço havia.
Em Áulide com Calcas[7] indicara
Tempo, em que a frota desferrar devia.

“Eurípilo[8] chamou-se: assim narrara
Num dos seus cantos, a tragédia minha,
Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.

“Esse, que, tão delgado, se avizinha,
Miguel Escotto[9] foi, que, certamente,
Perícia em fraudes da magia tinha.

“Olha Guido Bonati[10], encara Asdente[11]
Que cuidar só devera da sovela:
Arrepende-se agora inutilmente.

“Das tristes ora a turba se revela,
Que, desdenhando a agulha, a horrível arte
De encantos infernais acharam bela.

“Mas no limite, que hemisférios parte,
É Caim com seu fardo, o mar tocando,
Lá de Sevilha além do baluarte.

“A lua, a face plena já mostrando
(Te lembras?) ontem viste na sombria
Selva, em que te ajudou seu fulgor brando”. —

Assim falando, a passo igual seguia.

NotasEditar

  1. Anfiarau, que morreu no sítio de Tebas, e prevendo a sua morte tentara esquivar-se de tomar parte nesse sítio. [N. T.]
  2. Adivinho tebano, que foi transformado em mulher e depois retornou homem. [N. T.]
  3. Adivinho lembrado na Farsália de Lucano. [N. T.]
  4. Filha de Tirésias, que a tradição diz ter fundado a cidade natal de Virgílio, Mântua. [N. T.]
  5. Hoje lago de Garda. [N. T.]
  6. Pinamonte dei Bonacolsí para apoderar-se de Mântua induziu o governador Alberto de Casalodi a praticar atos violentos que revoltaram o povo contra ele. [N. T.]
  7. Adivinho da antigüidade. [N. T.]
  8. Outro célebre adivinho. [N. T.]
  9. Célebre adivinho do tempo de Frederico II. [N. T.]
  10. Astrólogo do conde Guido de Montefeltro. [N. T.]
  11. Sapateiro e adivinho de Parma. [N. T.]