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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno — Canto XXXIII


O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o Poeta encontra o frade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos traidores cai no Inferno logo depois de consumada a traição e que um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no mundo.

DO fero cevo os lábios desprendendo,
Na coma o pecador os enxugava
Desse crânio, a que estava atrás roendo.

“Queres de infanda mágoa” — começava —
Renove a dor, que, só pensando a mente,
Antes que falte, o coração me agrava.

“Mas se a voz minha deve ser semente,
Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.
Falar, chorar, verás conjuntamente.

“Não sei quem sejas, não sei como note
Tua presença aqui, por Florentino
Te ouvindo a língua, é força que te adote.

“Saber deves que fui Conde Ugolino,[1]
Que Arcebispo Rogério aquele há sido:
Direi qual nos juntou cruel destino.

“Contar não hei mister como iludido
Por minha confiança, em cárcer posto.
Fui morto por maldade deste infido.

“Não conheces, porém, que atroz desgosto
O meu fim precedera: atenção presta,
Quanto ofendido fui verás exposto.

“Por vezes da prisão por breve fresta,
Torre da fome — após o meu tormento,
Que há de a outros ainda ser funesta

“Brilhava a lua em pleno crescimento,
Quando o véu do futuro horrível sonho
Rasgou, do exício meu pressentimento.

“Este, como senhor, então suponho
Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava[2]
Lobo e pequenos seus correr medonho.

“Magros cães, destros, feros açulava
Dos Gualandis, Sismondis e Lanfrancos[3]
A companha, que à frente cavalgava.

“Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,
Já dos famintos galgos mal feridos,
Dar pareciam últimos arrancos.

“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos
Filhos que eram comigo, choro soa:
Pedem pão, stando ainda adormecidos.

“És cruel, se a tua alma não magoa
O prenúncio da dor, que me aguardava:
Se não choras, que pena há que te doa?

“Despertaram; e a hora já chegava
Em que alimento escasso nos traziam:
O sonho a cada qual nos aterrava.

“Da horrível torre à porta então se ouviam
Martelos cravejar: eu mudo e quedo
Nos filhos encarei, que esmoreciam.

“Não chorava; era o peito qual penedo.
Choravam eles, e Anselmuccio disse:
Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”

“Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,
No dia e noite, que seguiu-se lenta,
Até que ao mundo novo sol surgisse.

“Quando a luz inda escassa se apresenta
No doloroso carcer, meu semblante
Nos quatro rostos seus se representa.

“Mordi-me as mãos de angústia delirante.
Eles, cuidando ser a fome o efeito,
De súbito e com gesto suplicante,

“Disseram: “Menos mal nos será feito
Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste
Desta carne: ora sirva em teu proveito”.

“Contendo-me, evitei lance mais triste.
Em silêncio dois dias se passaram...
Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?

“Do quarto dia os lumes clarearam:
Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:
“Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.

“Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido
O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,
Um por um se extinguir exinanido.

“Apalpando os busquei — cego os não via
Dois dias, os seus nomes repetindo:
Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.

Calou-se e os torvos olhos retorquindo,
Como de antes cravou no crânio os dentes
E os ossos, qual mastim, foi destruindo.

Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes
Na bela terra, onde o si ressona!
Pois te não vêm punir vizinhas gentes.

Presto a Capraia mova-se e a Gorgona
Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída
Teu povo assim pereça, que se entona.

E se foi a Ugolino atribuída
De entregar teus castelos à maldade,
Por que à prole em tal cruz tirar a vida?

Tebas moderna! Pela tenra idade
Ugoccione e Briga tá insontes eram
E os irmãos, em que usaste a feridade.

Seguindo além, os olhos se of’receram
Outros, que em gelo têm duro tormento:
Destes os rostos para trás penderam.

Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;
E a dor, que desafogo em vão procura,
Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.

As lágrimas coalhando em neve dura
Formam nos olhos seus vítrea viseira,
E todo o espaço interior se obtura.

Conquanto quase a faculdade inteira
De sentir no meu rosto se embotasse
Dês que era nessa perenal geleira,

Cuidei que um sopro me tocara a face.
“Do que este sopro” — inquiro — “se origina?
Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”

E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na
Os teus olhos darão; e ali chegando
O que virem do sopro a causa ensina”.

Dos tristes padecentes um gritando,
Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas
(Pois que no extremo abismo estais penando)

“Tirai-me aos olhos gélidas camadas,
Por desafogo dar-me ao peito aflito,
Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.

“Se o lenitivo queres, que tens dito,
Teu nome diz: se não me desobrigo,
Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.

Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,[4]
Pelos pomos famoso do mau horto:
Aqui recebo tâmara por figo”.

“Oh!” — disse — “porventura tu stás morto?”
“Não sei como é meu corpo lá no mundo”,
Tornou “e se vivendo tem conforto.

“Este condão possui sem ter segundo
Ptoloméia: aqui star alma é freqüente
Antes que a mande Atropos ao profundo.

“E por que mais de grado e prontamente
Estas vidradas lágrimas romovas,
Sabe que apenas de traição a mente

“Inquina-se, como eu, por funções novas
Passa o corpo a demônio, que o governa
Té completar da vida últimas provas:

“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,
Talvez na terra folgue o corpo ledo,
Cuja sombra após mim trêmula inverna.

“Se és recém-vindo, sabe que esse tredo
É Branca d’Ória: há prolongados anos[5]
Jaz enleado no infernal enredo”.

“Este é” tornei “mais um dos teus enganos:
Desfruta alegre Branca d’Ória a vida
E come e bebe e dorme e veste panos”.

“Dos Malebranche em cava denegrida,
Não era“ disse ainda “em pez viscoso
Alma de Miguel Zanche submergida,

“E um demônio esse infame criminoso
Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,
Que de traição foi sócio proveitoso.

“Das mãos auxílio presta ora clemente,
Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara
Com tal vilão me havendo cortesmente.

Ah! Genoveses! raça impura e avara,
Que nos costumes tem mancha tamanha!
Quem da face da terra vos lançara!

Junto ao pior esp’rito da Romanha
De entre vós um traidor vi tanto imundo,
Que a alma sua em Cocito já se banha,

Enquanto o corpo vida finge ao mundo.

NotasEditar

  1. Conde Ugolino, della Gherardesca, de Pisa, foi acusado pelo arcebispo de Pisa, Ruggiero degli Ubaldini, de ter traído a sua cidade natal. Preso com dois filhos e dois netos numa torre, onde todos morreram de fome. [N. T.]
  2. Monte, San Giuliano, entre Pisa e Luca. [N. T.]
  3. Galandis etc., famílias pisanas. [N. T.]
  4. Frei Alberigo, Manfredi, de Faenza, convidou dois parentes seus a comerem na sua casa e, no fim do jantar, ao pedir que trouxessem a fruta, os criados penetraram na sala e mataram os hóspedes. [N. T.]
  5. Branca d’Ória, genovês, convidou o sogro Miguel Zanche a comer em sua casa e matou-o para usurpar o castelo de Logodoro. [N. T.]