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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XI


Dante elogia a vida contemplativa. — As palavras proferidas no canto anterior por S. Tomás criam duas dúvidas no ânimo do poeta. O santo, tratando de resolver a primeira, esboça a vida de S. Francisco de Assis.

Ó dos mortais aspirações erradas!
Em que falsas razões vos enlevando
Tendes à terra as asas cativadas!

Qual seguia o direito; qual buscando
Já aforismos; qual o sacerdócio;
Qual reinava, sofisma ou força usando;

Qual roubo amava, qual civil negócio;
Qual, a salaz deleite entregue a vida,
Afanava-se; qual passava no ócio;

Enquanto eu, livre da terrena lida,
Ao céu com Beatriz me alevantava,
Aceito lá com glória tão subida.

Cada alma santa ao ponto já tornava
Do círculo em que de antes demorara;
E como círio em candelabro estava.

Então da luz, que de antes me falara
Voz suave escutei; e assim dizendo
Do seu brilho a pureza se aumentara:

— “O lume eterno, em que me inspiro e acendo,
Eu, contemplando, claramente leio
Teu pensamento e a origem lhe compreendo.

“Desejas tu, da dúvida no enleio,
Que eu aproprie da tua mente à esfera
O que dizer-te, há pouco, me conveio.

“Eu te disse — caminho onde prospera —
— De saber tanto não se alçou segundo: —
Aqui é, pois, que a explicação te espera.

“A Providência, que governa o mundo
Com tão sábio conselho, que, torvada
Sente a vista quem quer sondar-lhe o fundo.

“Por ser ao seu dileto encaminhada
Casta Esposa daquele, que alto grito,
Desposando-a, soltou na Cruz Sagrada,

“Com ânimo mais forte e à fé restrito,
Dois príncipes, lhe deu, que, em seu desvelo,
O caminho mostrassem-lhe bendito.

“Um seráfico foi no ardor do zelo,
Outro ostentou, por seu saber na terra,
De querúbica luz esplendor belo.

“De um só te falarei; pois num se encerra
O que de outros aos louvores mais se estende:
Quem der aos dois o mesmo fim não erra.

“Entre Tupino e o rio, que descende
Do outeiro, que escolhera santo Ubaldo,
Fértil encosta de alto monte pende.

“Dali baixa a Perúgia o frio e o caldo
Pela porta do Sol; atrás padece
Em duro jugo Nócera com Gualdo.

“Onde o declive menos agro desce
Nasceu ao mundo um sol tão luminoso,
Como o que ao Gange às vezes esclarece.

“Desse lugar quem fale portentoso
Não diga Assis, que pouco declarara:
Chame Oriente o berço glorioso.

“Do nascente este sol pouco distara,
Quando o conforto a receber a terra
Já das virtudes suas começara.

“Contra seu pai, adolescente, em guerra
Entrou por dama, a quem bem como à morte,
Ninguém a porta com prazer descerra.

“Então da Igreja a recebeu na corte,
E coram patre, por esposa amada
E amor votou-lhe cada vez mais forte.

“Vivera ela viúva e desprezada
Séculos onze e mais, e de outro amante,
Senão deste, não fora requestada;

“Em vão se disse que no lar, constante,
De Amiclas a encontrou esse guerreiro,
De quem tremera o mundo titubante;

“Em vão fiel, de coração inteiro,
Quando Maria ao pé da Cruz ficara,
Com Cristo ela subira-se ao madeiro.

“Para fazer minha linguagem clara,
Em suma, o nome sabe dos amantes:
Com pobreza Francisco se casara.

“Dos dois santa união, ledos semblantes,
Seu terno olhar e afeito milagroso
Dão a todos lições edificantes.

“Aquela paz anela cobiçoso
Venerável Bernardo que, primeiro,
Descalço corre e crê ser vagaroso.

“Riqueza inota! Ó Bem só verdadeiro!
Descalço vai Egídio, vai Silvestre,
Porque amam-na, do esposo no carreiro.

“Dali se parte aquele pai e mestre
Com terna esposa e com família santa
Que de corda o burel cinge campestre.

“Não baixa os olhos, nem se torna e espanta
Por filho ser de Bernardone obscuro,
Nem por sofrer desdém em cópia tanta.

“Mas afouto mostrou o intento duro
A Inocêncio de quem primeiro obteve
Assenso ao regimento austero e puro.

“E quando a pobre grei progresso teve,
Após aquele, a cuja heróica vida
Melhor no céu louvor de anjos se deve,

“Foi a c?roa segunda concedida
Por Honório, que o Santo Espírito alenta
Daquele arquimandrita a santa lida.

“Em breve a sede do martírio o tenta,
E do Soldão soberbo na presença
Cristo anuncia e a lei que o representa.

“Vendo rebelde o povo à nova crença.
Por não ficar seu zelo sem proveito
Da Itália volta para a messe extensa.

“Na dura penha, que se interpõe ao leito
Do Tibre e do Arno, o derradeiro selo
Cristo lhe pôs: dois anos dura o efeito.

Quando a Deus, que a bem tanto quis movê-lo,
O prêmio prouve dar-lhe merecido,
Na humildade cristã por seu desvelo,

“Essa esposa, que amara estremecido,
Aos irmãos confiou por justa herança,
Para afeto lhe terem sempre fido.

“Do seio da pobreza então se lança,
Tornando ao reino seu, a alma preclara:
Nesse jazigo o corpo seu descansa.

“Pensa, pois, o que foi quem Deus julgara
Di?no após ele, de reger a barca
Que Pedro, no alto mar encaminhara.

“Coube a tarefa ao nosso patriarca:
Quem, fiel, aos preceitos lhe obedece,
Sabe tesouros arrecadar na arca.

“Sua grei novo pascigo apetece,
E tanto é dos desejos impelida,
Que em diferentes campos aparece.

“Quanto mais cada ovelha é seduzida
Do mundo pelo pérfido atrativo,
Tanto mais ao redil volta inanida.

“Poucas temendo o lance decisivo,
Acolhem-se ao pastor: escasso pano
É já para vesti-las excessivo.

“Se claro te falei, livre de engano,
Se tens estado ao que te digo atento,
Se da memória não receias dano,

“Ao teu desejo, em parte, dei contento,
Pois da planta bem vês qual seja a rama;
E o corretivo está neste argumento:

Onde prospera só quem mal não trama.”