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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XIV


Beatriz pergunta a um espírito celeste, em nome de Dante, se depois da ressurreição dos corpos permanecerá a luz que emana de suas almas e se essa luz não prejudicará a sua vista. O espírito responde que, depois da ressurreição, a vista dos espíritos aumentará. Aparecem novos espíritos. Sem perceber, Dante encontra-se no planeta Marte, onde estão aqueles que defenderam com as armas a religião cristã. Aí o aspecto do céu vence toda beleza passada, porque quanto mais se sobe, mais cresce o esplendor dos céus.

Do centro à borda e assim da borda ao centro
Água num vaso circular se agita,
Se a comovem de fora, se de dentro.

Isto que digo a mente me visita
Súbito, quando o esp?rito glorioso
De Tomás suspendeu a voz bendita,

Por semelhar-se ao efeito poderoso
Da sua voz e ao que Beatriz causava,
Quando assim disse em tom grave e donoso:

“O que saber este homem precisava
Com voz não disse, e, se o cogita, o ignora:
De outra verdade com raiz se trava.

“A auréola, dizei-lhe, em que se inflora
A substância, que é vossa eternamente,
Convosco há de existir, bem como agora?

“Se este esplendor em vós é permanente,
Quando visíveis fordes, ressurgindo,
A vista sofrerá luz tão fulgente?” —

Como em coréia as vozes vão subindo
E recresce a alegria, algum motivo
De alvoroço aos dançantes sobrevindo,

Assim aos santos círculos mais vivo
Júbilo mostram no girar, no canto
Ante o rogo piedoso e compassivo.

Quem, por chegar a morte, sente espanto,
Para lograr no céu viver divino,
Da eterna chuva desconhece o encanto.

Quem sempre reina, é uno, é duplo, é trino,
Em três, em dois, em um sempre perdura,
Não abrangido — e tudo abrange — em hino

De tão suave e cônsona doçura
Dos coros foi três vezes aclamado,
Que um prêmio fora da virtude pura.

No lume, de fulgor mais sinalado,
Ouvi, do menor círc?lo voz modesta,
Como a do arcanjo à Virgem deputado.

— “Quanto no Paraíso eterna a festa
Há de ser, tanto o nosso amor vestido
Será de luz em torno manifesta.

“O brilho seu do ardor há procedido
E o ardor da visão, que é tão gozosa,
Quanto a Graça o valor faz mais subido.

“E quando a carne santa e gloriosa
Revestirmos, será nossa pessoa
Completa e mais jucunda e mais ditosa.

“E o gratuito lume, que nos doa
O Sumo Bem, será mais rutilante:
A Glória sua a ver nos afeiçoa.

“A visão se fará mais penetrante,
Mor o ardor se fará que ali se acende,
E o esplendor, que este dá, mais coruscante.

“Qual carvão, que de si flamas desprende
E pelo vivo ardor as escurece
Tanto, que entre elas seu rubor resplende,

“Este doce fulgor, que em nós parece,
Ver deixará o corpo ressurgido,
Quando o sono, em que jaz um dia cesse.

“Nenhuma será das luzes ofendido:
Starão corpóreos órgãos adaptados
A quanto a deleitar-nos for provido.” —

Os coros dois tão ledos e apressados
Responderam — amém — que bem mostraram
Quanto os trajos carnais são desejados.

Não por si sós talvez os cobiçaram,
Mas por amor dos pais, de entes queridos,
Antes que ternas flamas se tornaram.

Eis, em torno, de lumes incendidos
Novo círculo aos outros se acrescenta:
Qual nitente horizonte, os tem cingidos.

E como, quando à tarde a sombra aumenta,
No céu começam de assomar estrelas,
Cuja luz dúbia aos olhos se apresenta,

Assim me pareceu que via aquelas
Novas substâncias, que, também girando,
Moviam-se em redor das c?roas belas.

Vero fulgor do Esp?rito Santo! Oh! quando
Te mostraste de súbito, candente,
Os olhos meus venceste, deslumbrando.

Mas Beatriz tão bela e tão ridente
Rebrilhou, que a visão maravilhosa,
Bem como outras, seguir não pode a mente.

Aos olhos força deu tão poderosa,
Que se alçaram; e com ela transportado
Vi-me à esfera mais alta e luminosa.

Fui da minha ascensão certificado
Da purpurina estrela pelo gesto,
Em que rubor notei não costumado.

Nesse falar, a todos manifesto
Do coração, a Deus vivo holocausto,
Por sua nova graça, humilde presto.

Do peito meu não era ainda exausto
Do sacrifício o ardor, que convencido
De estar aceito fui, e ser-me fausto.

Tão lúcidas, tão rubras, confundido
Vi luzes em dois raios fulgurantes,
Que disse — Ó Hélios, como os tens vertido! —

Galáxia, em astros mais, menos brilhantes
Branqueja, entre dois pólos colocados,
E os doutos deixa em dúvida hesitantes:

De igual maneira em Marte constelados
O signo os raios formam venerando,
Diâmetros iguais sendo cruzados.

Me está memória o engenho superando:
Se na cruz lampejar eu via Cristo,
Como acertar, exemplos procurando?

Quem toma a Cruz e na jornada Cristo
Segue, desculpe o que falta em arte,
Vendo nesse esplendor rutilar Cristo.

Da cruz em cada braço, em toda parte
Cintilantes mil fogos se moviam;
Qual desce, qual se eleva, qual desparte.

Assim sutis argueiros se veriam,
Retos ou curvos, rápidos ou lentos,
De formas, que multíplices variam,

De Sol em réstea que entra os aposentos,
Onde da calma o homem se repara
Apurando do engenho e da arte inventos;

E como da harpa e lira se depara
Nas cordas várias doce melodia
A quem notas ignora e não compara;

Assim desses luzeiros que ali via
Na Cruz formosa, extático escutava,
Sem comprendê-la, angélica harmonia.

Que eram altos louvores bem julgava
Ressuscita e triunfa — acaso ouvindo:
Confusamente o hino me soava.

Ouvia em tanto enlevo me sentindo,
Que inda não sinto cousa que mais queira,
A mente ao canto em doce enleio, unindo.

Ousado sou talvez desta maneira,
Parecendo pospor os olhos belos,
Em que a minha alma se embevece inteira.

Mas quem reflete que os eternos selos
Vão da beleza no alto se apurando,
E aos olhos não voltava-me por vê-los,

À falta me achará perdão, notando
A verdade que digo: o prazer santo
Não excluo que em vê-la ia gozando;

Com a altura, se eleva o puro encanto.