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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XVII


Dante pede a Cacciaguida que lhe declare qual sorte lhe está reservada. Este prediz-lhe o exílio, a perseguição pelos inimigos e o seu refúgio na corte dos Scaligeros, Exorta-o a falar do que viu e ouviu na sua viagem, sem receio de ofender ninguém.

Qual a Climene explicações rogava
De quanto em desconcerto próprio ouvira
O que austeros depois os pais tornava,

Tal fiquei, tal efeito pressentira
Com Beatriz a santa luz brilhante,
Que da Cruz eu da altura descer vira.

E disse Beatriz: — “Desse anelante
Desejo a flama exibe e nela esteja
Ao que tens na alma imagem semelhante,

“Não, por que mais ao claro em ti se veja,
Mas porque, sendo a sede revelada.
Prestada em proporção água te seja.” —

— “Ó cara estirpe minha à Glória alçada! —
Como conhecem as terrenas mentes
Não dar a obtusos dois triâng?lo entrada,

“Assim vês tu as cousas contingentes
Lá no porvir, o Centro contemplando,
A quem todos os tempos stão presentes;

“Em quanto eu a Virgílio acompanhando,
Subia o monte, onde ao pecado há cura,
E também pelo inferno penetrando,

“Sobre a existência minha ouvi futura
Agras palavras, posto que me sinta
Impertérrito aos golpes da ventura.

“Folgara em ter ciência bem distinta
Dos reveses, que a sorte me prepara:
Menos mogoa a seta ao que a pressinta.”

Ao spírito, que, há pouco me falara,
Meu desejo hei desta arte declarado,
Como a senhora minha me ordenara.

Sem ambages, que aos homens enviscado
Tinham, antes de Deus ser o Cordeiro,
Que os pecados remiu, sacrificado,

Mas em preciso estilo e verdadeiro,
Logo tornou-me o paternal afeito,
Velado e transparente em seu luzeiro:

— “A contingência, que do espaço estreito
Da matéria os limites não transcende,
Toda se pinta no eternal aspeito.

“Necessidade, entanto, não a prende,
Como não prende a vista em que se espelha
A nau, que as águas rápida descende.

“De lá bem como se transmite à orelha
Doce harmonia de órgão, refletido
O tempo me é que a ti já se aparelha.

“Qual de Atenas Hipólito há partido
Pela perfídia da madrasta ímpia,
Tal deixarás Florença perseguido.

“Assim se quer e a trama principia;
Será em breve executado o plano
Lá onde a Cristo vendem cada dia.

“A culpa o mundo a quem padece o dano
Dará; mas terá pena merecida,
Da verdade em vingança, o algoz insano.

“Deixarás toda a causa a mais querida,
Chaga primeira de tormentos cheia,
Do desterro pelo arco produzida.

“Sentirás quanto amarga; quanto anseia
O sal de estranho pão; que é dura estrada
Subir, descer degraus da escada alheia.

“Tua angústia há de ser mais agravada,
Te acompanhar no val do exílio vendo
Ignóbil gente, estólida malvada.

“Ingrato, louco e mau te acometendo
O bando se há de unir: será corrido
Ele, não tu, o opróbrio merecendo.

“Seu bestial instinto conhecido
Terão seus feitos; glória consumada
Terás; tu só formando o teu partido.

“Te há de ser acolhida franqueada
Primeira pelo exímio e grã Lombardo
Que por brasão tem Águia sobre Escada.

“Terá contigo tão cortês resguardo,
Que, o rogo prevenindo, o dom se apresse,
Que sói entre outros, se mostrar mais tardo.

“Verás com ele o que ao nascer merece
Tanto deste astro bélico a influência,
Que a fama a glória ao nome lhe engrandece.

“Inda ignorada jáz tanta excelência:
Só voltas nove em torno lhe tem dado
Estas esferas na anual cadência.

“Mas antes que o Gascão tenha enganado
Henrique excelso já fará patentes
De ouro o desdém e o ânimo esforçado.

“Serão grandezas suas tão fulgentes,
Que inimigos malgrado as contemplando,
Terão de as proclamar por preminentes.

“Nele confia, o bem dele esperando;
A sorte mudará de muita gente,
Ricos, mendigos condição trocando.

“Dele o que eu digo inculcarás na mente,
Sem narrá-lo.” — E prozeas predizia,
Incríveis inda a quem lhe for presente. —

— “Eis, filho, o comentário” — prosseguia —
“Do que se foi já dito; eis a emboscada,
Que num período breve se encobria.

“Mas por ti dos vizinhos invejada
Não seja a sorte; prolongada a vida,
Verás sua perfídia castigada.” —

Depois que essa alma santa concluída,
Calcando-se, mostrou já ter a trama
Da tela, que eu lhe oferecera urdida,

Com tom de voz falei de homem, que clama
Por bom conselho, ao recear perigo,
De quem, sábio e discreto, o bem de outro ama.

— “Vejo, ó pai, que, investindo, o tempo imigo
Contra mim corre para o golpe dar-me,
Mais grave, porque opor-me não consigo.

“De prudência, portanto, é bem que me arme;
Não suceda, ao perder pátria guarida,
Dos meus versos por causa outra faltar-me.

“No mundo, onde em perpétua dor se lida,
Da montanha subindo o excelso cume,
Donde elevou-me Beatriz querida,

“E depois pelo céu de lume em lume
Cousas tais aprendi, que, se as redigo,
Travo terão a muitos de azedume.

“Se da verdade eu for remisso amigo,
Morrer temo dos homens pelo olvido,
Que o tempo de hoje hão de chamar antigo.” —

A luz, onde o tesouro era escondido,
Que eu achara, se fez tão coruscante,
Como o sol de áureo espelho refletido.

E disse: — “A consciência vacilante
Por próprios atos ou vergonha alheia
Teu falar haverá por cruciante.

“Mas deves repelir mentira feia;
Toda a tua visão faz manifesta,
Coce-se a pele, que é de lepra cheia.

“Ao primeiro sabor será molesta
Tua palavra; mas vital sustento
Deixará depois, quando for digesta.

“Há de o teu braço assemelhar-se ao vento,
Que ao mais soberbo cimo ousado investe;
Há de isto ao nome teu dar lustre e aumento.

“Ante os olhos aqui, no céu, tiveste,
No santo monte e lá no val das dores
Almas, que a fama com seu brilho veste.

“Pois de ouvintes o ânimo ou leitores
Preço não dá ao exemplo derivado
De origem vil, sem nota, sem louvores,

Nem a outro argumento mal fundado.” —