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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto VI


Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio. Esse espisódio move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as guerras internas que devastam a Itália.

Quando o jogo da zara é terminado,
Na amargura, o que perde, só ficando,
Os bons lances ensaia contristado.

A turba o vencedor acompanhando,
Qual vai diante qual por trás o prende,
Ao lado qual se está recomendando:

A este e àquele sem deter-se atende;
O que lhe alcança a mão parte se apressa;
De importunos desta arte se defende.

Cerca-me assim a multidão espessa,
Ora a uns ora a outros me volvendo,
De cada qual me livro por promessa.

O Aretino aqui stava: golpe horrendo,
De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,
E o que na fuga se afogou, horrendo.

Aqui rogou-me em súplica sentida,
Frederico Novello e esse Pisano
Por quem Mazucco ação fez tão subida.

Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano
Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,
Como dizia, não por feito insano.

Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,
Do Brabante, se apressa a ter cautela,
Se não, da grei maldita a estância a espera.

Quando enfim, pude me esquivar àquela
Turba, que preces sôfrega pedia
Para a entrada apressar na mansão bela,

— “Em texto expresso” — eu disse — “ó douto Guia,
Do teu livro afirmaste que a vontade
Do céu por orações não se movia.

“Mas pede-as essa grei com ansiedade:
Seria acaso vã sua esperança?
Ou compreender não pude essa verdade?” —

— “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;
Por vã essa esperança não falece;
Quanto é certa a razão nô-lo afiança:

“A Justiça do céu não desfalece,
Porque flama de amor num só momento
O devedor redime, que padece.

“Lá onde expus aquele pensamento
Não podia oração solver pecado,
Pois distante de Deus estava o intento.

“Porém neste problema sublimado
À mente por que há suma ciência
Te será puro lume revelado.

“Por quem? Por Beatriz. A continência
Feliz ridente lhe verás, ao viso
Quando houveres subido da eminência.” —

Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;
Como de antes, não sinto mor fadiga,
E da montanha a sombra já diviso.” —

— “Como podemos, é mister prossiga
O passo, enquanto o dia não se finda;
Mas te engana o desejo que te instiga.

“Antes do cimo aguardarás a vinda
Desse astro oculto agora pela encosta;
Não refranges os raios seus ainda.

“Aquela sombra vê, de parte posta,
Que, em soledade, atenta nos esguarda:
A vereda dirá melhor disposta.” —

Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,
Como estavas altiva e desdenhosa.
Dos olhos no meneio grave e tarda!

Ela em nós encarou silenciosa,
Mas deixava-nos vir, nos observando,
Qual leão no repouso, majestosa.

Virgílio apropinquou-se, lhe rogando
Nos mostrasse a mais cômoda subida:
Respondeu-lhe, somente perguntando

Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.
A falar o meu Guia começava:
“Em Mântua...” quando a sombra, comovida,

A ele se enviou donde se achava,
“Sordello sou” — dizendo — “em Mântua amada
Nasci também.” — E amplexo os estreitava.

Ah! serva Itália, da aflição morada!
Nau sem piloto em pego tormentoso!
Rainha outrora em lupanar tornada!

Esse espírito nobre e deleitoso
Nome escutando só da doce terra,
Logo o patrício acolhe carinhoso:

Os vivos raivam no teu solo em guerra;
Se encarniça um no outro ferozmente
Os que um só muro, uma só cava encerra.

Busca, ó mísera Itália, diligente
No mantimo teu, busca em teu seio:
Onde acha paz a tua infausta gente?

Justiniano em vão te ajeitar veio
A brida; a sela fica abandonada:
Maior vergonha te há causado o freio.

Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada
Deixar-te cumpre a César todo o mundo,
Como a lei quer por Cristo decretada!

Vê como, aos maus instintos se entregando
Ira-se a fera por faltar-lhe espora,
Depois que inábil mão stá governando.

Alberto de Germânia! Atente agora
Que é tornada indômita e bravia:
Cavalgado a deveras ter outrora!

Do céu justo castigo deveria
Os teus ferir — tão novo e tão sabido,
Que espante o sucessor da monarquia!

Tu e o teu genitor heis consentido,
Distantes, por cobiça, em terra estranha,
Que do Império o jardim steja esquecido.

Vê, descuidoso, na aflição tamanha,
Capelletti e Montecchi entristecidos.
Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.

Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:
De tanto opróbrio seu toma vingança.
Vê como em Santaflor estão regidos!

Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!
Viúva e só a todo o instante clama:
Vem, César! Vem! Não mates minha esp?rança!

Vem ver como a si próprio o povo se ama!
E se por nós piedade não te move,
Mova-te o zelo pela tua fama!

Se me é dado dizer, Supremo Jove,
Dos homens por amor sacrificado,
Mal tanto a nos olhar não te comove?

Ou tens ao nosso mal aparelhado,
Lá dos conselhos teus no abismo imenso,
Algum bem, ao saber nosso vedado?

As cidades de Itália um tropel denso
De tiranos subjuga e, qual Marcelo
Se aclama o faccioso, à pátria infenso.

Hás de, Florença minha, haver por belo
Este episódio a ti não referente,
Mercê do povo teu, de outros modelo.

Muitos, justiça tendo em peito e mente,
Por desfechar seu arco ensejo aguardam:
Teu povo a tem nos lábios permanente.

Muitos de encargos públicos se guardam;
Mas teu povo solícito se of?rece,
Gritando: — ”Pronto estou! em darmos tardam!” —

Exulta! A causa o mundo bem conhece:
Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.
Falo a verdade, e o efeito transparece.

Atenas, Sparta, que a tão suma alteza
Por leis e instituições se sublimaram,
Sem governo viveram na incerteza,

Se, Florença, contigo se comparam,
Que em novembro tens visto revogadas
Leis sutis, que em outubro se forjaram.

Quantas vezes hão sido transformadas,
Em breve tempo, lei, moeda, usança?
Quantas índoles e forma renovadas?

Se vês ao claro e tens viva a lembrança,
Ao enfermo hás de achar que és semelhante,
Que, no leito jazendo, não descansa;

Em vão se agita, a dor vai por diante.