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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto VIII


No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa. Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua pátria; Dante responde elogiando a sua família.

Era o tempo, em que mais saudade sente
Do navegante o coração no dia
Do adeus a amigos, que relembra ausente;

E ao novel peregrino amor crucia,
Distante a voz do campanário ouvindo,
Que ao dia a morte, flébil, denuncia.

Não mais ouvia os olhos dirigindo
Perto um espírito vi que levantado,
Acenava, que ouvissem-no pedindo.

E, havendo as duas mãos juntas alçado,
Parecia, olhos fitos no Oriente,
A Deus dizer: És todo o meu cuidado!

Te lucis entoou devotamente
Com tão suave, tão piedoso canto,
Que me enlevava em êxtase a mente.

Com igual devoção e igual encanto,
Nas supernas esferas engolfados,
Repetiram os outros o hino santo.

Leitor, tem da alma os olhos afiados
Para os véus da verdade penetrares:
Fácil é, tão sutis são, tão delgados.

A nobre turba, após os seus cantares,
Calou-se; então notei que, como à espera,
Pálida e humilde a vista erguia aos ares.

E vi sair descendo, da alta esfera
Anjos dois, empunhando flamejantes
Gládios a que truncada a ponta era.

Verdes quais folhas novas vicejantes
As vestes suas são, as agitando
As plumas das suas asas viridantes.

Um acima de nós se colocando,
Baixara o outro sobre o lado oposto,
Desta arte as almas de permeio estando.

A flava coma via-lhes: seu rosto
Contemplar impossível me seria:
Confunde a vista o lúcido composto.

“Do sólio ambos descendem de Maria”
Sordelo diz — “a do vale por amparo,
Onde a serpente vai chegar ímpia.”

Por onde ela viesse estando ignaro
Em torno olhei e, do terror tomado,
Busquei refúgio ao pé do amigo caro.

Sordel prossegue: — “É de falar chegado
Àqueles grandes spíritos o instante:
Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —

Para baixar ao val me foi bastante
Três passos dar: um spírito fitava
Perscrutadora vista em meu semblante.

Já de sombras o ar se carregava;
Mas aos seus e aos meus olhos embaraço
Não era para ver-se o que ali stava.

A mim vem, eu para ele aperto o passo:
— “Nino exímio juiz quanto me agrada
Ver-te liberto do infernal regaço!”

De afeto após a mostra reiterada,
Inquiriu: — “Por longínquas águas quando
Chegaste ao pé da altura alcantilada?”

— “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã, passando
Pela triste mansão: ainda a vida
Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —

Mal fora esta resposta proferida,
Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;
Como se fora maravilha ouvida.

Ao Vate este volveu-se; e se escutaram
Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, —
De Deus ver o que as leis determinaram!”

— “Por essa gratidão” — a mim voltado
Disse — “que ao Ente deves invisível,
Cuja ação compreender nos é vedado.

“Te imploro que, em passando o mar temível,
Digas à filha minha que suplique
Por mim: Deus à inocência é tão sensível!

“Não creio que em prol meu a mãe se aplique
Depois que os brancos véus trocou demente:
Dor terá infeliz! — que mortifique.

“Se conhece, por ela, facilmente
Quanto em mulher de amor fogo perdura
Se o caminho falece e o olhar freqüente.

“Não lhe fará tão bela sepultura
A víbora com que Milão se ostenta,
Como a fizera o galo de Galura.” —

Assim dizia Nino. Ainda o alenta
O justo zelo, que traduz no rosto,
Que brando ardendo, o ânimo aviventa.

Ávido os olhos tinha eu no céu posto,
À parte em que os luzeiros são mais lentos,
Qual roda onde o seu eixo está disposto.

E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” —
Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,
Que o pólo acendem, célicos portentos.” —

— “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,
Que por manhã já vimos, se ocultaram.
Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —

Sordel, quando estas vozes me voaram,
O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” —
Os olhos o seu dedo acompanharam.

Do val na parte exposta ver consigo
Uma serpe, que a rastos coleava:
Talvez o pomo deu, de Eva perigo.

Entre as ervas e flores avançava,
A um lado e a outro a fronte volteando;
Lambendo o dorso, a língua dilatava.

Não pude ver como ao réptil nefando
Os celestes açores se enviaram;
Mas atônito os vi ambos pairando.

O sussurro que as asas no ar formaram,
Em sentido, fugiu presto a serpente:
Os anjos logo aos postos seus tornaram.

A sombra, que viera incontinênti
Do juizo ao chamado enquanto o assalto
Durou, me estava olhando atentamente

— “Tenha o fanal, que te conduz ao alto
No teu desejo válido alimento!
De luz para subir não sejas falto!

“Mas se houveste” — me diz — “conhecimento
De Valdimagra ou terra que confina,
Declara: eu de poder lá tive aumento.

“Chamado fui Conrado Malaspina;
Não o antigo, porém seu descendente:
Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —

— “Lá não fui” — respondi-lhe reverente —
“Mas da Europa em que parte a excelsa fama
Dos feitos vossos não tem eco ingente?

“A glória que o solar vosso proclama,
Honra o domínio, honra os seus senhores
Quem nunca os viu louvores seus aclama.

“Juro, e tão certo eu veja os esplendores
Do céu, que a vossa raça guarda intatos
Da opulência e bravura altos primores.

“Por sua índole egrégia, por seus atos,
Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,
Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —

— “Vai!” — disse — “Antes que o belo astro do dia
Sete vezes penetre nesse espaço,
Que o Áries cobre na celeste via,

“Tão boa opinião com fundo traço
Melhor será na tua fronte impressa
Do que de outro por voz a cada passo,

Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —