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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XII


Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de Dante um dos PP.

A par, como dois bois, que o jugo unira,
Eu com essa alma opressa e titubeante
Ia, enquanto Virgílio permitira.

Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
Deve fazer de vela e remos força
Quem quer à parca impulso dar constante.” —

A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
Erguendo logo o corpo, inda que a mente
Na humildade a modéstia acurve e estorça.

Já os pés acelero e facilmente
A Virgílio acompanho: de porfia,
Se mostra cada qual mais diligente.

— “À terra olhos inclina” — então dizia —
“Para a jornada aligeirar atenta
No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”

Assim como na campa se aviventa
A memória dos mortos, insculpindo
Imagem, que a existência representa,

Que de saudade os corações ferindo,
À piedade propensos e à ternura,
Os vai ao pranto muita vez pungindo:

Assim, com perfeição sublime e pura,
Figuras via sobre aquela estrada,
Que sobe, serpeando, pela altura.

Via, a um lado, dos céus precipitada
Das criaturas a mais bela e nobre,
Qual raio, pelo espaço arremessada.

A vista, o outro, Briaréu descobre
De projétil celeste transpassado:
Gélido a terra desmedido cobre.

Com Marte e Palas stava figurado
Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
Vendo o campo de imigos alastrado.

Nemrod olhos volvia espavoridos,
Junto à feitura imensa, aos companheiros,
Que a Sanaar seguiram-no, descridos.

Ó Níobe, com braços verdadeiros
Que dor nos olhos teus aparecia,
Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!

Saul, a própria espada te extinguia
Sobre a montanha Gelboé — maldita,
Orvalho ou chuva ali não mais caía.

Ó louca Aracne, tua face aflita,
De aranha parte entre os destroços stava
Da teia, origem da fatal desdita.

Não mais a tua imagem cominava;
Num carro foges, Roboam cruento,
À fúria popular, que te assombrava.

Amostrava ainda o duro pavimento
Como fez Alcmeon pagar tão caro
À mãe o funestíssimo ornamento.

Mostrava mais como flagício raro
Senaqueribe no templo assassinado
Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.

Mostrava também Ciro degolado
E Tamíris dizendo acesa em ira
— Sede tinhas de sangue, sê saciado! —

A multidão de Assírios que fugira,
Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
E o castigo que os passos lhes seguira.

Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
Ó soberba Ílion, a pedra dura
Mostrava a tua lamentável sorte!

Que mestre no pincel ou na escultura
Posturas, sombras tais traçar pudera,
Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?

Real ou morte ou vida aos olhos era:
A verdade não viu na própria cena
Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.

A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
Ao caminho, onde achais devida pena!

Mais íamos no monte caminhando
E no seu giro o Sol mais avançara
Do que eu cuidava, absorto contemplando,

Quando aquele, que sempre me guiara
Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
Não te engolfes! atento sê! repara!

“Olha aquele anjo que caminha à pressa
Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
Do dia o lavor certo e outra começa.

“Reverência em teu gesto manifesta
Para o anjo à viagem ser propício,
Não volta o dia de que pouco resta.” —

Aproveitar do tempo o benefício
Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
Matéria não lhe achei de obscuro o indício.

Já nos demanda a criatura bela:
Trajava branco, a face resplendia,
Qual, tremulando, matutina estrela.

Braços abria e asas estendia,
Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
A jornada já fácil se anuncia.” —

Raros escutam essa voz, por certo:
Ó gente humana, para o céu nascida,
Por que decaís do vento a um sopro incerto?

Imos à rocha, por degraus partida:
De uma das asas me roçou na fronte,
Prometendo-me próspera subida.

Como à direita quem se erguer ao monte,
Donde se avista a igreja que domina
A bem regida ao pé de Rubaconte,

Sente que aos pés a ingremidade inclina
Pela escada talhada antes que houvesse
Em livros e medidas a rapina:

Adoça-se o pendor assim; pois desce
De um círc?lo a outro a rocha que alterosa
A um lado e ao outro augusto passo of?rece.

Subindo em melodia tão donosa
Beati pauperes spiritu escutamos,
Que a voz, que o diga é pouco vigorosa

Quão dif?rentes os áditos que entramos,
Dos infernais! Aqui suave canto,
Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.

Vencendo esses degraus do monte santo
Mais ágil me sentia: lá no plano
Fácil nunca a jornada fora tanto.

Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
Sinto-me livre, pois no estreito passo,
Como de antes agora não afano!” —

— “Quando os PP que inda tens em vivo traço
Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
Como não hás de ter mais embaraço,

“Segundo o teu desejo os pés andarem
Sentirás sem fadiga, e até gozando
Deleite, para a altura ao caminharem.”

Como o que traz, na praça passeando,
Cousa, que ignora, na cabeça posta,
E, por ver sinais de outrem, suspeitando,

À mão pede socorro; ela, em resposta,
Procura, acha, um serviço assim rendendo,
A que a vista não pode ser disposta:

Assim, da destra os dedos estendendo,
Conheci que das letras, que o anjo abrira,
Stavam somente seis remanescendo.

Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.