Abrir menu principal
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXI


Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma se aproxima deles. É o poeta latino Estácio, o qual explica que o abalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que, purificado dos seus pecados, ele pode subir ao Céu. Sabendo que está falando com Virgílio, Estácio demonstra-lhe o seu afeto.

A sede natural, que não sacia
Senão a água, que, súplice, implorava
Ao senhor a mulher de Samaria,

Molestando-me, os passos me apressava
Após meu Guia na impedida estrada,
E do justo castigo o dó me entrava.

Eis, como escreve Lucas na sagrada
História que Jesus aparecera,
Ressurgido, aos dois sócios na jornada,

Uma sombra surgiu; trás nós viera.
Andando aquela turba contemplava:
Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.

— “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim falava.
Voltamo-nos de súbito, e Virgílio,
Cortês no gesto, a saudação tornava

Logo dizendo: — “Do feliz concílio
Te receba na paz a santa corte,
Que a mim me desterrou no eterno exílio!”

— “Como andais” — respondeu — “com passo forte.
Se Deus no céu vos não permite a entrada?
Quem vos conduz na altura desta sorte?” —

— “Os sinais de que a fronte está marcada
Deste homem por um anjo” — diz meu Guia —
“To mostram di?no da eternal morada,

“Mas, como aquela, que, incessante fia,
Não lhe havia inda a estriga consumido,
Que impõe Cloto ao que a vida principia,

“Subir só não teria ao céu podido
A sua alma, irmã tua, como é minha,
Pois não há, como nós, ver conseguido.

“Do inferno às fauces fui tirado asinha
Para guiá-lo, e o guiarei contente
No que do meu saber não passe a linha.

“Se puderes, me diz, por que o eminente
Monte, há pouco, tremeu, e desde a c?roa
À base retumbou clamor ingente.” —

A pergunta ao desejo tão boa soa,
Que ouvi-la a sede ardente me alivia,
Somente uma esperança mitigou-a.

— “Quanto hás notado” — a sombra respondia —
“Em nada os ritos da montanha altera:
De estranheza motivo não seria.

“Mudança aqui supor se não pudera:
Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,
A causa dá-se que esse efeito opera.

“Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve
Nesta montanha cai, passando a altura
Dos três degraus que estão na escada breve.

“Aqui não vê-se nuvem clara ou escura,
Relâmpago não luz, nem de Taumante
Mostra-se a filha, que tão pouco dura.

“Jamais daqueles três degraus avante,
Em que de Pedro o sucessor domina,
Seco vapor se eleva um só instante.

“Tremor talvez a sua base inclina;
Mas não atua no alto oculto vento,
Que não sei como dentro se amotina.

“Quando já de estar puro o sentimento
Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama,
Segue o tremor e o grito ao movimento.

“Seu querer a pureza lhe proclama,
Prova que tem de alçar-se a liberdade
Por força do desejo, em que se inflama.

“Antes o tem; mas contra essa vontade
A divina justiça ardor lhe inspira
Por pena, como o teve por maldade.

“Eu que em martírio decorridos vira
Anos quinhentos, à melhor morada,
Momentos poucos há, pus livre a mira.

“Eis do tremor a causa declarada!
Do Senhor eis por que, louvor cantando,
Rogou cada alma em breve ser chamada!” —

Calou-se. E como, a tanto mais gozando
Está quem bebe, quanto é mor a sede,
Indizível prazer tive escutando.

— “Vejo” — disse Virgílio — “agora a rede,
Que vos prende e depois dá liberdade,
Donde o tremor e o júbilo procede.

“Explicar-me te praza ainda, em verdade,
Quem tu foste e a razão por que hás jazido
Séc?los tantos em tanta asperidade.” —

— “No tempo em que o bom Tito, protegido
Por Deus, vingou as chagas que verteram
Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,

“Na terra o nobre título me deram,
Que mais honra perdura, e fui famoso:
Inda os lumes da fé me não vieram.

“Dos meus cantos o som foi tão donoso,
Que de Tolosa a si me atraiu Roma:
C?roas me deu de mirto glorioso.

“De Estácio o nome ainda o tempo doma;
Tebas cantei e Aquiles esforçado:
Este das forças me exauriu a soma.

“Do vivo ardor, que a mente me há tomado,
Na flama divinal a causa estava,
Que em milhares de engenhos há brilhado.

“Mãe e nutriz a Eneida me alentava;
Estro bebi caudal no seio puro;
Quanto vali da Eneida derivava.

“Para viver no tempo (te asseguro)
Em que existiu Virgílio, mais um ano
Passara no, que deixo, exílio duro.” —

Estas vozes ouvindo, o Mantuano
Olhou-me. — Cala-te! — sem falar dizia;
Mas a vontade está sujeita a engano.

Ou no pranto ou no riso se anuncia
Tão rápida a paixão, quando se acende,
Que o querer nos sinceros prende e lia.

Sorri-me, como que sagaz, compreende.
Calou-se o esp?rito; e me encarava atento
Nos olhos onde a mente mais se entende.

— “Sejas” — disse — “feliz no excelso intento!
Explica-me, porém, por que em teu rosto
Lampejar vi sorriso de momento.” —

Entre os extremos dois estava eu posto:
Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.
Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.

Responde, que ao silêncio nada obriga,
“Fique” — disse — “a verdade bem patente,
O que anela saber ele consiga.” —

— “Maravilha causou provavelmente” —
Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso;
Maior será me ouvindo, certamente.

“Virgílio é quem me guia ao Paraíso:
Para deuses e heróis cantar tiveste
Por ele o esforço que lhe foi preciso.

“Se outra causa em meu riso supuseste,
Te enganaste: o motivo declarado
Nas palavras está que lhe disseste.” —

Quer os pés abraçar do Mestre amado,
E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia —
“Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”

Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia
O amor” — disse — “em que por ti me acendo,
Que da nossa vaidade me esquecia,

Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.” —