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A Luta por Emília Moncorvo Bandeira de Melo
Capítulo IX


O mês de agosto corria incerto, com lufadas tias de vento, pancadas de chuva intermitentes, uma grande umidade atmosférica – e Celina, mais emagrecida, levava agora a queixar-se de uma nevralgia facial que não lhe consentia o repouso. Tinha necessidade de ir ao seu dentista, que também não podia arriscar-se a perder algum dente talvez ameaçado — e Alfredo, olhando-lhe a boca luminosa e fresca, acabou por concordar que seria realmente uma pena estragar essa perfeição, e deu-lhe licença para ir às duas horas com a Lucília ao Morais, no largo da Carioca, esperando para sair que ele a fosse buscar às três e meia, quando, deixasse a repartição.

O dentista, depois de um ligeiro exame, pôs-se a rir para Celina, perguntando-lhe se ela estava a zombar dele, mostrando-lhe essas pérolas intactas que eram os seus dentes — dom aliás, de família, pois as suas irmãs os tinham igualmente lindos. E largou-a, para atender a outros clientes, atarracado e pressuroso.

Celina então consultou o seu reloginho de prata dourada e viu que eram apenas duas horas e meia.

Que bom! tinha ainda tempo para ficar ali sozinha, gozando a sua inesperada liberdade; e sentou a pequena Lucília diante de uns jornais ilustrados, foi pôr-se à janela, contente, regalada, mirando os passeantes, que também erguiam o olhar para essa encantadora figura de mulher debruçada à varanda.

Um rapaz alto ousou sorrir-lhe do meio do Largo a ela sentiu-se desvanecida. Mas, de repente, as suas feições crisparam-se e um langor mau se lhe acendeu nas pupilas, enquanto recuava um pouco para dentro da sacada, espreitando o largo. É que desembocara da rua Uruguaiana a sua irmã Olga, lépida e faceira, apertada num vestidinho de xadrez, balouçando, no andar onduloso a pasta das músicas; vinha sem dúvida do Instituto; e, nas suas águas, caminhava o Gilberto, muito elegante, trajando um pardessus cinzento de grande linha, cuja gola de veludo punha em destaque a sua face bonita e bem escanhoada, em que brilhava o bigodinho preto e curto, descobrindo-lhe os lábios vermelhos. Em breve, o rapaz alcançou a menina no centro do jardim do largo, entre os canteiros de flores multicores: e Celina, com duas rosetas de raiva nas faces, viu-os pararem bem defronte do seu campo visual, desfeitos em visos amáveis, apertando-se longamente as mãos. Conversavam agora, muito unidos; a Olga com os seus gestos provocantes de rolinha amorosa, o Gilberto mais grave, como era o seu costume, envolvendo a pequena na luz sombria dos seus grandes olhos de árabe... Ele devia estar solicitando qualquer coisa, que ela negava a meio, arrulhante, vermelha: e Celina, de cima da sua janela, sentia quebrar-se-lhe no peito a última resistência da sua passividade virtuosa, arrebatada ali pela onda revolta do ciúme que tudo lhe ia levando de rastos: medo, respeitos humanos, oscilações, timidez de mulher ainda inocente, afeição ao marido e aos filhos — tudo!

Até quando duraria essa indecente palestra no meio da rua, Santo Deus?! Ardia-lhe o rosto e, ao mesmo tempo, sem querer, ia evocando anti-palavras, antigos arroubos do Gilberto mofino da pobre, em casa da mãe, quando ela, soltei-fazia o seu crochet com ele ao lado, balbuciando-lhe madrigais e versos de Casimiro de Abreu ou de Álvares de Azevedo.Dizia-lhe, depois, enternecido:

— Nunca, nunca,poderei amar ninguém como te amo, Celina! És o primeiro amor deste coração virgem e, se me abandonares por outro, morrerei de dor!...

Quase morrera, com efeito, durante o seu noivado; e tinham-no visto revolver com desespero vidros de acônito e láudano no dia do seu casamento com o Galvão. E as últimas declarações, agora, ela já casada, por ocasião da convalescença do Raul em Santa-Teresa!...

Ali estava, entretanto, a namorar sua própria irmã, esquecido de tudo... Ah! os homens!... E se ele viesse a casar com a Olga, como poderia ela disfarçar a sua mágoa, o seu despeito e o seu ciúme aos olhos da sogra e do marido? Só de agitar essa possibilidade de uma união entre os dois, enterrava-se-lhe pelo peito adentro a lâmina fina e aguda de um estilete gelado.

Veio-lhe então um desejo, furioso indômito, de interromper de qualquer modo o tête-à-tête de Olga e Gilberto, que não era mais do que uma desfeita a ela, Celina. Como ferida por uma ofensa grave e no uso de um direito muito justo, varrendo do espírito a idéia incomodativa do marido, que viria buscá-la ali, dentro de uma hora, e ficaria espantado por não a encontrar, agarrou na mãozinha da filha, um pouco aturdida pela precipitação dos gestos da mãe, e desceu a escada do dentista com a pressa de quem vai apagar um incêndio pavoroso, onde perigam vidas. Mas ao chegar à calçada, estacou, deseperada, porque o par de namorados já não estava mais no local em que o deixara, no meio do largo. Que impudência! o olhar aflito se lhe volveu para um e outro lado, até que avistou o vestidinho de xadrez da irmã movendo-se na direção do ponto dos Carris-Carioca: e junto a essa graciosa saia trotteuse, caminhava o sobretudo cinzento de Gilberto... Iam, pois, à mesma hora para Santa-Teresa, como noivos, como um casal na lua-de-mel, sem constrangimentos, nem vexames!... E ela cativa, indecisa, combatida por mil sentidos disparatados!... Não, não hesitaria mais: ia avisar a mãe do que se estava passando tão escandalosamente. O Alfredo que se arranjasse, que também ela tinha deveres de família, competindo-lhe, como filha mais velha, zelar pela honestidade da sua verdadeira casa.

Puxou, então, pela mão da menina, que erguia às vezes a carita para olhar, estonteada, as diversas e bizarras expressões fisionômicas da mãe, e partiu no encalço dos namorados, que apanhou já dentro do elétrico a largar, na estação. Iam lado a lado, unidinhos: e Celina pulou para o banco da frente com a filhinha, voltando-se para mirá-los com a maior ironia. Tinha o rosto afogueado, luzindo-lhe os olhos negros. E Olga, que corara a princípio, perguntou-lhe logo, afetando desembaraço e estranheza:

— Por aqui, neste dia chuvoso? Que novidade te traz, minha cara?

— É verdade, balbuciou Gilberto, bastante confuso, sentindo o frouxo aperto da mão de Celina; não contava ter hoje o prazer deste encontro...

— Preciso falar com mamãe! respondeu apenas a moça, hostilmente, recostando-se no banco, a desviar a vista para a paisagem. Tinha como um zumbido na cabeça e o seu ato de insubordinação contra o marido começava aparecer-lhe agora sob um aspecto terrificante. Que faria o Alfredo? Que faria a sogra? Que faria ela própria, se a viessem buscar? Lançou aí um olhar para trás e surpreendeu um sorriso sarcástico de Olga para Gilberto, que continuava atrapalhado, numa atitude ambígua de homem disputado por duas mulheres, igualmente lindas e tentadoras. Logo a raiva se lhe reacendeu na alma, enxotando o susto, e ela se agitou nervosamente no banco. Que viessem o marido e a sogra — mas ela não voltaria agora: havia de sustentar o seu ato. A Olga não teria o Gilberto, mesmo que ela Celina, o forçasse a regressar para Minas. Assim pensado, a lembrança lhe acudiu do pequeno Raul que ficara em casa — e o coração se lhe apertou, de repente. E a Lucília?! O Alfredo e D. Margarida eram capazes de tirar-lhe a filha... Ah! mas isso, nunca, e por causa de uma precoce desaforada, como a Olga!...

Num mudo assomo, tornou a voltar-se, encarando a irmã — e ambas trocaram um fuzilante olhar inimigo.

A viagem, entretanto, prosseguia entre névoas tristes, o morro encarapuçado de nuvens plúmbeas, pressagas de chuvas, que velavam a luxuriosa beleza das rampas verdes, com a casaria branquejando numa irregularidade pitoresca de planos no meio de jardins suspensos e floridos. Poucos passageiros no carro. A Lucília adormecera, com a cabecinha caída sobre o regaço da mãe o chapéu de rendas resvalando sobre uma face e Gilberto teve de carregá-la nos braços, à subida para a casa de D. Adozinda, que as águas tinham tornado escorregadia.

Depois de entregar a menina à avó, que rompeu em fortes exclamações espantadas, à chegada imprevista de Celina, e quando o crescente murmúrio das vozes lhe provou que já explodira na sala de jantar a inevitável cena de família que o ridicularizava, Gilberto acendeu uni charuto e correu furtivamente a fumá-lo no jardim, ao abrigo dos maciços úmidos. Passeava de um lado para outro, costeando as lamas, a pensar muito seriamente que aquilo não ia bem e ele tinha por força de abraçar uma resolução. Mas qual? Desposar a Olga? Quebrou a cinza do charuto com a unha bem tratada de dedo mínimo e, abanando lentamente a cabeça, soprando a fumaça para o ar brumoso, em que fitou um olhar vago, inexpressivo, decidiu enfim consigo que isso, não, jamais! Um mineiro não casa com uma moça desse gênero, ou acaba matando-a, como um bruto, na hora da desonra.

A verdade, entretanto, é que a pequena era tentadora, estonteante — aqui um sorriso deslizou por seus lábios — com aquele corpinho branco e redondo, o modo de rir, os braços roliços, perfeita imagem do que a mãe devera ter sido em nova: e só esta idéia metia medo! E a irmã, essa Julieta emancipada, livre, de andar felino, que freqüentava casas de rendez-vous, ele sabia muito bem, para sustentar o chique das toilettes e dos chapéus, ressalvando apenas um último e pequeno detalhe contra veemências mais exigentes, porque, dizia ela com irônico desplante, sempre era bom prever o possível aparecimento de algum pretendente a marido, a quem reservava as glórias da completa vitória. Os rapazes tinham-lhe até posto um apelido: ela era a senhorinha Isso não! aliás fria, unicamente venal. E ali vivia com o rótulo de solteira, professando doutrinas imorais, cínica, profanada, ao lado de uma mãe matreira, que fingia classificar todos esses desmandos na ordem de excentricidades americanas, sem maior alcance. A Julieta sempre fora desde pequena uma esquisita, uma revoltada, uma independente...

Que independência!...

Assim, pois — e Gilberto entrou a acompanhar gravemente com a vista a ginástica de um gafanhoto, trepando por uma roseira — assim pois, a idéia de um casamento era impossível nessa família. Outra coisa, porém, — deu um piparote no inocente inseto, que tombou do galho — significava uma responsabilidade, que podia determinar esse mesmo desastre: uma união legal...

Então, que lhe restava?... Mudar-se, ou partir imediatamente para Minas... Mas estava ali tão bem, que diabo! Apressou os passos no meio das poças moles das ruas do jardim, lançando fora o charuto, que se apagara, com uma saudade já viva daqueles horizontes familiares, da liberdade que enfim ali fruía na convivência de mulheres amáveis, sem rigorismos — saudade, sobretudo, das impressões românticas, inesquecíveis, que a sua adolescência colhera sob esse teto, e tão docemente, junto à Celina — o lírio da casa!

Parou, enternecido, olhos no chão, aspirando o conhecido aroma dos jasmins aljofrados de gotas de chuva, até que a malícia lhe distendeu de novo a face, que se melancolizara ao peso das recordações, e ele se surpreendeu a murmurar quase alto, sorrindo: «Ainda lírio, sim! mas doida por me largar nas mãos as pétalas da virtude... E por que recusarei o régio presente? Medo do marido e das complicações? O fato é que as pupilas dela me inquietam... «

E recuou, porque essas pupilas justamente ali apareciam, entre as ramagens, no lusco-fusco chuvoso, mais brilhantes, mais negras e largas, como vermelhas agora de choro, a procurá-lo, a chamá-lo... Não podia esconder-se, e Celina o avistou, por fim, correu a ele, a dizer-lhe, num tremor, numa precipitação:

— Escute, Gilberto... Em nome do passado, quero pedir-lhe uma coisa... Não recusará, não é?... Não é?...

Ele, abalado por essa voz trêmula, por esse modo incoerente, prendeu-lhe as mãos frias, ousou mesmo afagar-lhe os cabelos a meio desmanchados, respondendo-lhe como a uma criança em tom de mimo, embora intimamente ansioso:

— Decerto, Celina... Mas que é isso? Sossegue, fale... Que posso eu negar-lhe?... Diga...Mais nervosa, ela prosseguiu:

— Então, Gilberto, faça-me este favor: vá a, vá embora para Minas, pelo amor de Deus, senão eu me perco, eu cometo uma loucura... Ouviu?...

Ele olhou-a, adivinhando o duelo que tivera lugar entre as duas irmãs; e Celina, então, com um soluço histérico, fechando as pálpebras, de que pingavam lágrimas, atirou-se-lhe contra o peito, dizendo com raiva, entre os dentes cerrados:

— A Olga quer você, mas eu não consinto que você seja da Olga... Nem meu, nem dela, senão eu arrebento tudo, apre!... Vá-se embora, Gilberto!... Vá-se embora!...

Seus braços faziam o gesto de repeli-lo, mas ao mesmo tempo o puxavam para si, num exaltado amplexo, até que o moço, desvairado pelo contacto desse corpo palpitante de mulher, pousou um profundo beijo na boca semi-aberta, cujo hálito o queimava, balbuciando, tonto:

— Tu ainda me amas, Celina?... Pois eu também te quero... muito!... Só a ti!...

Mas ela abriu de repente os olhos, como acordando de um delírio, e desprendeu-se vivamente do abraço dele, dizendo baixo, a compor o penteado:

— Estou doida, não há dúvida!... Foi a cena com a Olga que me pôs neste estado, foi... Aquela peste!... aquela má!... Não, não me pegue mais, Gilberto!...

E recuando ante o moço, que tentava novamente enlaçá-la juntou as mãos, pediu mais súplice ainda, os olhos arrasados de água:

— Pelo amor que você me teve, Gilberto, volte para Minas, sim meu bem?...

A sua voz quebrava-se dolente, e ele, arrastado, protestou.

— Amor que ainda te tenho, Celina! E por que não havemos de ser felizes, a despeito das convenções que hoje nos separam? Quem saberia, dize?... O mistério torna a paixão mais divina... Fala — chegou-se mais a ela, com ar persuasivo — queres ser minha? Eu verei um lugar seguro onde nos encontremos, uma hora, meia hora, minutos que sejam, meu amor, meu amor!...

Mas um riso cruel de ironia arregaçou o lábio de Celina:

— E Olga?...

Ele esboçou um gesto de enfado, que arremessava a pequena para longe, nesse momento inoportuno, e exprimia também o seu despeito por sentir Celina agora lúcida.

— Ora, disse bruscamente, não insistas... São tolices... Prometo ser só teu. Que queres mais?...

Ela tornou:

— E meu marido? meus filhos?...

Seus olhos refulgiam incertos, aflitos, e Gilberto experimentou ainda o vago arrepio de susto que lhe causavam sempre agora as pupilas da moça. Contrariado, mais frio, ouvindo já os conselhos da prudência, ia responder qualquer coisa, quando Celina, de olhar dilatado, varando o interior muito iluminado de um elétrico que vinha dobrando a rampa da estrada, lá embaixo, apontou para o bonde e gritou, dissimulando-se atrás dos canteiros, um pânico, como se não bastasse a escuridão crescente para escondê-la:

— Alfredo vem ali, meu Deus! Não diga, não diga que estou aqui... Vou ocultar-me com Lucília no quarto de mamãe!...

Ligeira, apanhando as saias, deslizou pelo meio dos maciços, tortuosa e felina, olhando a cada passo para trás, até que se sumiu na casa.

A chuva fina recomeçara, levantando uma suave fragrância de antas molhadas; e Gilberto compreendeu que pareceria esquisito ao marido de Celina andar ele a cismar pelo jardim, sob os borrifos da água e ao cair da noite. Tratou pois de caminhar naturalmente na direção da sala de visitas, ouvindo, quando aí chegava, os passos do Galvão subindo as longas escadas dos terraços e parando às vezes. Encostou-se depressa no umbral da porta, fingindo acender com despreocupação um novo charuto, enquanto remoia o aborrecimento de todas essas cenas, inimigas do seu egoísmo de rapaz rico.

Oh! as mulheres!... Mas, de repente, sentiu uma espécie de enleio, uma aversão profunda a qualquer encontro imediato com Alfredo e cerrou devagarinho a porta, antes que o outro surgisse em cima: depois, encostado à veneziana, também fechada, viu Galvão assomar no jardim e deter-se sob a amendoeira, contemplando tristemente a velha casa, até que a torneou para ir falar à sogra. Vinha grave e pálido, mas sem hesitações, ao afrontar a dolorosa conferência, em defesa do seu amor de marido.

E Gilberto, descontente, como que se achou humilhado e inferior, diante do ar tão digno desse esposo ridículo que ele pretendia enganar...

A verdade é que Alfredo Galvão tinha ficado atônito por não encontrar a mulher no gabinete dentário do Morais, quando ali fora buscá-la. O dentista, porém, logo veio contar-lhe, rindo-se, que não descobrira a mínima cárie nos dentes esplêndidos de Celina e incontinenti a despachara.

— De modo que ela, sem dúvida, não havia tido a paciência de esperar tanto tempo por ele. A menina, talvez, entrasse a aborrecer-se...

— Com certeza, concordou Alfredo, apertando-lhe a mão.

E saiu, longe de qualquer suspeita, conquanto um pouco desapontado, porque viera afagando a idéia de fazer uma surpresa à mãe e à filha, oferecendo-lhes um lunch na confeitaria próxima do largo da Carioca. A Celina era doida pelos sorvetes de creme e Lucília adorava os éclairs macios, que lhe lambuzavam toda a carita esperta e voraz de chocolate açucarado. Umas lambisqueiras! Pois senhoras gulosas, tinham perdido essas boas coisas por sua própria culpa! E, antegozando a decepção de ambas, os se eu soubesse: ou os Ora, papai, que pena! Alfredo entrou pela casa com uma risonha malícia, gritando do meio do corredor, num tom de falsete:

— Lucília! Raul!... Lá, lá, iú!...

Era uma espécie de tirolesa que ele inventara, como senha, para avisar as crianças da sua chegada; mas só o Raul e D. Margarida vieram ao seu encontro esta muito admirada, a olhar se alguém o seguia, indagando:

— Que é isso? Então Celina e a pequena não estão contigo?

Ele pasmou para a mãe, de repente pálido:

Como? pois minha mulher não chegou

— Não! Celina não está aqui, nem também a Eu pensava que...

— Oh! interrompeu Alfredo, parando à entrada da sala de jantar, então... então... — Relanceou o olhar em torno e afirmou, em tom mais veemente: — Então, estou desgraçado! Agora compreendo!.. Minha mulher fugiu com a filha, do gabinete do Morais, para a casa da mãe... Uma tramóia!

— Jesus, meu filho!... que idéia!... protestou a mãe pondo as mãos de susto.

— Fugiu, minha mãe, fugiu! Era coisa arranjada... O dentista foi uma história, um pretexto — e dali ela se safou para Santa-Teresa. Com que fim, porém — apertou as fontes com os dedos — eis o que não descubro... Sucedeu aqui alguma complicação? Vocês... vocês brigaram, minha mãe?... Diga, diga com toda a franqueza, eu lhe suplico!...

E avançou para D. Margarida, implorativo mas traspassando-a com olhos inquisitoriais a que o sangue da tensão cerebral afluía. Tinha atirado inconscientemente o chapéu para a nuca; e o Raul, vestido com uma camisola de flanela vermelha, os pés gordinhos metidos nuns sapatos rasos de couro amarelo, presos por um botão e já acalcanhados, como visse o pai assim alterado, achou-lhe graça e disparou num fresco riso, cabriolando à roda da mesa e fazendo estalar um velho chicote que trazia à mãozita.

— Sossegue, menino! vá lá para dentro! gritou Alfredo, não se contendo mais, numa angústia. D. Margarida, entretanto, respondia tristemente, a fazer com os dedos trêmulos e nodosos uma solene cruz:

— Por Deus, que não se passou aqui nada de anormal, meu filho! Celina saiu até contente, risonha, a brincar com a filha... Disse-me adeus ali da porta...

— Mas então?

— Então, é que nada há do que suspeitas. É talvez mais outra leviandade igual àquela que trouxe tão terríveis dissensões ao nosso lar; e tua mulher não tardará a voltar com Lucília, um tanto confusa, mas explicando o seu passeio. Vais ver...

Alfredo ouvia, torcendo nervosamente a corrente do relógio, de olhos a cada instante volvidos para o corredor, numa crescente alternativa de sentimentos; mas não deixou a mãe concluir, atalhou-a com veemência:

— Qual! aqui há coisa — e vem de longe! Não é o que a senhora pensa... Que diabo de passeio pode ser esse? O Morais me disse que a despachou logo às duas horas, pois nada lhe encontrou nos dentes — Celina estaria na rua, sozinha, até agora, a girar sem licença minha? Ora, qual! — teve um riso agoniado — qual , minha mãe! Celina está, mas é em Santa-Teresa, no meio daquela corja por que vive a suspirar... Quem sabe até...

Deu um pulo no direção do quarto e a mãe partiu no seu encalço, assustada, aflita...

Ele procurava qualquer objeto sobre a mesa da cabeceira da cama conjugal, sobre a cômoda, sobre o toucador. Acabou revolvendo gavetas, armários, roupas, até que caiu extenuado na beira do leito, ainda com o chapéu para a nuca e uma face de desespero.

— Mas que procuras, filho? ousou perguntar D. Margarida.

— Alguma carta, algum aviso que ela me tivesse deixado aqui, antes de cometer a loucura...

E arremeteu do novo para a sala de jantar, gritou, todo transtornado:

— Joana! Faustina!...

Acudiram as duas raparigas, assombradas com o tom de voz desse patrão, que era tão manso de ordinário, sempre tolerante e agradável; e ele inquiriu febrilmente, perscrutando-lhes a fisionomia, se a senhora não lhes teria falado, por acaso, em... passar... uns dias em Santa-Teresa, com a menina... Levara ela algum embrulho de roupas?

A Faustina, empregada moderna, respondeu com importância que D. Celina não tinha tido a intenção de ficar fora de casa. Ela jurava... Antes de sair, até ralhara por causa das rendinhas descosidas do vestidinho de D. Lucília e lhe dera a ordem de consertar isso logo à sua volta, antes de guardar as roupas no armário. Mas a Joana, cozinheira velha, que conhecera Alfredo pequeno, resmungou, toda trombuda, enxugando os braços retintos ao avental:

— Ué, nhonhô!... entonces sua mulher havéra de ter ido lá p'ra riba sem licença de vosmincê? Deixa: moça não tarda aí com a pequena...

— Bem! bem! resumiu Alfredo, impaciente, enxotando-as com o gesto; podem ir!...

— E olhem! ajuntou D. Margarida, tragam o jantar...

Sem querer, malgrado a gravidade sem ainda solução do imprevisto acontecimento, a velha acariciava com a vista os dous únicos talheres para adultos que iam servir, com a cadeirinha alta do Raul no meio: e uma inconsciente doçura egoística acampava na sua alma combatida, dolorosa esperança obscura, velada a si própria, de tornar talvez a viver sozinha com o filho, como d'antes, sem culpa sua na derrocada do casamento infeliz; ânsia de consolar o aflito, de encher a sua pobre vida de tanto afeto e tanto conforto, algodoando-lhe de ternura maternal os dias e as noites, que ele terminasse por esquecer a esposa caprichosa, ingrata e perversa. Já a sua mão afofava o guardanapo do filho idolatrado, dispunha a cadeira, quando Alfredo enterrou o chapéu na testa, abotoou o paletot com decisão e marchou para o corredor, dizendo laconicamente:

— Eu vou lá!!!

— Onde, meu filho?

E D. Margarida correu atrás dele com as pernas trôpegas, um grande frio a traspassá-la, todas a suas esperanças jazendo por terra, como folhas apenas nascidas em uma velha árvore e logo arrancadas por um pé de vento que as vai levando em torvelinhante giro.

Então Alfredo, com os dedos magros já no fecho da cancela, voltou para ela o seu rosto desfeito, cansado, murcho, onde a sombra das cavidades faciais, avultada pela contração dos músculos, desenhava em negro a forma da caveira; o próprio olhar, sempre tão meigo, única beleza dessa fisionomia esbatida, aparecia mudado, com uns toques de desvairamento: e ele disse, assim virado ra a luz frouxa do patamar:

— Vou a Santa-Teresa... Minha mãe compreende que isto não pode ficar assim... Se é a separação que Celina quer, tem de entregar a filha, que é minha... Descanse, eu vou com muita calma...

— Mas é a luta, meu filho!...

Ele encolheu os ombros com resignação.

— Toma ao menos umas colheres de sopa... Estás tão pálido!...

Dos degraus da escada, que já descera, Alfredo acenou que não, que não podia: e, fitando longamente a mãe, teve um suspiro ansiado, como se lhe faltasse ar aos pulmões confrangidos, e partiu, rápido, não desejando mais nada ouvir, nem dizer...

D. Margarida ainda se demorou de vistas irresistivelmente presas à volta da escada em que ele se sumira; depois, com essa imagem da dor atravessada na alma como uma ponta lancimante de ferro correu em passos miúdos para o próprio quarto, atirou com a porta e foi jogar-se pesadamente de joelhos, com um ruído seco de ossos no assoalho, arrimando-se a uma cadeira, defronte de um pequeno oratório sobre a cômoda, onde uma Nossa Senhora das Dores com o seu manto roxo constelado de estrelas de ouro, o gládio de prata enterrado a meio no coração, parecia contemplar com serena piedade o sofrer humano dessa outra mãe que vira morrer, não um, mas cinco filhos amados.

Os lábios secos da viúva moviam-se ansiosamente, e ela rogava, de mãos postas, olhos na santa:

Virgem Santíssima! bem sei que não pratico os deveres da religião, não vou à missa, não me confesso, nem comungo... Mas Deus sabe que esta minha alma não aninha sentimentos maus, e só um único pecado acoberta: o ciúme egoístico do último filho que a bondade divina me deixou, que eu criei a estes peitos, velei na moléstia, confortei na pena e é minha exclusiva alegria na terra. Tive zelos da esposa que ele trouxe para esta casa; vi com olhos rancorosos a minha substituição por outra na ternura dos seus afetos; alimentei talvez a odiosa e vil esperança de senti-lo desapontado no seu amor de marido e voltando a procurar o inteiro consolo na minha dedicação de mãe extremosa... Mas, oh! Virgem Piedosa! se é verdade que tão feios sentimentos nodoaram o meu coração fraco de pecadora, vós que tudo vedes do vosso trono de glória, vós sabeis que sempre lutei contra os instintos baixos do egoísmo materno e meus atos foram pautados pela justiça, foram desinteressados, isentos de qualquer torpeza. Se sofri, foi em segredo; se combati, ninguém percebeu; se me revoltei contra a causa da minha deposição neste lar, logo me arrependi.. Mas pequei, pequei, é certo, por excesso de amor e ciúme... Pois bem, perdoai-me Senhora das Dores! e salvai meu pobre filho da agonia em que ele se debate, que eu juro imolar aos vossos pés dementes as últimas resistências do meu sentir egoístico. Meu filho é fraco, débil, espírito sem vigor que ama e não domina; que verga às dores da vida sem a coragem de suportá-las com animo viril. Ele morrerá, se a esposa o abandonar!... Oh! Mãe Santíssima! salvai meu filho, meu último e amado filho, iluminai a alma criminosa dessa mulher que o tortura, trazei-a ao seu marido, à sua casa — e eu to triunfar dos meus zelos, do meu rancor, das minhas lágrimas, dos meus egoísmos de velha... Prometo até...

D. Margarida teve um curto soluço, dobrou-se mais sobre a palhinha da cadeira em que se amparava e concluiu, mais baixo, numa tremura de todos os membros:

— Prometo até sair daqui, afastar-me, ir morrer para longe, sozinha, abandonada, se assim for preciso para a felicidade dele, do meu filho querido — o derradeiro que Deus me deixou!

Ainda um cicio de rezas, um ultimo olhar implorativo e longo à imagem de Nossa Senhora, em cujo manto roxo o doce fulgor das estrelinhas douradas se apagava na crescente obscuridade desse quarto de viúva, árido e triste — e D. Margarida conseguiu erguer-se após três ou quatro tentativas dos seus joelhos anquilosados, perros, doridos, firmando-se no encosto da cadeira, e caminhou para a porta, cambaleante, mas confortada, cheia de dores, fraca, abatida por tantos abalos morais, mas levando no fundo da alma a exaltada semente dos sacrifícios que derrubam muralhas...

Alfredo Galvão, no entanto, seguia no elétrico pelo aqueduto fora, encolhido a um canto, recebendo na face lívida os chuviscos frios açoitados pela corrente de ar, que o traspassavam de alfinetadas finas. Nada sentia, senão um imenso cansaço e uma espécie de vertigem entretida pela tensão das mil conjeturas que o seu cérebro continuamente agitava: e era numa quase inconsciência que tirava de quando em quando o lenço do bolso para enxugar o rosto ou esfregar as mãos regeladas, cuja temperatura vagamente o aborrecia. A cidade, embaixo, aparecia-lhe através de uma bruma chuvosa, tão densa como a que lhe empanava as idéias; e o céu triste e ameaçador, em que corriam rolos de nuvens escuras, não era mais impenetrável do que a feição dos fatos que lhe tinham tão imprevistamente perturbado a normalidade dos hábitos. Por que desaparecera Celina com a filha? Haveria premeditação nesse ato inexplicável? Ocorriam-lhe, porém, lembranças de noite, e alegria do acordar, quando ele autorizara a ida ao dentista, espreguiçamentos felinos dela no leito, com os dentinhos brancos à mostra, certas intimidades — ela, de saia, esbelta e serpentina, prendendo as tranças rebeldes em frente ao espelho, de colo nu e braços erguidos coisas familiares, risos, projetos comuns, que desnorteavam as suas suspeitas de um plano preparado habilmente, com antecedência e jeito. Ao mesmo tempo, voltavam-lhe à memória certos olhares oblíquos e fugitivos de Celina, as horas más, as suas palavras cruéis de ameaça e revolta, friezas, desesperos concentrados, essa saudade latente da existência tumultuosa da mãe e irmãs, as cenas desagradáveis com D. Margarida — e todo ele tremia, sob a apreensão de alguma desgraça decisiva. E se ela não quisesse mais voltar para a sua companhia? só ao pensar nisso, Alfredo experimentava a dor atroz de uma agonia — e agitava-se no banco do elétrico, penetrado por uma sensação congelante de desmaio moral. A filha não lhe dava cuidado: ele intentaria incontinenti uma ação judiciária para que lha entregasse — e haviam de entregá-la, por em ou por mal. Mas ela, ela, Celina, sua mulherzinha, a única que ele amara no mundo, e com que extremos! a sua companheira de cinco anos, única emoção feliz da sua vida esbatida, incolor, mãe dos seus queridos filhinhos — como poderia o seu coração dispensá-la, habituar-se a sua falta, se a ingrata lhe fugisse? Que lhe tinha feito, finalmente? Fora sempre bom, temo, talvez fraco — como dizia a mãe — não lhe sopitando desde o princípio os assomos do mau gênio; mas isso de sogras, são todas as mesmas. Levam sempre a descobrir nas noras mil imperfeições, exigindo uma beleza moral que não é humana; e o resultado...

Alfredo teve aqui um suspiro ansioso; as feições se lhe contraíram; e ele pôs-se a pensar que, se ele e a mulher morassem sozinhos, Celina talvez se houvesse mostrado outra, mais doce e mais contente, como dona absoluta do seu lar. Pelo seu espírito perpassou o popular provérbio: quem casa, quer casa... No mesmo instante, sentiu o amargo horror de uma ingratidão nefanda, de um legítimo sacrilégio: e o arrependimento, o remorso, a convicção atroz de haver cometido moralmente o mais injusto dos crimes contra a mãe excelente e digna que o cercava de amor, tolerando a nora caprichosa e grosseira com uma paciência filha desse grande amor — todos esses sentimentos o assaltaram, com uma violência que se tornou intolerável à sua alma débil. Escapou-lhe um gemido supliciado. Ah! que lhe importava tudo?!... que ele queria, era Celina, era o seu corpo trigueiro de cobra, era o calor saboroso dos seus beijos, a sua presença contínua, essa vida presa à sua até a morte. Como a amava, Santo Deus! apesar dos cinco anos de casamento, dos partos, que segundo a voz corrente, arrefecem a paixão dos maridos, e das desigualdades de caráter e educação entre ambos! Mas ela?... Num lampejo, como se se rasgassem as nuvens pesadas do horizonte que ele fitava, Alfredo entrevia em fúlgido clarão a sua indiferença culpada — e uma imagem lhe apareceu, tão cruel, que a sua vista a evitou, como figura palpável, desenhada no ar com um relevo humano: a imagem de Gilberto, antigo comensal da casa, agora formado, rico, bonito rapaz e enchendo a pensão de D. Adozinda com os perigos da sua sedução de homem interessante. Lembrou-lhe a entrevista no jardim, que a sua chegada interrompera no domingo em que fora buscar o Raul convalescente. Lembrou-lhe o mau-humor dela à partida, nesse dia... E um furor imenso o agitou... Mas nada transpirava na sua aparência desse fundo desespero, continuava encolhido, murcho, as mãos nos bolsos para aquecerem, a face exposta aos chuviscos gelados que a fustigavam, indiferente aos borrifos cortantes, e ao frio.

Surgiu finalmente a curva da estrada e Alfredo apeou-se e galgou, lento, as escadarias do hotel da sogra, verdes de limo, esquecendo-se de abrir o guarda-chuva e parando no centro do jardim entristecido pelo mau tempo, para olhar a velha tabuleta: Aos belos ares! onde as letras se apagavam, por não serem repintadas, sob a ação prolongada dos muitos aguaceiros recebidos nos verões de água e trovoada. O bonde sumia-se em baixo, nos trilhos reluzentes e entre as folhagens gotejantes dos muros, com uma vibração cromática. Do grande pé de manacá, dos galhos folhudos da amendoeira, de cada ramagem luzente de água, tombavam gotas claras, espaçadas, numa cadência musical, suave e argentina. Ao longe, a cidade e o mar esbatiam os seus planos numa névoa grisalha, fumaça confundindo cúpulas de igrejas e telhados de edifícios particulares, ruas e praças, jardins, tudo quanto se desenha e brilha à claridade viva do sol, agora afagado nessa luz crepuscular do céu brumoso, antecipando, a noite. Num terraço ajardinado de moradia vizinha, o alto perfil de uma árvore esgalhada esboçava em sépia o vago contorno de uma mastreação de navio, emergindo das fantásticas vagas de neblina. Um aroma adocicado de plantas úmidas errava no ambiente. E a casa de D. Adozinda , entre esses limos esverdeados, essas poças de água, essas ramagens chorosas, o horizonte escurecido, a melancólica fragrância das rosas que se desfolhavam, a magoada música dos pingos de chuva, parecia mais decrépita, mais triste, com a sua sala da frente toda cerrada, em que as vidraças descidas punham um ar de mistério.

Alfredo Galvão, de coração apertado, esteve a mirar o aspecto desse lugar em que o amor o enleara, fremente de esperanças, e aonde o mesmo amor hoje o trazia, mas vergando à desconfiança e ao terror: deu volta, depois, ao prédio, subiu três degraus e bateu com o cabo do guarda-chuva na porta envidraçada da sala de jantar, já iluminada, em cujo centro a mesa posta alvejava, muito alegre, com ramos de flores e a fruteira central cheia de laranjas cor de ouro, entre duas compoteiras de doce e uma travessa de aletria.

Veio abrir-lhe a própria sogra, embrulhada num xale, soltando, ao vê-lo, exclamações de um espanto exagerado, em que Alfredo sentiu afetação, uma ponta mesmo de embaraço. Ele, ali, àquela hora?' Que tinha acontecido? Entrasse, que vinha a calhar: era a hora de jantarem. E partiu a gritar, como avisando:

— Julieta! Olga! olhem quem está aqui: o Alfredo!

Ele atalhou-lhe a exuberância das palavras, dizendo com um tremor nervoso na voz:

— Deixe, não incomode... Vim só buscar Celina e minha filha...

— Celina? Celina? Mas ela não está cá...

Fitaram-se: D. Adozinda, com uma vermelhidão viva nas faces; Alfredo, tentando ler-lhe na alma a razão dessa mentira, que o desesperava. Tomou, enfim, mais irritado:

— Sei que minha mulher veio para a sua casa, ao sair do dentista...

E atabalhoou a história do ajuste dessa manhã e da sua surpresa ao não encontrar mais Celina no Morais, quando subira a buscá-la.

— Com que desígnio, porém, minha mulher faltou à nossa combinação, me desobedeceu e veio para Santa-Teresa, eis o que ainda não sei, rematou Galvão, mas preciso saber. É para isto que me acho aqui, pedindo-lhe que chame Celina. Quero falar-lhe imediatamente. Demais, se se trata de uma loucura, ela não podia trazer consigo a filha, que é minha e tenho o direito de exigir, agora mesmo. E a senhora — avançou mais um passo, muito pálido — a senhora veja o que faz, que ainda há leis...

D. Adozinda, que o escutara com uma rápida sombra de vacilação na face nutrida, mudou de atitude diante desta ameaça e encolheu os ombros possantes, alteando com arrogância:

— Homem, essa!... você está doido? Que tenho eu com sua mulher, e que ela não viva feliz no cárcere da rua das Marrecas, aturando o que o diabo não atura?... Você me deu Celina para guardar? responda...

Toda a vulgaridade da sua natureza rompia no estridor da voz forte, enquanto, de olhos fuzilantes, ia traçando e destraçando o xale, a prosseguir:

— Você mete o passarinho na gaiola de ferro e não quer que o passarinho fuja, hein? É muito boa! O que eu não admito, são histórias em minha casa, onde tenho hóspedes sérios...

— Mas... tentava dizer Alfredo, infeliz, desorientado, já mal se sustendo nas pernas trêmulas, por emocionado e inanido.

— Qual mas!... E isto. Pensa que sua mulher e sua filha estão aqui? Pois procure e não se ponha com ameaças...

Jeitosamente, entretanto, ela tomava a dianteira do genro, elevando tanto a voz, que Julieta e Olga acudiram, falando entre si, e atrás foram aparecendo alguns hóspedes sobressaltados ou curiosos — as duas velhotas do tempo de D. Eufrásia, de olhinhos arregalados, e Gross, pesado e fleumático, um Miranda, com loja de papel, que agora por lá andava, outros adventícios, e, enfim, o Coronel Juvenato, furioso com a perspectiva de algum possível escândalo, que o atingisse e decidido até a intervir, se o caso se complicasse.

O Alfredo, então, à vista de tanta gente, abateu sobre uma cadeira, lívido, pungido pela sensação do ridículo que o esmagava. A criada, de resto, entrava com a terrina fumegante de sopa. E D. Adozinda, com um sorriso desdenhoso, explicou, no laconismo de uma cólera que já amansava, conciliadora e amável, sem rancores, que não valiam a pena:

— Asneiras!...

Foi bater no ombro do genro, dizendo com a generosidade fácil de quem dissipa nuvens:

— Venha jantar, ande!...

— E, corroborou o Gross, rindo lorpamente, o senhor venha jantar...

Mas Alfredo, pondo-se de pé, volveu ainda um olhar suplicante e doloroso para a sogra:

— Então, deveras, murmurou baixinho, elas não estão aqui?

— Não, respondeu ela alto... E não se aflija... Você terá notícias...

— Notícias?!... repetiu o rapaz, num assombro ansioso. Mas então?...

Fez um gesto de louco, agarrou no chapéu e atirou-se para fora, perdidamente, numa ânsia de fugir às reticências perversas que o matavam a fogo lento, mas não sem ouvir, apesar da sua alucinação, que Olga dizia atrás dele, num protesto:

— Oh! mamãe! coitado!...

A voz sonora da viúva rugiu sarcástica:

— Boa viagem! Não amole!...

E a porta envidraçada cerrou-se; bateu igualmente a outra interior, de madeira, como protegendo a casa contra um malfeitor; e, na súbita escuridão sucedendo à claridade forte da sala, Alfredo tropeçou na beirada de um canteiro, caiu sobre os joelhos na grama molhada e ficou assim vergado, imóvel, para reunir as forças que lhe estavam faltando, a sentir uma horrível tremura no corpo todo e um peso imenso na cabeça. Latejavam-lhe as artérias e ele arfava, olhando em torno com as pupilas angustiadas. A noite fechara-se. No grande silêncio aromático do jardim imerso em sombras, só os pingos de chuva continuavam o seu canto monótono e doce, rolando, espaçados, das folhagens; caía uma gota aqui, outra ali, numa adormecedora toada, um ou outro trilo abafado de insetos, partia das ervas úmidas e logo se calava; e os jasmins túmidos de seiva, enchiam o ar de perfume, como dantes na sua luxuriosa e egoística passividade de plantas indiferentes ao sofrimento humano.

Então, grudando a testa ao tronco orvalhado de uma arvoreta, Alfredo chorou, invocando a proteção da mãe, tão fraco, em frente à luta encetada, como a mais débil criança. Uma lufada de vento frio sacudiu as ramarias alagadas, borrifou-o todo da chuva acumulada nas folhas — e ele imóvel, não podendo conter as lágrimas, deixando-as misturarem-se aos salpicos dessa aspersão regelante:

— Que lhe fiz eu?... soluçava abafadamente, erguendo-se agora da terra mole com o vagar trôpego de um doente anquilosado em todos os seus membros.

Nesse momento, rompendo o mistério calado da noite, uma voz clara de criança vibrou dentro de um dos quartos da casa, varando a espessura das venezianas trancadas: e Alfredo hirto, radiante, lívido, enlameado, de olhos muito abertos na treva, reconheceu, num tremor de emoção, a fala da filhinha, que indagava, em tom ingênuo e curioso:

— Mamãe, por que é que nós não vamos jantar à mesa?

Celina respondeu qualquer coisa em voz mais baixa — e o silencio recaiu. Deviam ter saído do quarto: deviam julgá-lo já longe...

Ah! mas então estavam mesmo ali, estavam, estavam... Ele não se enganara! E, de súbito reanimado, por se sentir fora do abismo de incerteza em que havia agonizado; certo de poder agora agir só porque ouvira essa vozita querida que lhe abrigara o céu da esperança, vozita da carne da sua carne, fruto do beijo inapagável que o ligara à Celina para todo o sempre, Alfredo virou-se para a porta da sala de jantar e apostrofou mentalmente a sogra e as cunhadas, rilhando os dentes de cólera:

— Corja! veremos quem vence!...

E despenhou-se pelos dois lances da escada, ainda apanhou um elétrico que descia e encolheu-se de novo a um canto de banco, abotoando o paletot molhado, cuja gola ergueu, transido. Em breve, com o estômago vazio e uma enxaqueca atroz, foi sentindo decrescer no seu íntimo toda a exaltada e confiante febre do minuto precedente. Que diabo! elas estavam lá, é fato, mas Celina subira por instigação de algum motivo que ele continuava a ignorar — e finalmente desafiando a sua autoridade marital... Logo, fugira por sua livre vontade e podia bem não querer mais voltar. Então, a que vinham tamanhas alegrias, só porque ouvira a voz de Lucília confirmar as suas dolorosas suspeitas? Ah! decididamente, ele nunca passaria de um imbecil por amor! E, numa reação de todas as fatícias energias, infeliz, abatido, cor de cera, o marido de Celina foi cair como um corpo sem alento nos braços da mãe, que o esperava angustiosamente; e os seus suspiros diziam:

— Estão lá, mas não as vi... Minha sogra mentiu-me, injuriou-me, chamou esta casa de cárcere e por fim trancou a porta atrás de mim...

A velha endireitou-se, de olhos rutilantes:

— E tu, meu filho, que fizeste?

— Nada. Que podia fazer? Fugi, chorei, caí na escuridão, misturando meu pranto com a chuva que me alagava...

Os olhos da velha redobraram de ardor:

— Não varaste então esses quartos?...

— Não, fugi...

— Não arrombaste a porta? não arrancaste a tua esposa e a tua filha a essa influência criminosa?...

— Não, não pude... Era a luta...

A velha fitou longamente essa fraqueza que se revelava, sem véus. Viu o filho todo encharcado de chuva, a cair de debilidade e dor, com os meigos olhos suplicando-lhe apoio, ternura, consolo, remédio; e o seu orgulho vergou, vencido pela compaixão. Como a um ser pequenino, ela atirou-se a ele, beijando-o vorazmente nos cabelos úmidos, nas faces pálidas, nas pálpebras doridas, pesadas... Esse filho era um débil? tanto melhor, porque lhe deveria sempre a felicidade — e todo o seu peito maternal se se entumescia sob a ânsia generosa de um esforço e de uma abnegação que reconstituíssem o lar ameaçado, onde ele precisava encontrar o seu amor inteiro. Carinhosamente, foi levando-o para o seu próprio leito, afim de que ele não sofresse com a frialdade da cama conjugal, mais vasta essa noite, na insólita solidão; e quando o sentiu confortado pelas suas palavras, a mão esquecida entre as suas, como outrora, em criança, no saudoso e distante passado, D. Margarida curvou-se para o beijar na testa e embalou o seu sono com esta promessa solene:

— Eu trarei tua mulher... confia e dorme...

Gaguejante de cansaço, ele ainda balbuciou, num torpor:

— Ação judiciária... . Houve abandono do domicílio conjugal...

Mas a mãe sacudiu os ombros com impaciência:

— Cale-te, não digas tolices... Ação judiciária é lá pra ti, que não admites viver sem ela? Conciliação, persuasão – eis a única arma. Há de haver primeiro a luta, mas Deus é grande e me ajudará. Dorme, dorme...

Alfredo adormeceu. A velha, então, retirou docemente a mão dentre os dedos dele, foi diminuir a chama da do gás e instalou-se na antiga poltrona do marino, para velar esse sono inquieto, penoso, entremeado de suspiros e estremecimentos nervosos. Lembravam-lhe outras vigílias, quantas! Junto a leitos mortuários onde formas queridas se enrijavam ao clarão trêmulo dos círios, e enxugava de vez em vez uma lágrima, seguida de outra, de outra, de outra mais.... Ah! deveras. O amor das verdadeiras mães é feito de espinhos agudos!