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A Luta por Emília Moncorvo Bandeira de Melo
Capítulo XI


Ao tornar do embarque do Dr. Padilha, pelas três horas da tarde, após o Champagne do lunch a bordo do Ceará, o Coronel Juvenato subiu para Santa-Teresa e encontrou Celina sozinha na sala de visitas, balouçando-se indolentemente na velha cadeira austríaca, de braços erguidos e as mãos encruzadas atrás da cabeça.

Estava um dia ensolarado, mas tristonho, sem brisas, sem um bulir de folhas, com um ou outro chio de cigarras sonolentas vindo a espaços do arvoredo imóvel. Umas faixas de nuvens cobreadas se alastravam no extremo do horizonte, ainda longe, não obscurecendo o sol: mas a paisagem acidentada do morro se recortava sobre um fundo amarelado e vinha dessa luz bizarra um torpor oprimente, um tédio pesado. Cantos de galos perdiam-se nesse silêncio suspenso e ardente da natureza.

O coronel entrou ligeiro, encalmado, com o seu passo rebolado, curto e macio de homem baixo e gordo, que ainda conserva a elasticidade dos músculos sob o excesso de massa adiposa.

Dando com Celina, estacou, tirando o chapéu, com um afluxo de sangue para a face mole, e perguntou, cravando o raio lúbrico da pupila na silhueta serpentina da moça, que se desenhava provocante nessa atitude de preguiça e languidez:

— Está aí sozinha?

Ela limitou-se a menear afirmativamente com a cabeça, de que pendia, solta, a trança espessa e negra do cabelo, varrendo o chão a cada balanço da cadeira, cujo movimento o seu pé ativava, firmando-se no soalho. Nem sequer descruzou as mãos juntas atrás da nuca; e assim abandonada, ondulosa e fina, de um palor mórbido e poético, pareceu ao coronel mais tentadora e também mais próxima do seu desejo, agora afastada do marido que sempre era uma barreira incômoda.

Mas que diabo lhe diria? Ele, afinal, pouco entendia dessas coisas de corte, de palavrinhas açucaradas; era muito prático, só cultivava o processo do atracão.

Ela, ao contrário, simulava um entorpecimento profundo; mas, no seu íntimo, o vai-e-vem dos pensamentos febris ia acompanhando o vai-e-vem da cadeira de balanço. Estava muito aborrecida, muito perplexa, como se a vertigem lhe perturbasse a nitidez das vistas e até da vontade. Nessa mesma manhã, a Olga lhe fizera uma cena de gritos e choros, exprobando-lhe violentamente ter largado a casa do marido para se atravessar entre o Gilberto e ela, que era solteira e poderia, afinal, prendê-lo tanto, que ele pensasse em desposá-la. Mas não! a senhora D. Celina, apesar de já casada e com filhos, não suportara a idéia de ver seu namorado antigo apaixonar-se por outra e, de inveja, de maldade, atirara o juízo pelos ares e correra a meter-se em Santa-Teresa...

— Sabes o que tu és? vociferou a pequena escarlate de cólera, és uma perversa! és uma doida! nem mãe sabes ser...

— E tu, rompeu Celina no seu tom desabrido, tu és uma oferecida, que levas a fazer olho a um rapaz que mostra bem não te querer...

— Repete isto, se és capaz...

— Repito dez, vinte vezes...

— Celina!...

Ficaram a olhar-se, arquejantes, medindo-se, e talvez chegassem a qualquer ato de brutalidade, se Julieta não acudisse a separá-las, rindo com a sua filosofia um pouco cínica do furor de ambas:

— Gentes! vocês parecem duas frangas a brigar por causa de um galo... Deixem disso, criaturas! O galo é que escolhe a galinha...

Gilberto é que andava atrapalhado; mas, como decididamente, das duas irmãs, Celina era a que apresentava menores responsabilidades, sobretudo depois do abandono do lar conjugal, o que a punha na posição de uma mulher disponível, ele acabara optando por ela, na prudência de seu egoísmo.

Coitada! dizia, a retorcer, pensativo, as guias brilhantes do bigode cheiroso, ela gosta tanto de mim, que até cometeu por minha causa essa tolice de abandonar a sua casa, não lhe importando perder a consideração de senhora casada. E foi o meu primeiro amor de rapaz, tem direitos adquiridos...

O diabo é aquele geniozinho de histérica, mas a irmã também é outra peste — e mais perigosa, porque é solteira. Então, antes ela; e com muitas cautelas, todos os cuidados preventivos contra uma absorção exagerada, a nossa ligação pode ser encantadora.

Tratou logo de elaborar mentalmente um plano perigoso e firme, que acomodasse os prazeres da paixão com os interesses do egoísmo e as imposições da respeitabilidade provinciana. Assim, por exemplo, nunca Celina iria a Belo Horizonte, nem jamais saberiam lá que ele tinha uma amante fixa no Rio, onde viria de quando em quando passar alguns meses, como agora, a pretexto de divertir-se e tomar um banho de civilização.

Uma coisa podia garantir: havia sempre de ser generoso. A sua amante viveria com todo o conforto, otimamente instalada num bairro afastado, vestindo bem, usando jóias, indo ao teatro com a sua dama de companhia — alguma senhora velha e de aparência austera, sempre trajando de preto, com as suas luvas e o seu chapéu sério, que ele se encarregava de arranjar-lhe cuidadosamente. Uma mulher amável e complacente, que nunca lhe exacerbasse os nervos. Celina podia tomar até uma professora de piano, para se entreter. E quando ele chegasse de Minas, que horas ardentes de carícias! Aquele corpinho sinuoso devia vibrar sob os beijos apaixonados como as cordas tensas e elétricas de um violino sobre as quais passasse a doçura harmoniosa do arco sutil, num pianíssimo pouco a pouco ascendendo à tempestuosa e arrebatada torrente das notas soluçadas, delirantes. Entre os seus braços morenos, ele gemeria, pálido, este verso de Richepin:

Madame, il faut nourrir Je feu quand on l'attise.

E inflamado por estas idéias, por estas resoluções que, enfim, assentavam praticamente o programa dos seus atos, na contingência embaraçosa em que se encontrava, Gilberto saiu nervosamente do quarto, a sacudir preocupações, e foi esbarrar, por um inesperado acaso, na própria Celina, sozinha nessa sala de visitas onde mais tarde devia também achá-la o Coronel Juvenato. Até então ele só a vira no meio da família, como guardada pelos olhos vivos e inexoráveis da Olga: mas agora a pequena fora ao Instituto, a Julieta saíra para os seus giros costumeiros e D. Adozinda fazia uma tachada de doce de coco na cozinha. Que feliz casualidade! Todos os hóspedes fora ou recolhidos aos seus aposentos — e ela ali, toda esbelta no peignoir emprestado de uma irmã, dispondo ramos de flores nos vasos, ao silêncio pesado desse meio dia calmoso!... As venezianas estavam cerradas a meio... Vinha do jardim um aroma de ervas aquecidas por esse mormaço amarelo...

Gilberto enlaçou-a pela cinta e disse-lhe baixinho, junto à orelha que logo se ruborizou:

— Preciso muito falar-te, meu amor... Mas onde?

Ela torcendo a haste de uma dália, respondeu com a voz um pouco ofegante, sem o fitar:

— Ora que pergunta!... Aqui mesmo... Pois não estou ao seu lado...

Ele, fingindo enleio, tomou:

— Aqui... é impossível, meu bem!... Temos que conversar muito, muito... A nossa vida vai decidir-se...

E tentou dar-lhe um beijo, mas Celina fugiu com o rosto, de repente pálida como o roupão que a vestia. Repetiu, cravando nele um olhar mais assustado do que amoroso:

— A nossa vida vai decidir-se?... Assim? de repente? Mas como? — e pousou as duas mãos abertas sobre os ombros do moço, mantendo-o afastado e sob a sua vista interrogativa, ansiosa — Que pretendes fazer de mim?...

Ele virou um pouco o rosto para beijar os dedos apoiados sobre o seu paletó; e, sorrindo com ternura, explicou-se. Que decisão podia ser a deles senão de viverem juntos, amantes, escondidos em algum ninho cetinoso, calado e florido de rosas, onde nenhuma vigilância ciosa ou indiscreta lhes estorvasse a paixão? Ela empalidecia cada vez mais, com um tremor nervoso nas mãos que tinham abandonado os ombros de Gilberto; e ele continuava a enumerar as delícias desse paraíso que seria a vida futura de ambos, livres, felizes, entregues à única embriaguez da paixão. Acabou por inquirir, observando-a e já um pouco impaciente:

— Não é verdade que gostas de mim?

Ela respondeu afirmativamente com a cabeça.

— Então, prosseguiu Gilberto, por que esse silêncio diante do que estou a dizer-te? Falo-te do que só pode ser uma aspiração comum, e tu te calas, reservada, esquiva... A gente deve ter lógica, minha filha... Não quiseste que eu amasse tua irmã; fugiste de casa para te interpores entre ela e mim, impedindo um casamento que aliás nunca me passou pela cabeça. Mas tu imaginaste isso e vieste, como louca, deixando para trás a posição definida, o marido, os respeitos sociais, para te aproximares do meu amor. Agora não podemos parar aqui, ou então...

Ela ergueu para Gilberto uns olhos refulgentes.

— Ou então te arrependes e retrocedes, e eu desapareço... É isto que queres?

— Não! não!... balbuciou Celina, fazendo um gesto instintivo para o reter.

— Então, minha querida, insistiu Gilberto com mais calor, temos de traçar juntos as bases da nossa vida nova. Acabaram-se as perplexidades! Sou livre, sou rico, amo-te, o mundo é largo, e aceito uma ligação contigo com o fervor de um velho namorado. Vamos combinar o plano material da tua e da minha existência, ora unidas, compreendes?...

Ela disse que compreendia, sim, reunindo agora as flores esparsas num grosso ramalhete, de que rolavam pétalas sobre a mesa junto à qual ambos falavam, de pé. E o rapaz via-lhe o perfil muito puro, inclinado sobre as rosas e as dálias, que os seus dedos iam tremulamente ajuntando, numa visível perturbação. Ele sentiu de repente o fogacho de um desejo vivo e, olhando em tomo, atirou-se àquele pescoço franzino que sempre o tentara e murmurou, sôfrego, passeando os lábios vorazes sobre a pele morena e fina, junto à orelhinha escarlate:

— O que temos a deliberar é muito comprido. Deixa-me entrar esta noite no teu quarto, para conversarmos a gosto, ouviste?

Falava com a autoridade de quem já supõe a presa segura, sem mais defesa.

Mas ela estremeceu toda, protestando com uma voz débil de rola gemente e arisca:

— Oh! Gilberto!...

Ele a prendeu com mais veemência entre os braços cobiçosos:

— Que tem? que tem, meu amor? pois nós não vamos viver juntos? Consente... A Lucília está dormindo estes dias com tua mãe, que eu sei... E só encostares logo a porta, sem dar volta à chave, que eu prometo entrar sem que ninguém me veja. Ninguém! E para conversarmos, Celina!... Aqui não se pode, tu sabes, que as duas velhas do tempo da D. Eufrásia andam sempre a espiar... Vamos, deixa... Esta noite, sim?

Beijava-a, persuasivo, ardente, buscando o consentimento nos olhos dela quando sentiu que a moça o repelia, para logo depois o enlaçar, ela própria, unindo-lhe ao rosto a face de súbito inundada de lágrimas, enquanto ia balbuciando no tom sentido e doloroso de um ente maltratado em suas mais caras ilusões sentimentais:

— Ah! Gilberto! ah! Gilberto!... Gilberto!...

— Que é, Celina?!... bradou ele, espantado.

— Eu pensava que tu me amasses de outro modo!... Eu pensava... eu pensava... Nem sei mesmo... Estou doida... Era um romance!... um sonho!

E desatou em soluços junto ao ombro dele, que sentia a quentura desse pranto molhando-lhe o pescoço, dando-lhe a sensação de um desapontamento aborrecido. Que maçada! que família! Eram sempre complicações, histórias... Veio-lhe um repentino assomo de furor e desprendeu-se desses braços histéricos, afastou a face lacrimosa, enigmática, dizendo simplesmente, a caminho da porta:

— Está bem, não é preciso chorar. Já entendi. Adeus!...

Mas ela se lhe atravessou à frente agarrando-o, a arquejar, muito pálida, com umas lágrimas redondinhas a lhe escorrerem ainda pelas faces, e tartamudeava, enrouquecida pela emoção:

— Não, Gilberto! Não, não!... Espera! Não sejas mau!...

O cabelo abundante se soltara dos grampos, rolando-lhe pelo dorso numa só trança comprida, pesada: e ela tomou assim um ar mais infantil, imagem da Celina do passado, que fez vacilar a cólera do rapaz. Ele disse.

— Eu, finalmente, não te compreendo, eis aí... Queres ou não queres que nos amemos? Depende de ti, filha. Se queres, por que não me deixas penetrar no teu quarto, para conversarmos livremente?

Ela estremeceu de novo, balbuciando com timidez:

— Tanta precipitação! Eu queria...

— Ora, interrompeu Gilberto, sacudindo os ombros, são tolices. Não somos crianças, nem nos conhecemos de hoje. Queres agora que eu me ponha a fazer-te a corte e a recitar-te madrigais, como dantes, quando eras solteira?

Celina suspirou.

— Deixa-te de nervos e suspiros, que me desagradam. E vamos — baixou a voz com carinho — posso ir logo à noite?

A moça torceu as mãos, levantando para ele uns olhos súplices, aflitos e indecisos.

— Posso?

Uma chave, porém, rangeu no meio do corredor, abrindo algum quarto de hóspedes, e Gilberto afastou-se em pontas de pés, foi espreitar:

— São as pestes das velhas! ciciou de longe; elas aí vêm...

E mais com a mímica do que com a palavra, tornou a inquirir com um ardor concentrado no olhar e no mover misterioso da boca:

— Posso?...

Os passos aproximavam-se; e Celina, como de súbito aliviada, forte respondeu também num cicio, mal movendo os lábios:

— Logo ao jantar eu digo...

Gilberto saiu pelo jardim, abafando uma praga de raiva e mortificação. E Celina, depois que as velhas atravessaram a sala para ir colher uns raminhos de losna perto da escada, agarrando as flores que ajuntara, jogou-as fora com um gesto nervoso, sem a mínima compaixão das pobres rosas e dálias já amolecidas pelo calor crescente e que foram acabar de murchar sobre a terra crestada dos canteiros; em seguida, como extenuada, veio estender-se na cadeira de balanço, presa de um alquebramento físico que só lhe consentia a febre do pensar. Doía-lhe a cabeça. Tinha como a sensação de um perigo iminente que convinha evitar: mas como?... Estava perdida, perdida... Oh! esse Gilberto, com que facilidade, com que desrespeito dispunha da sua vida toda! Não, não fora um amor assim que ela sonhara, sem poesia, sem uma exaltação romântica, o culto à mulher querida e desejada com delicadeza reverente. Ele, não! era logo montar casa, suprimir fórmulas de amor, penetrar no seu quarto, ajustar planos práticos, tratá-la como amante certa — não como senhora que se requesta com a deliciosa timidez da incerteza.

Tratava-a como filha da senhora D. Adozinda, proprietária de uma pensão, onde ele pagava a sua diária e tinha o direito de reclamar sobre a comida, o asseio, e não como esposa de uma homem de bem, que largara o seu lar por amor dele e estava disposta a fazer-lhe o sacrifício da sua consideração, a deixar talvez os seus filhinhos entregues ao pai, afim de viver unicamente para o eleito do seu coração... Nem lhe consentia o pudor! a vacilação diante do passo decisivo que aniquilaria irremediavelmente toda a sua existência presente... Que egoísta, esse Gilberto!

Uma sombra, agora, empanara de repente a lividez do mormaço, mas passou, fugiu — rolou muito longe um trovão abafado. Celina, mais opressa, acelerou o balanço da cadeira. Era esquisito, mas por, muito que ela fizesse, não podia idear essa vida comum com um amante, fora de todas as normalidades sociais — — e, querendo imaginar o ninho ilegítimo, claro, luxuoso, cheio de rosas e tapetes, que tanto lhe apetecera outrora, nos momentos de impaciência, era ao contrário a velha casa confortável e segura da rua das Marrecas que lhe aparecia, com o Alfredo a contemplá-la num êxtase baboso de eterno namorado. Mas, santo Deus! qual era a sua verdadeira aspiração, no fundo? Não se entendia mais... Era um horror! Ao mesmo tempo, num cansaço enorme, os seus pensamentos desciam a detalhes fúteis, insignificantes. Não trouxera roupa e andava com peignoires emprestados. Até quando ficaria assim? O Alfredo mandaria os seus vestidos, as suas coisas de uso pessoal?

Não! Não! era melhor que não mandasse! Que impressão atroz ver entrar por ali adentro a sua mala familiar com roupas e o mais que lhe pertencia, como um caixão funerário marcando o enterro de todo o seu passado honesto! no entanto...

Mas passos apressados e risos ladearam a casa: eram Julieta e Olga, fugindo à próxima trovoada; e Celina, como se recebesse uma punhalada, pensou de chofre no desprezo com que a olharia algum dia futuro essa petulante irmã mais nova, causa da sua desgraça se jamais a encontrasse já desqualificada, amásia do Gilberto e não esposa do Alfredo Galvão! Que vingança, nesse olhar com que ela havia de corrê-la toda! E o orgulho irritadiço da moça sangrou de antemão. As realidades, surgindo da inconsistente miragem do seu romance, entraram a terrificá-la... Não se tratava mais agora de amor, de ciúmes, de beijos roubados, de culpas ainda perdoáveis: tratava-se do passo decisivo e supremo, do grande salto, da irremediável queda — e a sua alma inteira, a sua alma frívola, caprichosa, mas incapaz dos arrastamentos sanguíneos da paixão, essa alma de menina mal educada tremia, desfalecia ante os perigos que ela própria provocara. Ah! como lhe doía a cabeça! E se um dia o Gilberto a abandonasse?...

Foi quanto entrou o Coronel Juvenato, que se pôs a fingir que lia a Notícia perto da sua cadeira, observando-a por cima do jornal. Um outro trovão rolou, mais forte; a sombra voltou a obscurecer a claridade lívida do céu, agora coberto de nuvens plúmbeas, enovelando-se, e um como frêmito encrespou violentamente as folhagens das árvores, enquanto grossas gotas de chuva se estampavam na terra gretada do jardim. Bateram janelas... Um relâmpago fulgurou e a chuva cantou mais rija no arvoredo.

Repentinamente, Celina teve a percepção nervosa, através das pálpebras fechadas, que um vulto se interpunha de mansinho entre ela e a luz, fitando-a de perto; recebeu no rosto o calor de um bafo e, numa presciência horrível, abrindo os olhos desesperados, viu junto à sua face o semblante balofo e todo trêmulo do Coronel Juvenato, que não resistira à instigação audaz do seu delírio.

Como?... Também esse? Então já a supunham carniça?... E furiosa, desatinada, com as forças duplicadas pela repulsão e a cólera, Celina repeliu o ousado homem, soltando gritos de histérica, e a sua mão fina e ágil apanhou em cheio as banhas gelatinosas dessa cara atrevida, que enfim recuou sob o castigo, transfigurada agora por uma raiva indomável de conquistador derrotado.

— A senhora teve a coragem de esbofetear-me, a mim? — rugia o coronel, levando o lenço à bochecha marcada pelos dedos da moça.

— Ainda foi pouco, infame! infame! infame!... bradava Celina num "crescendo", e de pé, inteiramente demudada.

A estridência dos seus clamores abalou a casa inteira e o primeiro a chegar foi Gilberto, cor de cera, no pavor do que pudesse ser aquilo. Os dois homens encaram-se, compreenderam-se, mas não se atacaram, na conivência cobarde do medo do escândalo.

Já chegava, porém, D. Adozinda, arrastando uma velha camisola e com os olhos bogalhudos ansiosos; chegavam Julieta, Olga — esta com um sorriso de ironia à flor dos lábios vermelhos, e vários hóspedes de aspecto interrogativo. Que era? Que sucedera?...

Celina, então, numa reação de nervos, tremendo, quase a chorar, apelou para o socorro de D. Adozinda, estendendo-lhe os braços implorativos:

— Mamãe, eu estava aqui sozinha, bem sossegada... . Foi esse bruto, esse miserável — apontava para o Coronel Juvenato — que se atirou a mim como a uma criada.

— Já uma vez, a minha conta, que eu me mudo agora mesmo desta pensão. Não estou para aturar insultos da sua filha...

— Oh! Coronel! gemeu D. Adozinda, lívida, por quem é!... Não se precipite, espere... Eu arranjo tudo... Celina, vamos, que é isso?...

Mas um murmúrio rompeu. As opiniões falavam contra essa atitude inexplicável e repugnante de uma mãe, até que Julieta, com o seu desplante cômico, provocou a nota cômica que serviu felizmente de desfecho à penosa cena.

— Coronel! disse ela brejeiramente vá banhar o rosto n'água fria com sal antes de partir, que a bochecha está inchando... São os inconvenientes...

Risadas esfuziaram e o cearense saiu às patadas violentas pelo corredor. Julieta sibilou maviosamente:

Adeuzinho!...

Mas, nesse instante, um vivo clarão iluminou em cheio o jardim, estalou o trovão bem em cima da casa, com um formidável estrépito de louças partidas, folhas d'árvore entraram girando pela sala, zurzidas pela ventania e às bátegas de chuva grossa — e Celina, angustiada, veio cair sobre o vasto seio de D. Adozinda, implorando num choro de menina nervosa, vencida por tanta emoção:

— Mamãe, mamãe! estou com medo! acuda-me!...

A viúva tinha a feições contraídas e os olhos implacavelmente baixos, rancorosos... Não os ergueu com ternura para a filha que se lhe aninhava no regaço; não lhe abriu também os braços...